Daniel
Eu bati a porta de casa com força demais.
O som ecoou pelo apartamento pequeno, barato, alugado às pressas. Nada ali tinha personalidade. Nada era meu de verdade. E aquilo me deu mais raiva ainda.
Joguei as chaves na mesa e passei a mão pelo cabelo, andando de um lado pro outro como um animal preso. A conversa com a Pamela ainda martelava na minha cabeça — não, essa palavra não, risco mental imediato — a conversa não saía da minha cabeça.
Ela desconfiou.
Ela perguntou.
Ela olhou pra mim como quem tenta decidir se confia ou se foge.
E o pior: eu deixei ela ver demais.
— Burro — murmurei para mim mesmo.
Fui até a cozinha, abri a geladeira vazia, só água e uma cerveja esquecida. Peguei a cerveja, mas nem abri. Joguei de volta. Não era hora de apagar nada. Era hora de pensar.
Eu sentei no sofá e encarei o teto.
Eles têm tudo.
Tudo.
Mansão. Empresa. Dinheiro que não acaba. Família perfeita. Filhos saudáveis. Amor. Apoio. Nome forte.
E eu?
Eu tive que enterrar minha mãe sozinho.
Eu t