No caminho, o bairro foi mudando. As ruas pareciam mais limpas. As calçadas mais largas. As árvores mais simétricas. Cada casa parecia saída de uma revista cara. Portões automáticos. Câmeras. Jardins tão bem cuidados que pareciam de mentira.
A cada quadra, eu me encolhia um pouco mais. E quando cheguei, abracei a mochila contra o peito como um escudo invisível. O portão da casa dela era de ferro forjado, pesado, imponente. Bastou eu tocar a campainha para ele se abrir com um clique suave, quase silencioso como se até o som ali fosse refinado. A mansão surgiu depois dos muros altos, branca, com colunas laterais e duas varandas amplas. Havia um jardineiro aparando uma cerca viva, como se fosse parte da decoração obrigatória. Automaticamente, comparei à minha casa. O contraste era quase ofensivo. Aquilo ali parecia uma realidade paralela. A porta da frente se abriu antes que eu pudesse bater. Ever estava ali. Sem maquiagem, de moletom cinza e com o cabelo preso de qualquer jeito. Quase comum. Mas não. — Achei que ia desistir — disse ela, com aquele sorriso de canto que já estava me assombrando em silêncio. Entrei devagar. E o impacto foi imediato. O saguão era ainda mais bonito por dentro. Um lustre imenso caía do teto como nos filmes, espalhando reflexos delicados pelo chão de mármore. Os quadros emoldurados, as paredes claras, a escada de madeira envernizada subindo em curva... tudo ali exalava sofisticação. E, ao mesmo tempo, uma frieza que incomodava. Nada fora do lugar. Nada com vida. Aquela casa era linda. E completamente vazia de alma. — Sua casa parece uma galeria de arte — comentei, meio sem pensar. — É. Parece mesmo — ela respondeu, andando à frente com as mãos nos bolsos do moletom. - Mas ninguém mora de verdade aqui. Só eu. — E seus pais? Ela parou por um segundo. — Minha mãe mora em Los Angeles. Disse aquilo com a frieza de quem já decorou a resposta. — E meu pai... bom, ele mora aqui, tecnicamente. Só não vive. — E ele não tá? — Provavelmente tá em algum lugar da casa. Ou em outro país. Vai saber. — Ela deu de ombros, como quem já se acostumou com ausências demais. — Não se preocupa, a gente não vai ser interrompida. Fiquei quieta. Aquilo me pegou desprevenida. A casa parecia gritar dinheiro. Mas agora eu ouvia outro som por trás disso: o silêncio de quem cresceu sem ninguém realmente por perto. — Quer água? Café? Cerveja importada? Tem tudo. Literalmente. — Água tá ótimo. Ela voltou com dois copos altos, de vidro grosso. Sentou-se no sofá com um caderno no colo e puxou uma caneta. — Então, certinha. Vamos trabalhar. Tema: contradições humanas. Você deve entender bem disso. — Por que você acha isso? — Porque eu percebo. Você anda como se tivesse tudo sob controle, mas seu olhar tá sempre tentando esconder alguma coisa. Fiquei em silêncio por uns segundos. — E você? Anda como se não ligasse pra nada, mas fica jogando essas frases como se quisesse ser decifrada. Ela sorriu. Dessa vez, sem sarcasmo. — Talvez eu queira mesmo — ela disse, e pela primeira vez desde que nos falamos, o sorriso dela pareceu... triste. Não aquele de canto, debochado, cheio de segunda intenção. Era outro tipo. Um sorriso machucado. Quase humano demais. Eu fingi que não reparei. Peguei meu caderno, abri na primeira folha em branco e tentei me concentrar no tema. "Contradições humanas". Ironia, né? A gente tinha esse tema jogado entre nós, e tudo o que eu conseguia pensar era no quanto eu mesma era uma contradição ambulante naquele momento. — Então... contradições humanas — falei, mais pra mim do que pra ela. — A favorita da literatura — ela respondeu, encostada no sofá como se não tivesse peso nenhum no corpo. — Todo personagem bom é contraditório. O problema é que a gente finge que não é, na vida real. — A gente não finge — rebati, sem pensar muito. — A gente só tenta não desmontar em público. Ela me olhou. Daquele jeito. Aquele olhar que já tinha aprendido a me ler, mesmo sem saber meu nome completo. — Bingo — ela disse, como se tivesse acertado alguma aposta. — Pode anotar isso no começo da introdução. Deixei escapar um meio sorriso, quase sem querer. — Você não é tão insuportável quando tá séria. — E você não é tão certinha quando para de se controlar. A caneta parou no ar. Eu olhei pra ela. Ela já tava mais perto do que devia. Nem sei quando se aproximou assim. Só sei que eu conseguia sentir o calor do braço dela a poucos centímetros do meu. — Você sempre fala assim com todo mundo? - perguntei, tentando soar indiferente. Falhei. — Assim como? — Como se soubesse onde apertar. Ela deu aquele sorrisinho idiota de novo, o que eu já sabia que vinha seguido de alguma provocação. — Só quando alguém me interessa. Pronto. Aquele era o momento. O exato momento em que qualquer pessoa normal teria se levantado e ido embora. Mas eu fiquei. — A gente devia focar no trabalho — falei, sem muita firmeza na voz. — Devia — ela respondeu. Mas não se moveu. Nem um centímetro. — Mas você sabe que não é só isso aqui. E aí ela se aproximou um pouco mais. Meu corpo travou. Meus dedos ainda seguravam a caneta, mas eu não conseguia lembrar como escrever. Ela me perguntou se podia. Se podia me beijar. A voz veio baixa, quente. E por um instante, eu congelei. Meu corpo inteiro queria dizer sim. Mas minha mente - sempre ela - falou primeiro. Afastei o rosto, o mínimo possível, mas foi o suficiente. — Eu... não sei se tô pronta pra isso. Ela recuou devagar, sem pressão, só com aquele olhar que dizia "tudo bem", mesmo que por dentro talvez não estivesse. — Tudo bem. De verdade — ela disse, e a voz saiu sincera, quase macia. — A gente pode só... trabalhar. Assenti. Peguei o caderno. Fingimos que tudo estava normal. Só que não estava. Ela se levantou pra pegar um livro na estante, e eu aproveitei pra me esticar no sofá, tentando encontrar algum conforto no meio daquele desconforto que agora morava entre nós. Foi aí que tudo aconteceu. Ela voltou com um dos livros na mão, passou por trás do sofá e tropeçou num dos tapetes que cobriam o chão de madeira. Foi rápido. Eu só vi quando o corpo dela tombou em direção ao meu. O impacto não foi forte, mas suficiente pra me empurrar pra trás. E quando percebi, ela tava ali em cima de mim, os olhos tão próximos dos meus que dava pra contar cada cílio. O livro caiu no chão, esquecido. A respiração dela batia no meu rosto, quente, rápida. Meu coração quase saiu pela boca. O joelho dela pressionava minha coxa, e uma das mãos ficou apoiada do lado da minha cabeça, afundando o estofado. A outra pousou sobre meu ombro pra se equilibrar. Só que não pareceu nada equilibrado. Parecia... suspensão. Um momento suspenso no ar. Sem lógica. Sem chão. A gente não se moveu por uns bons segundos. Nem um som. Nem um movimento. Só o silêncio tenso de quem sabe que ultrapassou um limite invisível. Ela me olhava de novo daquele jeito. Dessa vez, mais perto. Dessa vez, mais real. — Allie... — ela sussurrou, e meu nome na boca dela parecia outra coisa. Uma confissão. Um pedido. Eu senti meu corpo inteiro estremecer. A respiração presa no peito. A vontade batendo forte demais pra ser ignorada. Os olhos dela desceram até minha boca. E voltaram pros meus. O tempo parou ali. Juro. Foi como cair de um penhasco em câmera lenta. Ela começou a se inclinar. Devagar. Devagar demais. E aí... — TÁ TUDO BEM AÍ EMBAIXO? — a voz de um homem gritou do andar de cima, fazendo nós duas darmos um pulo como se tivéssemos sido flagradas roubando algo. Ela caiu pro lado. Eu levantei num susto. O coração parecia que ia explodir. — É só o jardineiro. Ele dorme aqui às vezes quando meu pai viaja - ela murmurou, com um meio sorriso nervoso. — Relaxa, ele é surdo de um ouvido. Só fala alto por costume. — Quase me matou do coração — murmurei segurando o riso. Ela ficou em silêncio, me olhando, aquele sorrisinho de canto. Eu encarei o chão. A vergonha queimando até os ossos. — Me desculpa — ela disse, enfim. — Eu juro que não foi de propósito. O tropeço, quero dizer. — E o resto? Ela sorriu. — O resto, talvez um pouco. Soltei uma risada baixa, mais nervosa do que divertida. E o pior? Eu queria que tivesse acontecido. Mesmo morrendo de medo. — Acho melhor eu ir — falei, depois de uns minutos tentando juntar os pedaços de mim mesma. Ela apenas assentiu. Me acompanhou até a porta em silêncio. — Você quer ir embora mesmo? — ela perguntou, encostada na porta, com uma mão no bolso do moletom e a outra segurando o batente, como se estivesse segurando a mim ali. Eu hesitei. A Allie de sempre diria sim, pegaria sua mochila e sairia andando rápido, sem olhar pra trás. Mas essa Allie de hoje... já não era só de sempre. — Ainda não - respondi, num fio de voz. — Mas só se a gente prometer... não tropeçar de novo. Ela riu, e pela primeira vez, o riso foi leve. Sincero. Do tipo que aquece por dentro. — Promessa difícil - ela disse, se afastando da porta. — Mas beleza. Sem tropeços. Só conversa. Voltamos pra sala. Ela sentou no chão, encostada no sofá, e me chamou com um gesto de queixo. — Vem aqui. Eu sentei ao lado, e ficamos ali. Pernas cruzadas, os dois copos de água esquecidos na mesa, os cadernos empilhados no canto. Ela pegou um dos vinis da estante e colocou pra tocar. A agulha rangia suave antes da música começar. Uma banda que eu não conhecia, voz grave, melodia melancólica. Soava como ela. — Sempre ouve isso? — perguntei, tentando não parecer tão interessada. — Só quando tô sozinha. — Você tá sozinha muito? Ela não respondeu de imediato. — Quase sempre. Aquilo bateu de um jeito estranho. Fiquei olhando pra frente, tentando fingir que não me importava. Mas doía. Porque eu entendi o que ela queria dizer. Aquele tipo de solidão não tem a ver com ter gente por perto. Tem a ver com ninguém realmente ver você. — Eu não gosto da minha casa - soltei, sem pensar. — Por quê? — Porque é cheia de barulho. Mas nunca do tipo que importa. É como... um monte de vozes gritando, só que dentro da minha própria cabeça. — Aqui é o contrário. Tudo é bonito. Limpo. Silencioso. Mas parece que nunca tem ninguém. A gente ficou em silêncio de novo. Só que, dessa vez, era um silêncio confortável. Um silêncio de quem entendeu alguma coisa uma da outra. Ela me jogou uma almofada sem aviso, acertando minha cara com um leve "pof". — Vamos fazer um jogo — ela disse, sem me olhar diretamente. — Você pergunta o que quiser. Eu respondo. Mas só uma pergunta por vez. Nada de interrogatório policial. — E você também me pergunta? — Talvez. Mordi o canto da boca, pensando. — Você já se apaixonou? Ela deu uma pausa longa. Olhou pro teto. Depois pra mim. — Já. Uma vez. Nunca mais deixei. — Por quê? Ela deu de ombros. — Porque acabou. E quando acaba, dói. E quando dói, a gente aprende. Aquela resposta bateu forte. Não pelo que ela disse, mas pela forma. O jeito seco, resignado... parecia mais proteção do que verdade. Ela tava se escondendo em frases curtas, mas algo nos olhos entregava o resto. — E você? — ela devolveu. — Não sei — respondi. — Eu sempre fiz tudo certinho, tudo sob controle. Ela riu, mas com um brilho estranho no olhar. — Que bom. Bagunçar é meu talento especial. — Nem sempre isso é bom — devolvi. Ela se calou. Por um segundo, pareceu que ia dizer algo. Mas não disse. Eu me aproximei um pouco mais. Não encostei, não toquei, só deixei minha presença ali, perto. O suficiente pra sentir o calor entre nós. — Sabe o que eu mais odeio nessa casa? — ela soltou, do nada. — É grande demais. Bonita demais. E mesmo assim, parece que tudo aqui ecoa. Como se ninguém tivesse nunca vivido de verdade dentro dela. Eu olhei pra ela. A Ever sem pose. Sem o escudo. Só por um segundo. — Talvez você só precise de barulho de verdade. De alguém que fique. Ela virou o rosto devagar, me encarando. Os olhos dela estavam calmos. Mas quentes. Como se, por dentro, algo estivesse queimando devagar. — Fica mais um pouco? Assenti com a cabeça. — Fico. Ela se levantou e tirou o disco que estava tocando e pegou o celular, colocou uma música qualquer, algo calmo, melancólico, com voz feminina suave. O tipo de música que escancara tudo que o silêncio tenta esconder. Sentamos encostadas no sofá, no chão. Os ombros quase se tocando. As pernas cruzadas. Os copos d'água ainda esquecidos na mesa. — Se a gente fosse duas personagens de um livro - ela disse, de repente -, eu provavelmente estragaria tudo no próximo capítulo. Sorri. — E eu provavelmente voltaria e fingiria que nunca aconteceu. Ela virou o rosto na minha direção. — A gente seria um desastre lindo. — Talvez já seja. Dessa vez, ela não desviou o olhar. E eu não fugi. Ficamos ali. O mundo inteiro reduzido àquela sala. Ao calor dos nossos joelhos quase encostando. Às palavras quase ditas. Aos beijos quase dados. E mesmo que nada tivesse acontecido de verdade... Tudo já tinha mudado. Ficamos 1 hora assim, próximas apenas ouvindo a música que saia do celular de Ever, em algum momento deixei minha cabeça repousar sobre o seu peito e ela fazia um leve carinho sobre meus cabelos. As horas haviam passado rápido desde que cheguei ali, precisava ir para casa. — Eu vou indo — falei, de repente. A voz saiu mais baixa do que eu esperava, quase como se não quisesse interromper o silêncio que tinha se instalado entre nós ali no chão da sala da Ever. Ela me olhou, mas não disse nada. Só assentiu com a cabeça, como quem entende. Como quem também tem medo do que pode acontecer se eu ficar mais cinco minutos ali. Peguei minha mochila. Meus dedos ainda tremiam um pouco. Senti ela me acompanhando até a porta, mas sem tocar. Tudo entre a gente era um quase. — Se cuida - ela disse, quando eu já estava descendo o último degrau. Me virei por um segundo. — Você também. E então fui embora. O caminho pra casa parecia mais longo do que era de fato. A rua silenciosa, as luzes dos postes acendendo uma a uma, como se o bairro inteiro estivesse bocejando. Meus passos estavam apressados, mas minha mente ainda presa naquela sala, naquele "fica mais um pouco", naquele olhar dela, naquele quase beijo que não aconteceu, mas que ficou colado em mim como se tivesse. Abri o portão de casa e entrei tentando não fazer barulho. Minha mãe estava na cozinha, lavando uma panela. Ela sempre lavava as panelas de noite, como se aquilo aliviasse a cabeça dela de tudo que não dizia. — Oi, filha. Chegou tarde - ela disse, sem me olhar. — Tava na casa de uma colega fazendo trabalho. Ela fez um som com a boca, tipo um "ah, tá". Mas eu sabia que no fundo ela já tinha pensado mil coisas. Minha mãe é o tipo que não pergunta direto. Ela observa, junta peças, deduz. E depois solta as frases como se fossem certezas. — Come alguma coisa antes de dormir. Tem estrogonofe. — Tô sem fome. Vou tomar banho. — Deixa a toalha estendida depois. E não fica mexendo no celular até tarde. Subi as escadas sem responder. Meu quarto sempre foi meu refúgio e minha prisão. A janela pequena, a cama organizada, a escrivaninha cheia de cadernos empilhados e marca-textos de todas as cores. Tudo ali tinha a minha cara: controle, organização, silêncio. Mas hoje, nada disso me ajudava. Joguei a mochila no chão, me sentei na cama e olhei pro teto como se tivesse alguma resposta escrita ali. Tirei o celular do bolso. Nenhuma mensagem. Nem dela. Nem de ninguém. Mas eu abri a conversa com a Ever mesmo assim. Fiquei encarando a tela por alguns segundos, o nome salvo como "Ever Collins 😈". Foi o nome que ela salvou brincando, só que agora... parecia uma ironia. Pensei em digitar: "cheguei", "obrigada pela noite", "a gente se fala amanhã". Mas não digitei nada. Fechei o app e respirei fundo. Depois do banho, fui até a cozinha pegar um copo d'água. Minha mãe ainda estava lá, secando os pratos com a TV ligada no fundo. — Você parece estranha — ela soltou, como quem comenta o tempo. — É só cansaço. — Hum. E ficou nisso. Minha mãe é assim. Ela sente quando tem algo fora do lugar, mas prefere não tocar direto. Como se tivesse medo do que pode ouvir. Subi de novo, agora com a cabeça mais pesada do que antes. Deitei na cama, apaguei a luz, e fiquei olhando o teto escuro, com os olhos abertos. A verdade é que minha vida sempre foi feita de controle. Boletim limpo, agenda organizada, metas claras. Eu fazia tudo certo. Era a filha que não dá trabalho, a aluna que entrega tudo, a amiga que ouve todo mundo. E mesmo assim, hoje... eu me sentia completamente fora do eixo. Ever era exatamente o tipo de pessoa que eu teria evitado. Mas alguma coisa nela me puxava como um ímã. Como se a bagunça dela reconhecesse a bagunça escondida dentro de mim. E era isso que me assustava. Porque talvez... talvez eu não fosse tão controlada assim. E talvez eu estivesse começando a querer cair. O celular vibrou. Sentei de um pulo, o coração acelerado. Mas era só uma mensagem do Will: "Viu o garoto novo do segundo ano? Meio estranho, mas acho que vocês iam se dar bem :)" Respondi com um "amanhã me conta melhor", mesmo sem entender a lógica do comentário. Talvez fosse só o Will sendo o Will - tentando puxar assunto, como sempre. Mas naquele momento, qualquer conversa parecia fora do tom. Porque a única pessoa que eu queria que falasse comigo... estava quieta. E eu não sabia por quanto tempo aguentaria esse silêncio.