Desci pra cozinha com o bilhetinho dobrado no bolso de trás do jeans, como se fosse algum tipo de amuleto.
Minha mãe já estava de saída pro trabalho e só me deu um beijo apressado na testa, falando algo sobre o almoço na geladeira. Eu respondi no automático, meio distraída. Peguei uma maçã na fruteira e saí. O céu estava limpo, um azul quase exagerado. Parecia sacanagem o dia estar tão bonito enquanto eu sentia tudo tão bagunçado por dentro. No caminho, coloquei os fones e deixei a música me distrair. Mas não funcionou tão bem. Cada esquina parecia me lembrar da noite passada. Do jeito que Ever me abraçou, da forma como sussurrou contra minha pele, do bilhete... E ao mesmo tempo, tinha aquela sensação estranha, quase dolorida, de não saber o que vinha depois. Como se eu tivesse pulado sem ver se havia rede embaixo. Quando cheguei no portão da escola, dei de cara com o Will encostado num dos pilares, mexendo no celular. Ele sorriu assim que me viu. — Aí está minha estrela cadente favorita! — falou, abrindo os braços pra um abraço dramático. — Você é brega — ri, mas fui mesmo assim. O abraço dele sempre me deixava um pouco mais leve. Jenn apareceu logo depois, arrumando o cabelo e me cutucando com o cotovelo. — Dormiu bem? — ela perguntou, com aquele sorrisinho que eu nunca sabia decifrar. — Dormi... até demais — falei, sem entrar em detalhes. Eles começaram a comentar sobre o professor de história ser um chato, e eu fui seguindo, meio desligada. Meus olhos vasculhavam o pátio, procurando sem querer o cabelo bagunçado da Ever, o jeito largado que ela ficava escorada em qualquer canto. Mas nada. Então Valentin surgiu do nada, pulando o meio-fio e caindo ao nosso lado com aquele jeito dele, exagerado, como se o mundo fosse um palco. — Bom dia, Ma Belle — disse, pegando minha mão e beijando o dorso como num filme antigo. Revirei os olhos, mas senti meu rosto ficar quente. — O que foi isso, príncipe da França? — Foi o meu jeito de te dizer que o dia fica melhor só de te ver. — Ai, meu Deus... — Jenn bufou, rindo. Will só bateu a mão na testa, fingindo sofrer. — Ele não vai parar nunca, né? — Eu ainda tenho esperança de que um dia ela me dê uma chance — Valentin respondeu, dramático, olhando pra cima como se fizesse uma prece. Eu só dei um empurrãozinho no braço dele, tentando disfarçar o quanto aquilo era divertido. Por mais inconveniente que fosse, o Valentin tinha esse jeito que deixava qualquer ambiente mais leve. Mesmo quando eu não tava disposta. A gente entrou pelo corredor principal, conversando sobre qualquer bobagem, mas meu coração ficou preso lá fora. Preso num par de olhos verdes que não apareceram naquela manhã. Quando entrei na sala, o coração ainda estava meio mole, batendo num ritmo todo esquisito por conta do bilhete da manhã e da falta que Ever me fazia. Mas foi só erguer os olhos para o canto da sala que tudo virou do avesso. Ever estava lá. Sentada na carteira encostada na parede, as pernas esticadas, o corpo jogado pra trás como se não tivesse peso nenhum no mundo. E ao lado dela, Stacia, rindo de algo que eu não consegui ouvir. As duas inclinadas, quase dividindo o mesmo ar. Meu estômago deu um nó tão forte que até doeu. Parei na porta por alguns segundos, me perguntando se devia mesmo entrar. Se era saudável me colocar ali. Mas antes que eu pudesse decidir fugir, Jenn apareceu atrás de mim, me empurrando de leve pra dentro. — Anda, antes que o professor resolva fechar a porta na nossa cara. Me obriguei a andar até minha carteira, que ficava algumas fileiras atrás da delas. Tentei não olhar, mas era impossível. Era como se um ímã me puxasse. Ever estava com o cabelo solto, caindo nos ombros, a jaqueta de sempre amassada no encosto da cadeira. Ela dizia algo pra Stacia, que ria alto demais - do jeito exagerado típico dela. Aquele riso que eu já não suportava mais. Por um segundo, Ever ergueu o olhar e nossos olhos se encontraram. Foi rápido. Mas foi o suficiente pra eu sentir meu peito contrair, e também pra notar o microsegundo em que o sorriso dela vacilou. Ela desviou o olhar quase imediatamente, mexendo na mochila, como se procurasse alguma coisa extremamente importante lá dentro. Enquanto isso, Stacia continuou rindo, passando a mão no braço dela, aproximando o rosto demais, sussurrando algo que eu não queria, mas não conseguia, deixar de notar. Fiz força pra respirar fundo e me virar pra frente, focando no quadro negro, no professor, em qualquer coisa que não fosse aquelas duas. O resto da aula passou arrastado. As palavras chegavam nos meus ouvidos como ruído distante. Eu só pensava no bilhete guardado no bolso, no "foi incrível" que Ever tinha escrito com tanta sinceridade, e agora parecia tão distante, quase mentira. Quando o sinal tocou, senti um peso sair das minhas costas. Me levantei rápido, querendo sumir dali antes que tivesse que lidar com o constrangimento. Mas, antes de sair da sala, não resisti a olhar pra trás. Ever me observava. O olhar dela tinha algo que eu não consegui decifrar, culpa, desejo, arrependimento, talvez tudo misturado. Mas Stacia disse alguma coisa, e Ever virou o rosto pra ela, fingindo um sorriso, apagando o que quer que tivesse aparecido nos segundos anteriores. Saí dali com o coração pesado, me perguntando quantas versões da Ever existiam. E qual delas tinha estado comigo na minha cama na noite passada. Eu estava quase atravessando a porta da sala quando senti uma mão quente fechar em torno do meu braço. Virei bruscamente, o coração disparando antes mesmo de saber quem era. Mas claro que eu sabia. Ever estava ali. Perto demais. O rosto meio tenso, o olhar que não conseguia se fixar no meu por muito tempo. — A gente pode... — ela começou, soltando o ar devagar, como se reorganizasse as palavras. — Você pode ir lá em casa hoje? Pra gente... sei lá, fazer o trabalho. Às duas. Pode ser? Fiquei parada, olhando pra ela sem responder de imediato. O toque dela no meu braço parecia queimar, mas não num sentido ruim. Num sentido que me deixava fraca. — Trabalho? — levantei a sobrancelha, seca. — É, trabalho. Aquele da apresentação de história. Ou da vida toda que a gente precisa consertar, sei lá. — Ela tentou um meio sorriso, mas soou mais triste do que qualquer outra coisa. — Só... só vai, tá? Às duas. Suspirei. Ainda havia um peso no meu peito, algo entre mágoa e vontade. Mas esse era o problema com a Ever: por mais que ela me bagunçasse, eu não sabia dizer não. — Tá. Eu passo lá - soltei, tentando não demonstrar o quanto aquilo me afetava. O rosto dela relaxou num quase alívio. Ela largou meu braço, mas a mão demorou um segundo a mais do que precisava pra escorregar. — Valeu. Te espero. Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, Ever já estava se afastando, enfiando as mãos nos bolsos, voltando pro lugar onde Stacia a chamava com um aceno entediado. Fiquei ali por um instante, parada no meio do corredor, observando aquele jeito meio torto dela se afastar. Depois respirei fundo, ajeitei a mochila no ombro e continuei andando. No fundo, eu já sabia que não ia conseguir manter distância. Por mais que o meu orgulho gritasse, o resto de mim... já era dela há muito tempo.