Fugindo de um monstro...
Brianna
O som distante dos passos no corredor ecoava como um lembrete de que eu ainda estava ali, viva, mas vazia.
O hospital era silencioso demais, como se até o tempo tivesse piedade de mim.
A luz fria refletia nas paredes brancas e eu me via nelas, pálida, sem vida, tentando ser forte o suficiente para sustentar algo.
Toquei o curativo na testa e senti o ardor atravessar minha pele. Era como se cada dor física gritasse o que meu coração tentava esconder: ele quase me matou.
Ele foi tão cruel, que o meu bebê morreu, o bebê que eu sequer sabia estar carregando.
Por um instante, o mundo pareceu parar.
Como pode um corpo abrigar vida e luto ao mesmo tempo? Eu chorei até não restar mais lágrimas. Até que tudo dentro de mim virou um deserto.
Um pouco mais de três anos com alguém que pensei que me daria amor. Ou do que eu achei que fosse meu amor.
Ele me fazia rir, me olhava como se eu fosse a única mulher no mundo. Prometia o impossível e eu acreditava, o nosso primeiro ano juntos foi como um viver um sonho, como estar em um romance puro e sincero, em um campo cheio de rosas belas e perfumadas.
Mas o tempo foi arrancando as pétalas e mostrando os espinhos. Os gritos vieram antes dos empurrões. Depois, vieram as mãos.
E, por fim, o medo, o tipo de medo que se esconde sob a pele, que dorme ao lado e desperta com o som de uma chave na porta.
Nos últimos dois anos, aprendi a sobreviver fingindo viver. Aprendi a sorrir com a boca e chorar por dentro.
A inventar quedas, a esconder hematomas, a defender o indefensável. Mas agora não havia mais nada para defender. Nem um amor, nem uma vida.
A enfermeira entrou com um sorriso ensaiado e me entregou os papéis da alta. Para ela, era apenas mais uma paciente voltando para casa.
Mas ela não sabia que a minha “casa” era o inferno de onde eu estava fugindo.
Guardei os papéis no bolso e olhei para o espelho pela última vez. A mulher refletida não era mais a mesma. Aquela que um dia acreditou em promessas e no amor, estava morta.
No lugar dela, nascia uma mulher nova. Ferida, mas respirando. Assustada, mas decidida.
Peguei minha bolsa, os poucos pertences que restavam, e caminhei pelo corredor com as pernas tremendo.
Cada passo era uma batalha. Cada respiração, uma lembrança.
Quando as portas automáticas se abriram e o ar frio da madrugada me tocou o rosto, algo dentro de mim despertou. Era frágil, quase imperceptível, mas estava ali. Força.
Ironia ou não, meu nome é Brianna, e ele significa forte.
Eu precisei sangrar, perder, e morrer um pouco para entender o que essa palavra realmente queria dizer.Dessa vez, eu não iria voltar.
Não até estar longe o bastante para ele nunca mais me encontrar.
Eu não sabia para onde iria. Mas sabia exatamente de onde nunca mais voltaria.
Eu estava esperando um táxi, quando o Mark apareceu e estava prestes a entrar no hospital, eu me escondi imediatamente, não podia mais aguentar viver refém de mim mesma.
Quando ele entrou no hospital sem que me visses eu peguei imediatamente um táxi.
O vento frio da noite batia contra meu rosto enquanto o táxi se afastava do hospital.
A cidade ficava pequena no retrovisor e, com ela, tudo o que me destruía.
Não olhei para trás.Se olhasse, talvez perdesse a coragem de viver.
Meu passaporte na bolsa, era a prova de que eu tentava fugir e ele sempre me encontrava , e o valor em dólares que eu fiz questão de ter, pagava a passagem para minha liberdade.
Mas eu não precisava de luxo, só de distância.
Horas depois, o avião cruzava as nuvens e, pela primeira vez em muito tempo, eu dormi.
Quando acordei, estava em outro país, outro fuso horário, outro mundo. O céu parecia mais claro, o ar mais leve.
Eu ainda sentia dor, mas era uma dor diferente ,a de recomeçar. Peguei um pequeno quarto em um hotel antigo, no centro da cidade de Paris. As paredes tinham cheiro de madeira e histórias antigas.
Eu me olhava no espelho, tentando reconhecer a mulher que sobreviveu.
Mas ainda havia medo.E o medo me acompanhava como sombra, de que ele poderia me encontrar.
No dia seguinte, desci para o saguão. Precisava de um emprego, de um rumo, de qualquer coisa que me fizesse esquecer.
Fui até o shopping, eu precisava encontrar uma forma de sobreviver em Paris. O elevador estava quase fechando quando corri para entrar e foi então que o vi.
O rosto dele congelou o sangue em minhas veias.
Leonard , amigo do Mark. Aquele que sabia de tudo. O homem que, se me reconhecesse, poderia avisá-lo, e eu jamais seria livre.
Meu coração começou a bater descompassado.
Eu me virei instintivamente, querendo desaparecer e permaneci no elevador, ele não me viu o que me deixou aliviada.
Mas, antes que a porta se fechasse, um homem entrou. Alto, imponente. Terno escuro. Olhos cor de tempestade. Ele exalava poder e um mistério quase perigoso. Nossos olhares se cruzaram.
E naquele instante, algo nele mudou. Um reconhecimento súbito. Um passado esquecido que de repente se acendeu.
Ele me olhou fixamente, como se não respirasse.
E então, sem pestanejar, falou com voz firme:
— Você é a mulher que estou esperando.
— O quê? — sussurrei, confusa.
— Minha noiva — ele completou, encarando o homem que se aproximava no corredor.
Meu corpo gelou. Noiva? O que ele estava fazendo? Dei um passo para trás, tentando entender, mas a porta do elevador começou a se fechar. Quando tentei sair, a mão dele segurou meu braço com força.
— Espere… — murmurou ele, baixo.
Um gemido escapou de mim, involuntário. A dor era aguda, e ele percebeu.
O olhar dele desceu até minha manga longa e, ao ver o que havia sob o tecido, sua expressão mudou.
Hematomas. Roxos antigos. Marcas que contavam histórias que eu nunca quis repetir.
— Quem fez isso com você? — a voz dele sussurrava em meu ouvido, saiu rouca, controlada, perigosa.
Não respondi. Só desviei o olhar, sentindo o nó na garganta.
A campainha do elevador soou e, quando as portas se abriram, Leonard apareceu.
Meu corpo reagiu no instinto.
Me virei de imediato e escondi o rosto contra o peito do homem, que me confundia como sua noiva.
O perfume dele era amadeirado e quente.
O suficiente para me fazer esquecer, por um segundo, de tudo o que temia.
O tempo pareceu parar.
Leonard olhou para nós, confuso, mas logo desviou.
Talvez acreditasse na farsa.
Talvez não. Mas eu sabia que aquele homem acabara de me ajudar.
Quando Leonard saiu do elevador, respirei fundo.
E só então percebi que ainda estava nos braços dele, tentei me afastar, mas ele me abraçou forte.
— Quem é você? — perguntei, com a voz baixa.
Ele me olhou por um momento, como se medisse o que podia dizer.
E então, com um meio sorriso e um olhar que parecia atravessar a alma, respondeu:
— Ares Sins, não lembra de mim Brianna?— ele perguntou em seguida, com uma curiosidade quase perigosa.
Ele inclinou a cabeça, os olhos ainda fixos em mim.
— Briana… — repetiu, saboreando cada sílaba. — Você não faz ideia de quanto tempo esperei para te reencontrar.
Meu coração parou por um segundo. Como ele poderia me conhecer? E por que, por algum motivo que eu não entendia, mas estar perto dele parecia seguro.
—Como sabe o meu nome?
—Então você não lembra de mim, o melhor amigo do Davi, costumávamos brincar juntos, não lembra?
Meus olhos encararam o rosto dele, lembrei de que após o incêndio e a morte do Davi, meu melhor amigo, o Ares que era melhor amigo do Davi, também tinha sido hospitalizado por causa do incêndio e depois nunca mais o vi, pela primeira vez em anos eu senti que uma parte do Davi estava viva diante de mim, e era seu melhor amigo, o Ares.
Eu chorei ali mesmo, pois ver o Ares, me lembrou de tudo que vivi com Davi e de como eu gostaria que ele não tivesse sido morto e que estivesse vivo.
continua...