Capítulo 4

No caminho pra escola, cada passo parecia arrastar comigo o gosto ruim da festa, o soco doído de realidade que a Ever tinha me dado ou talvez o soco literal que ela deu no Valentin.

Cheguei na sala uns bons quinze minutos antes do sinal. Me sentei, bati o pé no chão, fiquei olhando pra porta.

Esperando.

O estômago revirava. Eu precisava falar com ela. Precisava entender o que tinha acontecido, por que aquele surto, por que aquele olhar que queimava tudo mas não me dizia nada.

Mas o tempo foi passando.

O professor entrou, os colegas se espalharam pelas cadeiras, o burburinho cresceu... e nada da Ever.

O lugar dela, duas fileiras à frente da minha, ficou vazio. E aquilo doeu mais do que eu estava pronta pra admitir.

O dia foi lento.

Parecia que o relógio fazia questão de me torturar, empurrando os minutos um a um, como se cada tic fosse um lembrete de que ela não ia aparecer.

No intervalo, me sentei com o Will, o Valentin e a Jenn. Tentei fingir normalidade, mas sentia minha testa quase suar de tanto esforço.

— E aí, princesa, recuperada da festa? - Valentin perguntou, com aquele sorriso, o canto da boca ainda machucado.

Fiquei meio sem graça.

— Desculpa... pela Ever.

— Relaxa. Já apanhei por coisa bem menos divertida — ele disse, rindo, e piscou pra mim.

— Mas tô bem. E ainda interessado, caso queira saber.

Will revirou os olhos, deu um tapa leve na nuca dele.

— Dá um tempo, cara.

— O que foi? Só tô deixando claro - Valentin rebateu, rindo.

Jenn ficou me olhando. E eu soube que ela lia meus pensamentos. Sabia que não era tão simples.

Ela se inclinou pra perto.

— Você não precisa dar corda pra isso se não quiser, Allie.

— Eu sei - murmurei.

Mas a verdade é que nem tinha cabeça pra lidar com Valentin. Tudo que eu queria era que a Ever aparecesse, me explicasse, fizesse uma piada idiota, dissesse que eu estava exagerando. Qualquer coisa que não fosse esse silêncio.

Quando a aula acabou, o sol já estava mais baixo, a tarde escorria pelas ruas quentes. Me despedi do Will e do Valentin na porta da escola, inventando uma desculpa pra não ir tomar um açaí com eles.

Jenn me acompanhou até a esquina.

— Você tá estranha - ela disse, direta como sempre.

— Eu tô bem.

— Não tá. — Ela segurou meu braço, me obrigando a parar. — Se quiser, eu passo lá depois. Levo pipoca, chocolate, a gente vê filme ruim.

Fiquei olhando pra ela, pra aquele jeito dela de sempre aparecer quando eu mais precisava, mesmo que eu nem dissesse nada.

— Talvez — sorri fraco. — Te mando mensagem, tá?

— Tá. Mas me promete que se sentir merda me chama antes. Não fica guardando pra você.

— Prometo.

Ela me puxou pra um abraço rápido e seguiu pelo caminho dela.

Eu fui pro meu, abraçando a mochila contra o peito, tentando respirar fundo.

Desde que cheguei da escola, fui direto pro quarto.

Tentei comer alguma coisa. Não desceu.

Tentei assistir uma série. Dei pause no segundo minuto.

Peguei o celular, abri a conversa com a Ever.

Olhei.

Fechei.

Respirei fundo.

E então escrevi:

"Sei que você não quer falar. Mas eu tô tentando entender. Você podia pelo menos me dizer se tá bem."

Fiquei encarando aquela mensagem por alguns segundos, como se isso fosse fazer ela responder mais rápido.

Nada.

Abri outra notificação.

Valentin.

"Não sei o que aconteceu ontem. Mas eu ainda tô afim de você. Se quiser conversar, sair, tomar um sorvete ou fingir que o mundo não é tão complicado... me chama."

Suspirei.

Apaguei a notificação.

Não consegui responder.

Peguei o fone, coloquei uma playlist meio aleatória e saí.

Nem avisei pra ninguém.

Só queria andar.

Sentir o chão, o vento, o sol queimando o ombro.

Sair da minha cabeça.

Caminhei algumas quadras sem direção. Passei pela praça perto da escola, pela esquina onde sempre esperava o ônibus, pela padaria onde minha mãe costumava comprar café moído na hora.

E foi ali, na sombra de uma árvore torta, que ouvi alguém me chamar.

— Allie?

Virei e vi a Jenn. Cabelo preso num rabo alto, regata preta, fone num ouvido e uma garrafinha d'água na mão.

— Tá perdida? - ela perguntou, se aproximando.

— Na cabeça, talvez - respondi.

Ela riu fraco e parou ao meu lado, sem me forçar a continuar o assunto.

A gente ficou ali alguns segundos.

Silêncio confortável.

Ela respeitava isso, às vezes. E eu precisava.

— Quer andar comigo? — perguntei, por fim.

— Sempre.

A gente seguiu sem pressa. A cidade inteira parecia mais viva que eu, e, por mais que eu quisesse me isolar do mundo, ter a Jenn ali, mesmo sem falar nada, foi tipo um lembrete de que... eu não tava sozinha.

Por mais confusa, falha e caótica que ela fosse, Jenn sempre aparecia nos momentos que eu não dizia que precisava de ninguém.

E isso, mesmo sem consertar nada, dizia muita coisa.

Depois de caminharmos um pouco parei no portão de casa, Jenn me observava atentamente, mas eu apenas disse:

— Eu vou ficar bem, ok? Não precisa se preocupar.

— É impossível não se preocupar com você baby. — Ela disse passando a mão no cabelo e os puxando para trás.

— Eu vou entrar e qualquer coisa eu ligo para você.

— Tudo bem... Mas não deixa de ligar, por favor...

O jeito que ela me olhava, parecia que conseguia ver a minha alma nas isso deixou com a cabeça um pouco mais leve.

Mas o coração ainda... esperando.

Apenas entrei sem olhar para trás.

Joguei o celular na cama e fui tomar um banho.

Vesti uma blusa velha, prendi o cabelo e, de novo, encarei a janela.

A playlist ainda tocava.

E eu... ainda esperava.

Jantei qualquer coisa. Respondi duas mensagens da Jenn dizendo que estava "tudo bem". Ignorei as quatro mensagens do Will querendo me animar com memes idiotas.

Fiz o que dava pra parecer inteira.

Mas por dentro?

Eu ainda tava em pedaços espalhados pelo que aconteceu ontem.

Ever não tinha respondido. Não apareceu na escola. Não postou nada, não deu sinal, não existiu.

Deitei cedo, mas não dormi.

Fiquei rolando no colchão, ouvindo o ventilador girar e a playlist tocar em volume baixo. O som da noite entrando pela janela meio aberta.

Fechei os olhos.

Tentei forçar o sono.

Tentei forçar o esquecimento.

E foi aí que eu ouvi.

Tec.

Tec...

Pisquei, sem entender.

Mais um.

Tec.

Abri os olhos.

Pedrinhas.

Na janela.

Levantei devagar, o coração batendo um pouco mais forte do que devia. Caminhei até a cortina e puxei só um pedacinho.

E lá estava ela.

Ever.

No meio da rua deserta, debaixo do poste apagado da calçada, com um moletom preto de capuz jogado sobre a cabeça, as mãos nos bolsos, o olhar fixo pra cima.

Pra mim.

Fiquei ali parada por alguns segundos.

Tentando ter certeza de que era real.

Tentando decidir se abria a janela... ou o peito.

Abri a janela devagar.

Ela me olhou com um meio sorriso cansado.

— Tá acordada — disse, como se estivesse comentando o tempo.

— Ever... o que você tá fazendo aqui?

— Eu... — ela suspirou, chutando uma pedrinha no chão. — Tava tentando te esquecer, mas não consegui. Aí, sei lá. Joguei pedras na tua janela. Meio clichê, né?

— Totalmente.

— Mas funcionou.

Fiquei olhando pra ela, como se esperasse mais.

Mas ela não disse nada.

Só continuou ali, parada, meio torta, meio perdida.

— Desce. Por favor.

Meu coração apertou.

— Agora?

— Agora.

Hesitei. Olhei pro relógio. Quase meia-noite.

Mas algo nela...

na forma como ela parecia estar segurando tudo pra não desmoronar ali mesmo...

fez meu corpo se mexer sem pedir permissão à minha cabeça.

Calcei qualquer chinelo, vesti um casaco, e desci.

Quando abri o portão, ela ainda estava ali. O capuz jogado pra trás agora, revelando o cabelo bagunçado, os olhos vermelhos, não de choro, mas de quem não dormiu nada.

— Eu não sei como começar — ela disse.

— Então não começa. Só... fala comigo.

Ela me olhou. E pela primeira vez desde a festa, eu vi a Ever. A de verdade. Aquela que se esconde atrás das piadas, das provocações, da pose de durona.

E essa versão dela...

essa versão cansada, sem máscara...

essa era a que eu não conseguia deixar de amar, mesmo que ainda não soubesse se podia.

Ela abaixou a cabeça.

— Eu fiz merda, Allie.

— Fez mesmo.

Ela assentiu.

Sem tentar se defender.

Sem ironia.

— Você quer entrar? — perguntei.

Ela hesitou.

— Só... posso sentar contigo aqui fora um pouco?

— Pode.

Sentamos na escada da frente da casa, em silêncio, lado a lado, as pernas encostando só de leve. A noite estava fria, mas o silêncio entre nós parecia quente, denso, como se dissesse tudo que as palavras ainda não conseguiam.

E por enquanto... aquilo bastava.

O vento da madrugada batia leve, quase como um carinho nos braços descobertos.

Ever sentou ao meu lado na escada da frente, o moletom ainda cobrindo parte do rosto. As mãos estavam enfiadas nos bolsos, os olhos fixos na rua vazia, como se procurar palavras fosse mais difícil do que enfrentar o silêncio.

Eu também não sabia o que dizer.

Não depois daquilo tudo.

Não depois de vê-la com outra.

E depois com raiva.

E depois sumida.

— Você não respondeu minha mensagem — quebrei, por fim, a pausa.

Ela mexeu a cabeça, como se estivesse tentando pensar na melhor resposta.

— Eu vi.

Queria responder.

Mas não sabia como.

Esperei.

— Achei que se eu aparecesse aqui... pessoalmente... você podia me mandar embora com um chute e, pelo menos, tava resolvido.

— Eu ainda posso fazer isso — respondi, seca.

Ela riu. Fraco.

— Tá liberado. É justo.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. Só o som de um carro passando longe. O farol varreu a rua, deixou tudo mais azul por um instante, e se apagou de novo.

— Você quer saber por que eu fiz aquilo, né?

— Quero saber por que você sumiu. Por que fingiu que eu não existia depois da... da noite que a gente passou. Por que apareceu na festa daquele jeito. Por que deu um soco no Valentin.

Quero saber tudo.

Ela soltou o ar devagar, como se cada pergunta minha pesasse mais do que a anterior.

— Eu não consigo explicar tudo. Ainda não. Mas eu juro por tudo... que não foi sobre você.

Virei o rosto pra ela.

— Então foi sobre quem?

— Sobre mim.

Ela já tinha abaixado o capuz. O cabelo caía nos olhos. A boca tava tensa, trincada. A Ever de sempre - toda dureza por fora, e aquele furacão silencioso por dentro.

— Eu não tô acostumada com isso — ela disse, olhando pra mim. — Com sentir. Com me apegar. Com querer alguém.

— Isso não justifica.

— Eu sei. Mas é o que eu tenho.

Ela me olhou como se esperasse que eu levantasse, batesse a porta, dissesse "chega". Mas eu continuei ali. Parada.

Porque, por mais idiota que parecesse...

Eu entendia o medo dela.

O impulso.

A fuga.

— E a garota? — perguntei. — Aquela na festa?

Ever deu uma risada curta, amarga.

— Foi só um escudo. Eu nem sabia o nome dela. Só... deixei que ela estivesse ali. Eu precisava que alguém ocupasse um espaço. Um espaço que você tava ocupando rápido demais.

Meu peito apertou. Não de raiva.

Mas de verdade.

— Eu nunca bebi daquele jeito antes.

Nunca quis provocar ninguém antes.

Mas ontem... eu queria sumir.

E mesmo assim, o único rosto que eu procurava no meio daquela bagunça... era o seu. — Cuspi aquelas palavras em Ever

Fiquei em silêncio aguardando um retorno dela, enquanto ela absorvia cada palavra. Depois de um tempo ela começou a falar.

— Quando vi aquele cara... encostando em você como se tivesse direito... como se ele soubesse o que eu senti quando eu estava com você... — a voz dela falhou. - Eu explodi.

— Você poderia ter falado. Antes. Poderia ter confiado.

— Eu tô tentando — ela sussurrou.

E havia algo nos olhos dela... uma sinceridade crua. Um medo de perder. Uma coragem nova.

E ali, na penumbra da madrugada, na escada da minha casa, eu vi a Ever despida da pose.

Vi a menina por trás da boca suja, das ironias e do sarcasmo.

A menina que carregava mágoas demais.

E que talvez, só talvez... estivesse cansada de carregar tudo sozinha.

— Eu não sei o que a gente é, Ever.

Mas eu sei que se você sumir de novo... eu não aguento.

Ela assentiu.

Não como quem promete.

Mas como quem entende.

— Eu tô aqui agora. É tudo que eu consigo ser hoje.

E se você deixar... eu fico mais um pouco.

— Fica — eu disse. A voz saiu baixa, um pouco rouca, mas firme.

Ela me olhou como quem duvida da própria sorte.

— Sério?

— Sério. Vem. Tá frio aqui fora.

Levantei da escada. Ela hesitou por um segundo, como se ainda estivesse se perguntando se merecia aquilo. Mas então se levantou também e me seguiu até a porta da frente.

Andamos em silêncio pelo corredor escuro da casa. Minha mãe já devia estar dormindo. O som dos nossos passos ecoava fraco sobre o piso de madeira. Senti meu coração acelerar quando subi os dois últimos degraus da escada com ela logo atrás.

Abri a porta do meu quarto devagar.

Tudo igual: o abajur aceso, a cama bagunçada, os livros empilhados no canto, a janela ainda entreaberta deixando o vento entrar.

— Pode sentar ,— murmurei, apontando pra beirada da cama.

— Tem certeza que posso?

— Já tá aqui. Agora é tarde.

Ela deu um sorriso de lado, meio tímido, e se sentou. Tirou o moletom, revelando os braços magros e a blusa preta de alça fina por baixo. Jogou o casaco dobrado numa das cadeiras, e ficou ali, olhando o chão, os tênis, qualquer coisa que não fosse eu.

Sentei ao lado dela, com as pernas cruzadas na cama.

A pouca distância entre nós gritava.

— Eu nunca entrei no quarto de ninguém assim, sabia? — ela soltou, depois de alguns segundos.

— Assim como?

— Depois de jogar pedra na janela. Depois de fazer merda. Depois de implodir um começo.

— Você tem um talento especial pra isso.

— É — ela riu. — Eu sou ótima em estragar tudo.

— Ainda não estragou. Mas tá no limite.

Ela se virou, o rosto mais sério agora.

— Obrigada por não me mandar embora.

— Não me faz me arrepender.

A gente se encarou por alguns segundos que pareceram longos demais.

Se fosse em outro dia, outro momento, talvez ela tivesse se aproximado.

Talvez eu deixasse.

Mas agora, tudo ainda era um campo minado.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App