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Capítulo 23 – Sob a Tempestade

Tudo estava cinza naquele dia.

O céu estava tomado por nuvens pesadas que pareciam anunciar uma tempestade sem fim. As ruas estavam encharcadas, repletas de poças que se espalhavam pelas calçadas irregulares da parte mais humilde da cidade.

As gotas de chuva caíam incessantemente sobre o casaco preto do homem, atravessando o tecido já encharcado e trazendo consigo um frio que parecia alcançar os ossos.

O chapéu escuro mal conseguia protegê-lo.

A água escorria pelas abas e descia por seu rosto.

Ainda assim, ele não desacelerou.

Seus passos eram rápidos.

Determinados.

Não cumprimentou ninguém pelo caminho.

Não parou para esperar a chuva passar.

Estava fugindo do seus próprios pensamentos.

Ou talvez estivesse correndo atrás de alguma coisa.

Finalmente avistou o pequeno açougue de Tião.

A placa antiga balançava ao sabor do vento.

Sem hesitar, atravessou a porta.

O sino preso acima da entrada tocou.

Tião levantou os olhos do balcão.

— Bom dia.

Lá dentro, o ambiente era mais quente.

O cheiro de carne fresca misturava-se ao aroma de café recém-passado que vinha dos fundos do estabelecimento.

O homem retirou o chapéu ainda pingando.

Pequenas gotas de água caíram sobre o piso de madeira envelhecida.

Por alguns instantes, seus olhos percorreram o açougue.

Observou os cantos.

As prateleiras.

As mesas.

Como se procurasse alguma coisa.

Ou talvez alguém.

Por fim, aproximou-se do balcão.

— O senhor tem alguma bebida quente para me oferecer? Ou até mesmo alguma coisa forte?

Tião ergueu uma sobrancelha.

— Café eu tenho. Já bebida forte, só depois do expediente.

Um leve sorriso surgiu nos lábios do visitante.

— O café serve.

Tião encheu uma caneca e a empurrou pelo balcão.

O homem envolveu as mãos ao redor dela imediatamente.

O calor pareceu devolver um pouco da vida aos seus dedos congelados.

Após o primeiro gole, soltou um suspiro satisfeito.

— Isso é exatamente do que eu precisava.

— O senhor veio de longe?

— Mais longe do que gostaria.

— E numa manhã dessas?

O homem olhou para a chuva que continuava castigando a cidade através da janela.

— Não consegui trazer o carro até aqui. As ruas são estreitas demais e o terreno está um verdadeiro lamaçal.

Tião soltou uma pequena risada.

— Bem-vindo ao nosso canto do mundo.

O visitante retribuiu o sorriso.

Mas seu semblante voltou a ficar sério logo em seguida.

Tião então o observou com mais atenção.

Apesar da idade avançada, havia algo de imponente naquele homem.

Algo que não combinava com aquele bairro simples.

Suas roupas eram de excelente qualidade.

Seu relógio certamente valia mais do que muitas casas daquela região.

E seus modos denunciavam alguém acostumado a ambientes muito diferentes daquele.

— Me desculpe a curiosidade — disse Tião —, mas o que faz um homem da sua idade andar por essas ruas debaixo de uma tempestade dessas? É perigoso até para os mais jovens.

O desconhecido permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Seu olhar perdeu-se na fumaça que subia da caneca.

Então respondeu:

— Quando passamos tempo demais procurando algo... aprendemos que algumas tempestades valem a pena.

A resposta intrigou Tião.

— Estou procurando uma jovem.

Tião franziu a testa.

— Que jovem?

O desconhecido colocou a mão dentro do casaco e retirou uma folha cuidadosamente protegida da chuva.

Em seguida, estendeu-a sobre o balcão.

Tião baixou os olhos.

Seu semblante mudou imediatamente.

Porque a imagem diante dele era inconfundível.

Era Constantine.

Mais jovem.

Mas sem dúvida era ela.

O açougueiro ergueu os olhos lentamente.

— Quem é o senhor?

O homem ignorou a pergunta.

Seu olhar permaneceu fixo na fotografia.

— Então ela esteve aqui.

Não era uma pergunta.

Era uma certeza.

Tião observou a fotografia por mais alguns segundos.

Quando voltou a erguer os olhos, seu semblante já não era tão amigável quanto antes.

— Sinto muito, senhor. Acho que o senhor está enganado.

O desconhecido permaneceu imóvel.

— Enganado?

— Não conheço essa moça.

O homem soltou uma risada breve.

Com incredulidade 

E um pouco sarcástico 

— Não conhece?

— Não.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Um ar de desapontamento começou a tomar conta do homem.

A chuva continuava castigando o telhado do açougue enquanto os dois homens se encaravam em silêncio.

Por fim, o visitante apoiou as duas mãos sobre o balcão.

— Vamos parar com esse teatrinho.

A voz saiu firme.

Mais firme do que antes.

— Eu sei que ela está aqui.

Tião cruzou os braços.

— Não faço ideia do que o senhor está falando.

— Ela trabalha aqui.

O silêncio desconsertante

— Ela mora nesta região.

— E eu sei que o senhor sabe exatamente onde encontrá-la.

Os olhos de Tião se estreitaram.

— E se eu soubesse?

— Então estaria desperdiçando o meu tempo.

A resposta veio rápida.

Direta.

Tião já não estava gostando daquela conversa.

Nem um pouco.

— Escute aqui, senhor. Eu nem sei quem o senhor é.

— Isso não importa.

— Importa sim.

Pela primeira vez, a voz de Tião elevou-se.

— O senhor entra no meu estabelecimento, faz perguntas sobre uma moça e acha que eu vou sair entregando informações?

O visitante endireitou a postura.

A expressão calma desapareceu completamente.

— Eu não vim aqui para causar problemas.

— Então pare de agir como se estivesse interrogando alguém.

Os dois permaneceram se encarando.

A tensão era tão forte que parecia ocupar todo o espaço.

Do lado de fora, um trovão sacudiu o céu.

— Eu preciso encontrá-la — disse o homem.

— E eu preciso ter certeza de que ela está segura.

A resposta de Tião veio sem hesitação.

Aquilo pareceu atingir o visitante de maneira inesperada.

Por alguns instantes, ele não disse nada.

Apenas observou o açougueiro.

Como se finalmente entendesse o motivo daquela resistência.

Então respirou fundo.

Lentamente.

Tentando recuperar a calma.

Mas sua próxima frase carregava uma emoção que não conseguia esconder.

— Se eu quisesse fazer mal a Constantine, não teria atravessado uma tempestade para procurá-la.

Tião permaneceu em silêncio.

— E não estaria procurando por ela há tantos anos.

Aquelas palavras ficaram suspensas no ar.

Pesadas.

Misteriosas demais.

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