Capítulo 20 — A partida.
A equipe da Zanobi Corporation aproveitava os dias de descanso no Nature Paradise Resort. Após meses de trabalho intenso, aqueles três dias pareciam um presente merecido.
O senhor Zanobi, por sua vez, dedicava cada segundo à companhia que mais lhe agradava: Emilyke. Entre caminhadas pelos jardins exuberantes e jantares sob a luz suave das estrelas, ele finalmente permitia a si mesmo momentos de tranquilidade.
Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, a mansão permanecia silenciosa.
Constantine caminhava de um lado para o outro em seu quarto. A inquietação parecia consumir cada pensamento.
Ela observou pela janela os extensos jardins que cercavam a propriedade e suspirou.
— O que esse gesto de generosidade significa? — murmurou para si mesma.
Não encontrava resposta.
Desde que chegara ali, sentia-se como uma intrusa. Aquele lugar não lhe pertencia. Nada lhe pertencia.
Era grata pela ajuda recebida, mas sua dignidade falava mais alto.
A vida já havia lhe arrancado tantas coisas que ela se recusava a perder também o amor-próprio.
Não queria ser vista como um peso.
Não queria ser um bichinho de estimação acolhido pela bondade temporária de pessoas ricas.
Depois de refletir durante horas, tomou sua decisão.
Voltariam para casa.
Chamou os tios para conversar.
Ludovica e Tomazzo ouviram atentamente enquanto ela explicava seus sentimentos.
— Minha filha, sua última avaliação médica é amanhã. Tem certeza de que quer ir embora agora? — perguntou Ludovica, segurando suas mãos.
Constantine assentiu.
— Tenho.
Tomazzo trocou um olhar preocupado com a esposa.
— Nós conseguimos suportar mais um dia, minha filha.
— Não. — Sua voz saiu firme. — Eu já me decidi. Vamos hoje. E eu sei que vocês também desejam isso.
O casal permaneceu em silêncio.
No fundo, ela tinha razão.
Por mais confortável que fosse a mansão, o coração deles nunca deixara de pertencer à pequena casa simples onde haviam construído suas memórias.
Pouco tempo depois, as malas estavam prontas.
Quando o táxi estacionou diante da entrada principal, a alegria brilhava discretamente nos olhos dos tios.
Eles finalmente voltariam para casa.
Mas Constantine não conseguia compartilhar completamente daquele sentimento.
"O que farei por eles?"
A pergunta surgia repetidamente.
Ela precisava encontrar uma forma de retribuir tudo o que os tios haviam feito por ela.
Precisava encontrar um novo lugar para chamarem de lar.
Por mais que tivesse recebido muito cuidado vindo da parte dele, ela nunca esqueceu aquela carta para desocupar a fazenda.
Ela não podia estar mais naquele ambiente.
Por mais que esteja difícil, ninguém pode diminuir seus valores para caber numa vida que não é sua.
Os seus pensamentos a levaram para longe enquanto percorria o caminho de volta para casa. Estava tão distraída que não conseguiu observar a natureza exuberante ao seu redor.
“Eu não posso ficar aqui vendo as coisas acontecerem de braços cruzados.”
Ao se aproximarem da fazenda, os amigos vizinhos começaram a chegar para espera-los. Duas semanas longe de quem a gente gosta, parece uma eternidade.
Entre abraços afetuosos e sorrisos calorosos, eles foram recebidos de volta a casa.
Pi havia tomado conta cuidadosamente de tudo que tinha na fazenda, desde a plantação e os animais, até às plantas de Ludovica.
Ao chegar e encontrar tudo no lugar, a sensação de alívio foi indescritível.
Tomazzo foi colher umas laranjas, Ludovica foi procurar ovos e Constantine abriu o seu baú e revistou o passado dolorido tentando encontrar uma resposta. Mas qual resposta a ajudaria naquela situação? Você já sabe a resposta.
Após um longo momento ali, ela saiu a procura de Ludovica e lhe ajudou a preparar o jantar.
Assim, noite veio chegando bem devagarinho trazendo tranquilidade para o coração agitado.
Quando amanheceu, o céu estava rosado e a brisa gelada tocava o rosto.
Estava na hora de colher as batatas, parecia ser a maior colheita do ano.
— É a nossa chance, venderemos a nossa parte e alugamos uma casa no bairro mais humilde da cidade. Eu encontro um emprego e sustento vocês. — Afirmou Constantine.
— Queria muito estar forte para trabalhar, mas eu não aguento mais como antes. Disse Tomazzo com os olhos cheio de lágrimas.
—Nada disso! Eu vendo as minhas tortas, não precisa se preocupar, Constantine.
Sei como as moças sofrem nas mãos de patrões sem escrúpulos. Você não vai passar por isso!
— Tia, muita coisa mudou dos seus tempos para cá, agora tem leis que protegem as mulheres.
— Você lembra da filha de Creusa? Pois é. A pobre coitada foi tentar algo melhor na cidade grande e voltou daquele jeito que você está vendo. Não vou deixar você passar pela mesma coisa — Disse Ludovica batendo o pote de farinha na mesa inconformada.
— Não fique assim Ludo...eu sei me virar, vocês me ensinaram a entrar e sair de um lugar muito bem. Não se preocupem comigo, sou a pessoa mais bem preparada que vocês já viram. Nada me abala. Meus mentores os melhores do mundo, ninguém se compara a eles. — Disse Constantine piscando um dos olhos.
— Chega de conversa, vem me ajudar com essa torta. Anda logo se não a geleia de morango vai passar do ponto. Me passa a colher maior, por favor. Ah, pega aquela toalha bonita de limão bordado também. Agora, três potes, tampas, açúcar e pratos.