Capítulo 21— Um teto para recomeçar.
A colheita das batatas havia sido um sucesso.
Pela primeira vez em muitos dias, Constantine permitiu-se respirar sem a pressão das tarefas urgentes da fazenda. O trabalho duro recompensara toda a família, e os celeiros estavam cheios. Ainda assim, a tranquilidade que ela tanto desejava não encontrou espaço em seu coração.
Desde que retornara da mansão Zanobi, seus pensamentos não lhe davam descanso.
O que aconteceria com seus tios?
Para onde iriam quando deixassem a fazenda?
Como sobreviveriam sem um lugar para morar?
As perguntas surgiam uma após a outra, roubando-lhe o sono e a paz.
Na manhã seguinte ao encerramento da colheita, ela separou cuidadosamente a parte que pertencia ao proprietário da fazenda e organizou a venda da produção que cabia à sua família. Depois de concluir tudo o que precisava ser feito, decidiu seguir para a cidade.
Havia alguém com quem precisava conversar.
Tião era um antigo comprador das produções da família. Durante anos, negociara com seus tios e sempre demonstrara respeito e consideração por eles. Talvez pudesse ajudá-la.
Ao chegar à cidade, Constantine caminhou pelas ruas mais simples até alcançar a região mais pobre. O local era úmido, com construções antigas e calçadas desgastadas pelo tempo. Foi ali que encontrou o pequeno açougue de Tião.
O homem abriu um sorriso ao vê-la.
— Constantine! Quanto tempo. Como estão seus tios?
Ela retribuiu o cumprimento e, sem rodeios, explicou sua situação.
Falou sobre a possível saída da fazenda, sobre a necessidade de encontrar uma casa e sobre o medo de não conseguir proteger aqueles que tanto amava.
Tião ouviu tudo em silêncio.
Quando ela terminou, coçou o queixo pensativo.
— Talvez eu possa ajudar. Tem um senhor alugando uma casa aqui perto. Não é grande coisa, mas está de pé, tem telhado e dá para uma família morar sem problemas.
Os olhos de Constantine brilharam imediatamente.
— Você acha que ele aceitaria alugar para nós?
— Acredito que sim. Posso conversar com ele.
A notícia trouxe um alívio que ela não sentia havia semanas.
Mas ainda existia outro problema.
— E trabalho? — perguntou ela. — O senhor conhece alguém contratando?
Tião suspirou.
— Não vou mentir para você. Aqui não está fácil para ninguém. Emprego anda difícil.
A esperança que havia acabado de surgir vacilou.
Porém, antes que ela se desesperasse, ele continuou:
— Mas eu estou precisando de ajuda no açougue.
Constantine ergueu o olhar.
— Sério?
— É um serviço simples. Limpeza, organização e auxílio no que for necessário. A maioria dos funcionários aqui são homens. Na verdade, você seria apenas a segunda mulher trabalhando comigo.
Ela não precisou pensar.
Não quando seus tios dependiam dela.
Não quando uma oportunidade estava finalmente diante de seus olhos.
— Eu aceito.
Tião sorriu satisfeito.
— Então está combinado.
Pela primeira vez em muito tempo, Constantine sentiu o peso sobre seus ombros diminuir.
Não era o emprego dos sonhos.
Mas agora já existia um caminho.
Ao deixar a cidade naquela tarde, o céu parecia mais claro.
Durante todo o trajeto de volta à fazenda, ela carregou consigo uma sensação que havia se tornado rara nos últimos meses.
Esperança.
Talvez os problemas ainda não tivessem acabado.
Talvez desafios ainda maiores estivessem por vir.
Mas, pela primeira vez, Constantine tinha algo concreto para oferecer à sua família.
Um teto, um trabalho e uma nova chance de um pequeno começo.
Ao chegar à fazenda, Constantine foi recebida da forma que mais aquecia seu coração.
Assim que atravessou o portão, seus tios vieram ao seu encontro com sorrisos sinceros, felizes simplesmente por vê-la retornar em segurança.
Aquela recepção calorosa fazia qualquer lugar parecer um lar.
— Você demorou um pouco hoje, minha filha — comentou sua tia, abraçando-a.
— Tínhamos ficado preocupados — acrescentou o tio.
Constantine sorriu.
— Está tudo bem. Na verdade, tenho boas notícias.
Os dois trocaram olhares curiosos e a acompanharam até a cozinha. Assim que todos se acomodaram ao redor da mesa, ela contou que a colheita havia rendido um valor melhor do que o esperado.
A notícia foi recebida com comemorações e agradecimentos.
Mas aquilo era apenas o começo.
— E tem mais uma coisa — disse ela.
Os dois a encararam com atenção.
Então, calmamente, Constantine relatou sua ida à cidade, a conversa com Tião, a casa disponível para aluguel e a oportunidade de trabalho que havia conseguido.
À medida que ela falava, os olhos dos tios se arregalavam.
Primeiro pelo espanto.
Depois pela alegria.
Por fim, pelo medo.
Quando ela terminou, o silêncio tomou conta do ambiente.
Os dois pareciam tentar imaginar aquela nova realidade.
Uma casa na cidade.
Novos vizinhos.
Novas ruas.
Uma vida completamente diferente da que sempre conheceram.
— Então... vamos mesmo nos mudar? — perguntou a tia, com a voz baixa.
Constantine assentiu.
— Sim.
O tio passou a mão pelos cabelos grisalhos e desviou o olhar para a janela.
Do lado de fora, os campos se estendiam até onde a vista alcançava.
Aquela terra havia sido seu lar durante toda a vida.
Ali ele crescera.
Ali construíram lembranças.
Ali enterrara sonhos e cultivara esperanças.
Deixar tudo aquilo para trás não era fácil.
Observando a expressão dos dois, Constantine sentiu uma pontada de tristeza.
Talvez estivesse arrancando seus tios do único lugar que haviam chamado de lar.
Do único lugar onde se sentiam pertencentes.
Por um instante, ela se perguntou se estava fazendo a coisa certa.
Mas logo afastou aquele pensamento.
A mudança era necessária.
A vida estava lhes oferecendo uma nova oportunidade.
Permanecer ali significava viver presos ao passado e às incertezas.
Seguir em frente significava abrir espaço para novas experiências, novos encontros e novas possibilidades.
— Eu sei que dá medo — disse ela, segurando as mãos dos dois. — Também estou assustada. Mas estaremos juntos. E enquanto estivermos juntos, vamos encontrar um jeito de dar certo.
Os olhos de sua tia se encheram de lágrimas.
— Você sempre cuida de nós, minha filha.
— Porque vocês sempre cuidaram de mim primeiro — respondeu Constantine com um sorriso emocionado.
Naquele momento, o medo ainda estava presente.
A saudade antecipada também.
Mas, aos poucos, algo maior começou a surgir nos corações dos três.
A esperança de que o futuro pudesse guardar dias melhores do que aqueles que estavam deixando para trás.