Capítulo 5

A gente se encarou por alguns segundos que pareciam longos demais.

Se fosse em outro dia, outro momento, talvez ela tivesse se aproximado.

Talvez eu deixasse.

Mas agora, tudo ainda era um campo minado.

Então, devagar, quase pedindo permissão, Ever ergueu a mão e tocou o meu braço. Um toque leve, quase inexistente, como se tivesse medo de quebrar alguma coisa entre nós.

— Você tá gelada — ela disse, abrindo aquele sorrisinho torto. — Parece um picolé.

— Culpa sua. Me fez ficar do lado de fora de madrugada.

— Ah, claro, foi toda minha culpa. A princesa Allie nem teve escolha, foi sequestrada pelas pedrinhas assassinas.

Soltei uma risada abafada, empurrando de leve o ombro dela.

— Idiota.

— Mas uma idiota fofa. Admite.

— Tá sonhando alto demais.

Ela arregalou os olhos, fingindo indignação.

— Uau. Que brutalidade. Vou anotar no meu diário.

Não segurei a gargalhada. E o jeito como ela me olhou depois, meio maravilhada, meio aliviada, como se só de me ver sorrir ela respirasse melhor... fez meu coração doer de um jeito bom.

A conversa foi escorregando pra bobagens.

Falamos sobre o Will, sobre como a Jenn provavelmente tava dormindo largada com um monte de embalagens de doce em volta, sobre a escola ser um saco e as pessoas mais ainda. Ever soltava piadas idiotas a cada cinco frases. E eu ria.

Ria como não ria há dias.

— Sabe o que eu acho? — ela disse, jogando o corpo pra trás e apoiando os cotovelos na cama.

— O quê?

— Que você tem cara de quem chora vendo vídeo de filhote de cachorro.

— Eu não tenho.

— Tem sim. Aposto que o YouTube te conhece tão bem que só recomenda isso. Filhotes e playlists de "girl in red".

— Cala a boca, Ever.

Ela deu uma gargalhada alta, quase se dobrando.

E eu acabei rindo junto, mais pelo som dela do que pela piada em si.

— Deita logo — falei, puxando o travesseiro e me ajeitando.

— Tem certeza? — o tom dela era brincalhão, mas os olhos... estavam tão suaves.

— Vem aqui. Para de drama.

Ela se aproximou, meio desconfiada, até se deitar ao meu lado. Ficou um segundo sem saber onde pôr o braço, então eu puxei a mão dela e coloquei em volta da minha cintura. Foi só aí que ela relaxou, soltando o ar contra meu pescoço.

Ficamos assim.

Só sentindo o calor uma da outra.

O quarto inteiro pareceu diminuir, ficar só no tamanho do nosso abraço.

Em algum momento o silêncio se instalou. Mas não era desconfortável.

Era quase... necessário.

Ever deslizou o nariz pela minha bochecha, um toque tão delicado que quase fez cócegas.

Eu virei o rosto pra ela. Nossos olhos se encontraram tão de perto que consegui ver cada pontinho claro no verde dos olhos dela.

— Oi — ela sussurrou, com um sorriso pequeno.

— Oi.

— Isso é loucura, né?

— Total.

— Mas eu não trocaria por nada agora.

— Nem eu.

Ela passou o polegar pela minha cintura, depois subiu pela costela, num carinho lento. Meu corpo reagiu com um arrepio, e eu senti o sorriso dela se alargando.

Então foi natural.

Quase inevitável.

Nossos rostos se aproximaram, pararam por um milésimo de segundo, tempo suficiente pra eu perceber o quanto queria aquilo e então nos beijamos.

Um beijo calmo, diferente da urgência da primeira vez.

Um beijo que parecia dizer: eu ainda estou aqui.

Que dizia: não vai ser fácil, mas eu quero tentar.

Eu apertei mais o braço em volta dela, e senti Ever soltar um som baixo, quase um suspiro. Quando nos afastamos, ela encostou a testa na minha.

— Você é um problema, Allie.

— Você também.

— Então tá tudo certo.

Ficamos abraçadas assim por um tempo que não sei medir.

Ela fazia carinho no meu braço, depois na minha cintura, depois só me apertava mais perto.

Até que o sono foi chegando devagar, se misturando com aquele sentimento bom que a presença dela trazia.

E, pela primeira vez em dias, eu adormeci leve.

Nos braços dela.

O som do despertador me arrancou do que parecia o último pedaço de um sonho bom.

Eu tateei o celular no criado-mudo, batendo o dedo umas três vezes antes de acertar o botão pra desligar.

Foi só então que percebi.

O lado da cama ao meu lado estava vazio.

Frio.

Virei devagar, como se ainda pudesse encontrar Ever ali, deitada de bruços, o braço jogado por cima de mim, o rosto meio escondido no travesseiro. Mas não tinha nada. Nenhum traço dela além do cheiro do moletom que ainda pairava no quarto.

Um aperto estúpido se formou no meu peito.

Tão típico dela. Sumir sem dizer nada.

Como se tivesse medo de estragar o momento bonito ficando por perto demais.

Suspirei. Me sentei na beira da cama, olhando pro chão como se ele fosse me dar respostas. Depois me levantei, peguei uma troca de roupa e fui pro banheiro, tentando me convencer que não doía tanto assim.

A água quente caiu sobre meu corpo, mas não lavou o incômodo.

O pensamento só rodava em círculos: ela foi embora sem nem se despedir.

Depois de tudo aquilo... ela simplesmente saiu.

Quando voltei pro quarto, ainda secando o cabelo com a toalha, fui largar a roupa suja na cadeira e foi aí que vi.

Um pedaço de papel dobrado, bem no canto da escrivaninha, como se tivesse sido deixado ali com cuidado.

Me aproximei rápido, o coração batendo tão forte que quase doeu.

Abri o bilhete com dedos ansiosos. A caligrafia era um pouco torta, apressada, mas sem dúvida dela.

"Você fica ainda mais linda dormindo.

Não quis te acordar, mas foi incrível.

- E."

Um sorriso estúpido brotou nos meus lábios, escapando antes que eu pudesse segurar.

Aquela era a Ever.

Do jeito torto dela.

Ela não sabia ficar, mas também não ia embora de verdade.

Deixava rastros.

Deixava bilhetes.

Segurei o papel contra o peito por alguns segundos, fechando os olhos.

Respirei fundo. E de repente, o dia pareceu um pouco menos difícil.

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