O despertador gritou no meu ouvido como um alarme de bomba. Tentei enterrar o rosto no travesseiro, mas o cheiro de pó do estofado me lembrou que eu tinha prometido limpar meu quarto semana passada. Quando abri os olhos, o celular piscava números vermelhos: 7h28, o mesmo horário que meu pai costumava sair de casa antes de sumir.
Pulei da cama como se alguém tivesse gritado "bomba". O meu planner rosa ainda estava fechado na escrivaninha e provavelmente tinha escrito em alguma página "não se atrasar" olha só que ironia. Meu cabelo castanho estava mais rebelde do que o habitual. Na teoria, eu já deveria estar chegando no colégio. Na prática, eu estava sentada na cama aguardando para me atrasar com calma, ainda decidia se colocava uma calça jeans ou implorava por um teletransporte, enquanto esperava minha alma voltar para o corpo. - Droga, droga, droga! - resmunguei, tropeçando no chinelo. Em cinco minutos consegui: prender o cabelo num coque mais o menos ok, escovei os dentes como quem escovava um cavalo, minha gengiva agradecia.Dentre minhas roupas decidi por colocar a roupa mais "menos errada" que encontrei. Sem base, sem corretivo, sem café. Inaceitável. Eu nunca me atrasava. Nunca. (Na verdade depende) Desci as escadas correndo, senti o cheiro do café fresco ocupando cada pedacinho daquele lugar mas só peguei um pedaço de pão antes que minha mãe pudesse comentar qualquer coisa, esse não era o momento para conversar e sim para correr, encarnar Forest Gump e torcer para que o motorista do ônibus estivesse em um bom dia. Joguei a mochila no ombro e quase atropelei o portão. No ônibus, respirei fundo pela primeira vez. - Vai dar tempo. Vai dar tempo - murmurava, como um mantra. No celular, uma notificação piscava: Jenn 👑 "Já falei pra prof que você tá vindo. Se apressa, sua louca. 😌" Suspirei. Jenn, minha melhor amiga desde o sétimo ano, era o oposto do que eu precisava como influência e exatamente o que eu mais amava ter por perto. Depois de algumas quadras, vi o colégio. Nunca me canso de admirar o tamanho daquela construção antiga, com seus portões de grades. À primeira vista é assustador, mas quem já se acostumou sabe que o Colégio Burton é um ótimo lugar. O sonho de todos os adolescentes da cidade. E lá estava eu: na porta, atrasada. Ao passar pelos portões, fui flagrada pela diretora, que me pediu para segui-la até a sala dela. Pra quem tinha todo um planejamento, as coisas definitivamente não estavam fluindo como o esperado. Minha mãe não ia gostar nada de saber que eu fui parar na diretoria logo no primeiro dia. Mas eu estava tão cansada de tudo. Talvez meus planos precisassem mudar. Aqui, o normal seria encontrar um amor tranquilo, ter uma família perfeita e cuidar da casa, essas coisas que muitas garotas sonham. Mas eu, não. Meus planos eram maiores. Desde que meu pai foi embora, parei de acreditar em felizes para sempre. Confio só em mim. Por isso preciso lutar por um bom futuro. Quando cheguei à diretoria, vi uma garota escorada no balcão. Estranho. Nunca a tinha visto por ali. Pelas roupas e pelo jeito de se portar, com certeza não era daqui. Talvez mais uma daquelas garotas mimadas, revoltadas, que os pais ricos colocam nesse colégio. Cabelos negros, longos e alinhados. Pele clara. E os olhos... aqueles olhos verdes como esmeraldas pareciam ler meus pensamentos. É... ela realmente era muito bonita. Balancei a cabeça, tentando afastar os pensamentos, mas continuei observando-a morder a ponta da caneta enquanto recebia instruções. Quando ela sorriu, senti o estômago aquecer. Duas covinhas apareceram e o verde dos olhos se destacou ainda mais. Não sei o que estava acontecendo comigo. Ela era uma garota. Não estava certo pensar assim. Nem a conhecia. Mas algo dentro de mim tinha despertado. - Esta é a sua lista de horários, Ever. Aqui está a autorização para entrar na sala. Boa aula e seja bem-vinda! - disse a supervisora, entregando os papéis a ela. Ever observou o papel por um momento e saiu. O perfume dela preencheu a sala. Acho que fiquei tanto tempo olhando que nem percebi a diretora me chamando. - Alisson, você está me ouvindo? - Desculpa. Estou sim - respondi, fingindo prestar atenção. A diretora não era má pessoa. Eu já a conhecia há alguns anos. Sempre foi gentil, às vezes até superprotetora demais. Nunca entendi a razão de tanta aproximação. Talvez por ser amiga da família. Ouvi boatos sobre ela e meu pai, mas nunca quis saber. Tudo que vinha daquele homem não me interessava. Depois do sermão, ela me entregou um papel e me liberou. Os corredores estavam estranhamente silenciosos. Eu só queria chegar na minha sala, sentar na minha cadeira de sempre e encontrar meus amigos. Entrei na sala apressada, bufando e sentindo todos os olhares - inclusive o da professora de História, que não perdoava atrasos nem em feriados. - Srta. Allie... - começou a professora, levantando uma sobrancelha. - Desculpa! Prometo que foi exceção! - falei, com o tom mais doce e convincente que consegui. Sentei ao lado da Jenn, que fez um coração com as mãos e sussurrou: - Quase foi demitida do posto de nerd do ano. Revirei os olhos. E lá estava ela, a garota da diretoria, sentada nas primeiras cadeiras. Desde que a vi, não conseguia parar de olhá-la. Melhor baixar a cabeça e seguir pro meu lugar habitual: última cadeira da fileira do canto, perto da janela. Por que ela sentou logo ao lado da Stacia Honor? Justo a garota mais mimada da escola. Stacia sempre fez questão de transformar minha vida num inferno. Crescemos na mesma cidade, famílias conhecidas. Tivemos uma infância próxima, mas nunca por escolha. Stacia sempre preferiu status. Eu não. Consegui essa bolsa por mérito. Sabia que uma hora ou outra encontraria alguém como ela por aqui. A conta bancária dos pais garante vaga em qualquer lugar. - Que mal gosto pra escolher amiga... - murmurei. - Concordo. O que será que a novata viu nessa idiota da Stacia? - ouvi a voz do Will ao meu lado. Levei um susto. Se alguém viu, deve ter sido engraçado. E realmente foi. - Will! Meu Deus, quer me matar do coração? - disse, tentando disfarçar o susto com um sorriso. Eu estava tão distraída que nem tinha notado ele chegar. Na verdade, nem olhei pra ninguém além da garota nova. Meus amigos já estavam acostumados com minhas viagens mentais e geralmente não questionavam. - Relaxa, Allie. Você viu a Marcie hoje? Tô meio preocupado. - Faz tempo que não falo com ela. - Primeiro dia é sempre assim. - Ainda bem que você veio. Essa escola é um saco. Sozinha seria pior - falei, sorrindo. Jenn me deu um empurrão. - Eu ainda estou aqui, seus otários. Rimos juntos e Will apertou minha mão. Conversamos até a professora de História aparecer. Só o olhar dela bastou pra turma silenciar. Durante a aula, eu tentei focar. De verdade. Mas minha cabeça estava a mil. Meu planner mental todo desalinhado. E pra piorar, Jenn passava bilhetes com piadinhas idiotas sobre o "aluno novo". "Será que é gostoso? Será que é tipo bad boy? Ou só mais um macho fedido com jaqueta de couro? 🤔" Respondi com um rabisco nervoso: "Você é ridícula." No intervalo, ninguém viu aluno novo nenhum. O mistério parecia ter sido só mais uma fofoca mal contada. A única pessoa nova era a menina que encontrei na diretoria. Ou ele estava escondido. Ou nem existia. E sinceramente, eu não estava com cabeça pra isso. Estava irritada comigo mesma. Porque aquele dia tinha começado errado e eu odiava não ter controle. As últimas aulas se arrastaram, cada segundo uma tortura. Mas o destino, aparentemente, tinha outros planos. As aulas se arrastaram. Cada segundo parecia uma eternidade. Minha mente estava longe, observando o jardim bem cuidado pela janela. Como as pessoas conseguem viver sem reparar nessas coisas? Talvez um dia eu volte pra essa cidade pra trazer mudanças. Ou não. Voltar seria burrice. Quando o sinal final tocou, peguei a mochila e suspirei. Tudo que eu queria era chegar em casa, tomar um banho quente, reorganizar meu planner e fingir que aquele dia nunca tinha acontecido. Na porta da escola, enquanto esperava a Jenn terminar de arrumar o batom, me afastei um pouco, andando pelo pátio com o celular na mão, cabeça baixa, mensagens abertas. Foi quando eu esbarrei. Literalmente. Um impacto leve, mas certeiro. Como um tropeço no universo. - Foi mal, linda. Quase te derrubo - disse uma voz rouca, num tom sarcástico que fez minha pele arrepiar. Ergui os olhos. E congelei. A garota parecia saída de um filme. Camiseta preta, coturno, cabelo escuro meio bagunçado, um piercing discreto no nariz e um sorriso que debochava do mundo inteiro. Mascava chiclete como se fosse sua última missão na vida. - Cuidado por onde anda... - comecei a dizer, mas minha voz falhou quando encontrei o olhar dela. Verde. Intenso. Insolente. E bonito demais pra existir às três da tarde. - Você é sempre assim, certinha, ou só tá num dia ruim? - ela perguntou, com um sotaque leve, puxando o "s". - Eu... quem é você? - consegui perguntar, depois de cinco segundos de pane cerebral. - Ever - ela disse, e o nome soou como uma promessa. - Acabei de chegar. Acho que a gente vai se dar bem. Eu não consegui pensar em nada. Nenhuma resposta espirituosa, nenhuma frase de efeito. Fiquei só ali, com o coração batendo no ritmo do olhar daquela estranha. Ever deu um sorriso preguiçoso. - Enfim, prazer. A gente se vê por aí - falou, dando meia-volta sem olhar pra trás. Fiquei parada. Como se tivesse sido engolida por uma onda, daquelas que arrastam e deixam a gente sem fôlego. Mas em vez de sal, o que eu sentia era eletricidade. Jenn apareceu logo depois, rindo de alguma coisa no celular. - Amiga, você viu? Aparentemente o "aluno novo" era uma aluna nova, aquela da nossa sala. As pessoas não servem nem pra espalhar fofoca direito. Continuei encarando o caminho por onde a Ever tinha ido. - Vi. Jenn me olhou com um sorrisinho de canto. - O que foi isso no seu rosto? Tá toda boba. Tentei negar, mas falhei miseravelmente. - Nada. Só... conheci uma garota. Eu ainda estava ali, com os olhos presos no corredor vazio, quando o Will apareceu do nada, mastigando um pedaço de pão de queijo que ele provavelmente contrabandeou da cantina. - Foi ela, né? - perguntou, de boca cheia. - Ela quem? - fiz, fingindo, mas já sabendo que era inútil. Will deu uma mordida dramática. - A tal "aluna nova". Você acabou de protagonizar uma cena digna de série adolescente da N*****x. Eu vi. Só faltou o vento e a trilha sonora. - Para com isso. - Só tô dizendo. Você travou. O que é raro. Comigo, você sempre tem resposta pra tudo. Com ela, você virou uma versão bugada de si mesma. - Não aconteceu nada. Foi só um esbarrão. Will arqueou a sobrancelha, cético. - Esbarrão com tensão sexual? Tá bom, Allie. Bufei, enfiando o celular no bolso. - Vai se ferrar. - Você tá estranha desde sexta. E agora tá pior. - É o começo do semestre. Tô cansada. Will me olhou por um segundo mais longo do que eu gostaria. Ele sempre foi bom em ler o que eu tentava esconder. - Você vai me contar o que tá pegando. Mais cedo ou mais tarde. E se for uma garota que usa coturno e camiseta preta com banda que ninguém conhece... eu vou querer todos os detalhes. - Tchau, Will - ri discretamente. - Tchau, drama queen. Saí antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Ainda sentia o efeito daquele olhar, o verde dos olhos da Ever queimava na minha memória como se tivesse deixado marca. E pior: o jeito como ela falava. Como se já soubesse demais. Como se tivesse enxergado algo dentro de mim que nem eu mesma queria ver. Em casa, tentei me distrair. Abri o planner, rabisquei algumas metas da semana, li metade de um capítulo de filosofia e terminei com a cabeça em qualquer lugar, menos ali. Peguei o celular. Abri o I*******m. Procurei. @ever Nada. Nem um traço dela. Fechei o aplicativo, sentindo uma mistura estranha de frustração e alívio. Na manhã seguinte, cheguei cedo. Não por causa da Ever, claro. Era só parte do plano de voltar a ser eu mesma. Pontual. Focada. Imune. Mas ao entrar na sala de aula e ver a Ever sentada, com os pés apoiados na cadeira da frente, mordendo a ponta da caneta e encarando a janela como se estivesse entediada, senti algo tremer dentro de mim de novo. Ever virou o rosto. Nossos olhares se encontraram. Por dois segundos. E nenhuma de nós disse nada. Até a professora entrar e quebrar o momento. Durante a terceira aula, a professora de Literatura começou a distribuir folhas. - Projeto bimestral. Tema livre. Entrega escrita e apresentação oral. Em duplas. Sorteio já. Gelei. Will, uma carteira atrás, chutou meu pé de leve, como quem dizia "se prepara". - Allie e... Ever. Virei o rosto devagar. Ever já me encarava. E sorriu. De leve. Quase imperceptível. Mas real. Meu estômago virou. Will sussurrou atrás: - O universo tem senso de humor. Eu não respondi. Só engoli seco e respirei fundo. A partir dali... o meu mundo começou a sair ainda mais do controle. O sinal tocou. A aula de Literatura acabou. Mas eu não conseguia desgrudar os olhos do papel com os nomes sorteados. Allie & Ever. Respirei fundo. Talvez fosse só um trabalho. Talvez pudéssemos fazer tudo por mensagem, em silêncio, sem contato. Talvez... Quando eu estava quase saindo, senti alguém segurar meu braço. Me virei. Era ela. A garota. A novata. - E aí, certinha - a voz veio por trás, arrastada, preguiçosa, e arrepiou cada parte do meu corpo antes mesmo de eu me virar. Me virei devagar. E lá estava a Ever. Mochila pendurada num ombro só, o cabelo bagunçado e aquele olhar que parecia saber demais. Mascava chiclete com tédio e charme ao mesmo tempo. - Parece que estamos fadadas a passar tempo juntas - ela disse. - Quer sofrer isso na biblioteca com cheiro de mofo... ou num sofá confortável com música boa e café de verdade? Pisquei. - Você tá me chamando pra sua casa? - Tô te chamando pra um lugar onde a gente possa trabalhar. E onde, talvez, você pare de parecer que tá prestes a fugir. - Eu não tô parecendo isso. - Tá sim. - Ever sorriu de canto. - Mas tudo bem. Eu gosto de gente que tenta resistir. Tem mais graça. Olhei em volta, quase esperando que o universo me mandasse algum sinal pra me salvar. O Will já tinha saído da sala. A Jenn estava cercada de gente do outro lado. E ali, naquele corredor, só estávamos nós duas. A garota com coturno, voz rouca e um jeito de quem não pedia licença pra nada. - Tá. Tudo bem. Sua casa. Mas só pro trabalho, tá claro? - Claríssimo - disse Ever, jogando o cabelo pra trás. - Só o trabalho. Eu juro. Mas o jeito como ela disse aquilo me fez duvidar de tudo. Menos da certeza de que alguma coisa dentro de mim estava mudando - rápido demais. - Me empresta seu celular? - ela continuou, estendendo a mão como quem já sabia que eu ia ceder. - Pra que você quer meu celular? - soltei, bufando. Até onde essa garota conseguia ser afrontosa? - Você precisa do meu número, pra que eu possa te passar o endereço, não acha? - respondeu com um sorriso de canto, como se minha pergunta fosse uma perda de tempo. - E você não podia só... anotar no caderno como uma pessoa normal? - Eu pareço normal pra você? - rebateu, arqueando uma sobrancelha com aquele olhar que me despia sem tocar. Engoli seco. - Só me dá logo o número - falei, entregando o celular com um pouco mais de força do que deveria. Ela pegou como quem estava recebendo um presente. Digitou com calma, salvando como "Ever Collins 😈", e ainda colocou um emoji de diabo. - Sério isso? - perguntei, encarando a tela assim que ela devolveu. - Totalmente sério. Combina comigo. - Ela deu um passo pra trás, o sorriso preguiçoso ainda no rosto. - Te mando o endereço mais tarde. Aparece. Ou fica aí fingindo que consegue resistir a mim. - Você tem uma autoestima perigosa, sabia? - Só porque ela mexe com a sua, certinha. E antes que eu pensasse em retrucar, ela já estava de costas, se afastando devagar pelo corredor. O cabelo preso de qualquer jeito, o coturno batendo no piso, e a sensação de que ela acabava de entrar no meu mundo com a mesma naturalidade com que respirava. E eu? Eu fiquei ali. Com o celular na mão. E o coração batendo rápido demais pra ser saudável. Demorei um tempo pra processar tudo. O que foi isso? O que eu estava sentindo? Isso era loucura. Era melhor ignorar. Fui pra casa andando. Como ainda era cedo e eu não tinha nada pra fazer, resolvi dar uma olhada no endereço que a Ever tinha me passado. Pelo que lembrava, era perto da minha casa mas, sinceramente, nessa cidade tudo é perto. A casa parecia de gente bem de vida. Era bonita, grande, tinha uma energia elegante. Engraçado como, mesmo morando aqui há tantos anos, eu nunca tinha reparado nela. Nunca soube quem morava ali. Será que ela tinha se mudado há pouco tempo? Será que compraram a casa recentemente? Quem seria a família dela? Pelo estilo, provavelmente gente rica. Mas enfim... melhor eu ir pra casa ajeitar minhas coisas. Fui caminhando devagar pelas ruas conhecidas. Passei pela praça e vi alguns amigos, mas preferi não parar. Hoje não era dia pra papo. Se eu parasse ali, ia acabar ficando até tarde e eu queria passar despercebida. Quando cheguei em casa, minha mãe já tinha saído. Provavelmente foi trabalhar. Nosso contato é quase nulo. Ela trabalha o tempo todo, o que é compreensível, já que o babaca do meu pai não ajuda em nada. E quando está em casa, geralmente está exausta demais pra conversar. Ignorei mais uma onda de pensamentos intrusivos e fui direto pro meu quarto. Me joguei na cama com tudo, e bastou fechar os olhos pra ela aparecer na minha mente. Aqueles olhos... Como conseguiam me prender de um jeito tão absurdo? Mas não era só isso. O jeito que falava, os gestos, o perfume doce... tudo nela parecia bom demais. "Não. Eu preciso parar de pensar nisso. Tenho que arrancar essa menina da cabeça, porque nada disso faz sentido." Fiquei parada ali por alguns segundos, observando o corredor vazio. Era como se o mundo tivesse diminuído o volume e deixado só o som do meu coração batendo no peito. Olhei de novo para o celular. O nome estava lá: Ever Collins 😈 Com o emoji. Com tudo. Bufei. Apaguei o emoji. Coloquei de novo. E deixei. Em casa, deitei no quarto tentando ignorar o celular sobre a mesa. Fiz de tudo pra me distrair: abri o planner, separei as canetas por cor, respondi mensagem do grupo da turma, até guardei as louças pra ajudar a minha mãe, qualquer coisa pra não pensar nela. Mas não adiantou. Às 13h23, a notificação vibrou. Ever Collins 😈 📍 R. Francisco Keller, 1127 - só tocar o interfone. Traz cérebro e alguma coragem. Café eu tenho. Encarei a mensagem por longos segundos. Digitei "ok", apaguei. Digitei "não sei se vou", apaguei. Digitei "tá", apaguei. Acabei não mandando nada. Na verdade, fiquei andando pelo quarto, tentando listar motivos pra não ir: 1. É só um trabalho. 2. Eu nem conheço ela. 3. Ela é... diferente. Bagunçada. 4. Eu gosto de rotina, regras, segurança. 5. E... ela me olha como se soubesse de tudo isso. Respirei fundo. Olhei o relógio. 13h41. Se eu me arrumasse e saísse agora, chegaria às 14h10. Nem muito cedo. Nem muito tarde. Perfeito. Suspirei. Me arrumei. Peguei a mochila. E saí. Não demorou muito até eu chegar na frente da casa dela. Toquei o interfone.