Grávido

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Última atualização: 2026-01-18
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James nunca quis um ômega, nunca quis uma marca, nem filhos, muito menos uma família. Daniel nunca quis assumir qualquer outro papel, além de ser um beta, completamente neutro e invisível dentro daquela sociedade marcada por desigualdade e hierarquia. Então algo morre dentro dele, quando a médica lê os resultados do exame: Grávido.

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Capítulo 1

Notícia

– Parabéns - a médica disse animadamente, um sorriso largo no rosto - Você está grávido.

Daniel sentiu como se os pés tivessem saído do chão e ele estivesse flutuando sem rumo, o mundo pareceu despedaçar diante de uma realidade daquelas, a sala girava, enquanto o secretário apoiava suas mãos na mesa, se sentindo tonto, enjoado, calafrios percorrendo o corpo magro. A médica observava preocupada, como Daniel estava pálido, prestes a desmaiar.

- Não é um bom momento para esse tipo de piadas, doutora - Daniel riu sem humor, o nervosismo dominando cada célula de seu corpo - Eu estaria apavorado, se não fosse beta e isso não fosse possível, não teve a menor graça.

A médica beta permaneceu séria, preocupada em como daria aquela notícia para o rapaz, enquanto olhava as fichas do paciente.

- Como? - os olhos arregalados do ômega demonstravam o pânico que ele sentia - Como isso é possível? Eu nem sabia que isso era possível.

- Senhor, se acalme, por favor, todo esse estresse pode prejudicar o bebê - a beta falou, observando a posição protetora que o novo ômega assumiu.

Os braços envolveram seu abdomên plano, enquanto ele respirava pausadamente, os olhos marejados e o cheiro doce do ômega ficando cada vez mais azedo pelo medo.

- São casos muito raros, mas acontece, como o seu caso, uma marca de um alfa dominante - explicou a médica.

- M-marca? - gaguejou o paciente, suando frio.

As mãos de Daniel tremiam, quando ele ergueu a esquerda e cautelosamene aproximou de sua nuca, antes de acariciar a marca dos dentes de James. Ele imaginou que era uma mordida comum que logo desapareceria. Por se relacionar com um alfa, ele estava acostumado a receber diversas mordidas durante o sexo.

– Como você me parece nervoso, vou precisar fazer algumas perguntas de rotina - explicou a mulher - O senhor está sofrendo algum tipo de abuso?

Daniel franziu a testa, inclinou a cabeça e encarou a beta, parecendo confuso.

- O alfa te obrigou? A marca foi forçada? Gostaria de saber sobre nossas opções para abortos? Precisa chamar a polícia? Aqui é um ambiente seguro, não se sinta acanhado de me relatar o que está acontecendo para ter uma reação assim, por favor.

Ao mencionar o aborto, Daniel pareceu despertar de um transe, piscou algumas vezes, se sentindo perdido, olhou para a médica assustado.

- Não, não mesmo, nada disso aconteceu - respondeu o ômega - E eu gostaria de seguir com a gravidez.

A médica avaliou a postura e reação do ômega, considerando as possibilidades que levavam à uma reação assim.

- Entendo, talvez seja uma surpresa para vocês a questão da mudança de seu segundo gênero, o que é totalmente normal, devido a raridade da sua condição e a escassez de informação sobre, mas caso você queira, pode trazer o seu alfa aqui, posso dar a notícia e explicar sua condição sem problemas - ofereceu - Mas também devo deixar claro suas possibilidades, então além do aborto, damos suporte para o desligamento da marca. Lembrando que é um processo doloroso, com sérios riscos tanto para os parceiros ligados, quanto para o seu bebê.

Daniel tinha certeza que não faria nada que pudesse causar algum problema para sua gravidez, o bebê já tinha um espaço reservado para si em seu coração e sempre foi um sonho para o ômega ter uma família, acreditava que não conseguiria realizar tal sonho, pois sua vida sempre foi difícil, divido entre pagar as dívidas de sua avó e cuidar da idosa com cãncer, era muito difícil ter qualquer relacionamento, ainda mais difícil planejar uma família.

- Obrigada, doutora, mas nada disso será necessário - afirmou Daniel, sorrindo para a mulher.

Perdido nos próprios pensamentos, ponderando o próximo passo, Daniel caminhou pelas ruas sem rumo, não queria ir diretamente para o apartamento de James, não queria vê-lo e muito menos transar com ele. Precisava pensar em como sair daquela situação, morava com seu chefe, para quem trabalhava como secretário, o homem pagou as dívidas da avó com agiotas, o tratamento da ômega no hospital, cobria todos seus gastos e ainda recebia um salário, tudo isso o deixava em dívida com James, mas era cobrado com favores sexuais. Mesmo que não gostasse da vida que estava levando, aguentou tudo calado mas um filho, uma marca, um novo gênero mudava absolutamente tudo. James Jupp deixou claro a sua repulsa à ideia de ter um filho ou construir uma família desde o início, se relacionando com betas justamente pela impossibilidade de engravidar.

Quando percebeu, estava em frente ao hospital onde a avó estava internada, a idosa estava conseguindo se recuperar aos poucos com o novo tratamento. Chegou ao quarto, encontrando-a dormindo tranquilamente, enquanto uma das enfermeiras trocava o soro. Engoliu em seco, não importava quantas vezes ele repassou aquela conversa na cabeça, ele se sentia envergonhado de explicar o que aconteceu para a ômega que o criou.

- Oi, querido, tudo bem? Sua avó está dormindo - a enfermeira sussurrou ao vê-lo na porta - Ela precisa descansar, ok? Não acorde.

- Tudo bem - Daniel suspirou, em um misto de alívio e nervosismo - Vim só ver como ela estava.

– Ela está cada dia melhor, estamos muito felizes pela significativa melhora – a enfermeira relatou muito animada – Pode ficar à vontade.

Enquanto a enfermeira organizava o material levado para a troca de soro, enquanto Daniel pensava sobre a situação, tendo uma ideia repentina.

- Carol - Dan chamou - Desculpe, mas eu tenho uma dúvida.

- Pergunte o que quiser, meu bem, estou aqui para ajudar - respondeu.

– Um amigo pagou antecipadamente pelo tratamento da minha avó, gostaria de saber se caso eu precisasse me mudar teria algum problema? Perderíamos o tratamento já pago? Se eu poderia realizar a transferência para um hospital em outra cidade ou país? – as perguntas foram sussurradas, Dan não parava de se mexer e olhar para os lados no corredor, parecia estar sendo perseguido.

– Poderia sim, a transferência mais simples e tranquila seria para uma das nossas unidades ou em outras capitais do país ou mesmo no interior – Carol sussurrava também – Está acontecendo alguma coisa, senhor Daniel Smith?

– Nada – a voz dele ficou muito aguda de repente, pois estava tentando controlar a vontade de chorar desde que saiu do consultório médico, deixou transparecer o que sentia, deixando algumas lágrimas caírem.

– Me conte, por favor, sinceramente eu criei um carinho por sua avó e mesmo pelo senhor durante esse tempo que estive cuidando dela, sei que a questão financeira sempre foi um problema para vocês, mas nunca te vi desse jeito – a enfermeira depositou sua mão em seu ombro tentando acalmá-lo.

– Você me ajudaria a realizar a transferência da minha avó e manter isso sigiloso caso eu precisasse? – perguntou Dan.

– Claro que sim.

– Certo, assim que eu decidir o que fazer eu te explico a situação – ele concluiu enxugando as próprias lágrimas – Muito obrigado – Dan sorriu, tentando se convencer que tinha tudo sob controle.

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