6 — Limites invisíveis

CAPÍTULO 6 — Limites invisíveis

"Emma Carter"

Quase duas semanas se passaram desde que comecei a cuidar da Sophia. O tempo dentro daquela casa tinha um ritmo próprio. Os dias eram longos, mas não pesados. Pelo menos não quando eu estava com ela. Sophia mudou rápido — rápido demais para passar despercebido.

Dormia melhor, comia com mais apetite, ria com facilidade. Estava mais desperta, mais curiosa, mais presente. Já se sentava com firmeza, explorava os brinquedos com atenção concentrada e balbuciava sons cada vez mais definidos, como se estivesse testando o próprio corpo e a própria voz ao mesmo tempo. E, acima de tudo, estava mais tranquila.

O vínculo entre nós cresceu sem esforço. Não foi algo planejado, nem desejado conscientemente. Simplesmente aconteceu. Sophia me procurava com os olhos quando acordava, se acalmava no instante em que eu a pegava no colo, reclamava quando eu me afastava por mais tempo do que achava aceitável.

Era confiança. E eu… eu me peguei amando cuidar dela. Não por obrigação, nem por carência, nem por precisar preencher um vazio meu, mas porque aquele serzinho pequeno, curioso e sensível despertava algo genuíno em mim. Um cuidado que vinha de dentro, quase instintivo. Eu sentia vontade de protegê-la, de acolhê-la, de garantir que ela se sentisse segura naquele mundo grande demais.

Ainda assim, eu me policiava. Eu sabia que não era a mãe e nunca seria. E sabia também, que havia limites invisíveis que eu não podia ultrapassar.

Matteo deixava isso claro, mesmo sem dizer diretamente. Eu sentia nos silêncios, nas regras rígidas, na distância cuidadosamente mantida. Ele não precisava levantar a voz para impor presença. Bastava existir.

Falando nele… Matteo estava quase sempre ausente. Saía cedo, antes de Sophia acordar e chegava tarde, quando ela já dormia.

Nos cruzávamos pouco. E, quando acontecia, era sempre rápido. Frases curtas. Perguntas objetivas. Nenhum interesse real. Às vezes, ele nem olhava para a filha. Perguntava se tinha comido, dormido, tomado o remédio. Agia como se estivesse checando um relatório. É sempre frio, ríspido e constantemente mal-humorado.

Eu fazia o possível para evitá-lo. Não por medo — embora houvesse um pouco disso —, mas por necessidade. Precisava daquele emprego. Precisava do salário. Precisava manter tudo funcionando sem conflitos, mas havia algo que eu não conseguia ignorar. Sophia precisava de afeto. E eu não conseguia negar isso a ela.

Naquela manhã, a cozinha estava iluminada pelo sol fraco que entrava pela janela. O ambiente estava tranquilo. Sophia estava sentada na cadeirinha, batendo a colher na bandeja com animação, espalhando pequenos respingos de comida. Eu a alimentava devagar, conversando como sempre.

— Abre a boquinha… isso — murmurei. — Muito bem.

Ela riu, satisfeita, sujando o queixo.

— Você é uma bagunceira — falei, limpando com cuidado.

Sophia me observou atenta. Os olhos grandes e curiosos fixos no meu rosto. Franziu a testa, como se estivesse concentrada em algo muito importante.

— Ma… — balbuciou.

Sorri, sem pensar muito.

— O quê?

Ela abriu um sorriso largo e repetiu, agora mais firme:

— Ma… ma…

Meu coração falhou por um segundo. Não podia ser isso.

Antes que eu tivesse tempo de reagir, ouvi passos atrás de mim. Matteo acabara de entrar na cozinha.

— Mama — Sophia disse novamente, animada, como se tivesse descoberto algo grandioso.

O silêncio caiu pesado.

Senti o corpo de Matteo enrijecer atrás de mim. A mudança foi imediata. O ar pareceu ficar mais denso.

— O que você pensa que está fazendo? — a voz dele veio dura, alta demais para aquele espaço.

Sophia se assustou, o sorriso sumiu, o corpinho pequeno estremeceu.

Virei-me no mesmo instante.

— Eu não estou fazendo nada — respondi, tentando manter a calma. — Ela só...

— Você acha aceitável isso? — ele interrompeu, o olhar tomado por algo que eu nunca tinha visto antes. Raiva. — Você acha que pode ocupar um lugar que não é seu?

Sophia começou a choramingar, confusa com o tom.

— Senhor Thompson, ela é um bebê — falei. — Ela está aprendendo sons, palavras...

— Você não é mãe dela — ele bradou. — E nunca será.

Cada palavra caiu como um golpe seco.

— Ponha-se no seu lugar, Srta. Carter — continuou. — Você é apenas a babá.

Engoli o choro. O rosto queimava. O peito apertava. Sophia chorava mais alto agora, estendendo os braços na minha direção.

— O senhor está assustando ela — falei, firme apesar do tremor.

— Eu não vou tolerar esse tipo de coisa — ele respondeu, ignorando completamente a filha. — Não vou permitir que confunda minha filha. Não vou permitir que crie dependência emocional.

— Ela não está confusa — rebati. — Ela está se sentindo segura.

O olhar dele foi cortante.

— Segurança não exige que ela te chame de mãe.

— Ela não sabe o significado disso — respondi. — Para ela, é som. É referência. É...

— Chega.

O silêncio voltou, pesado, sufocante.

— Isso passou dos limites — ele disse, frio. — Você ultrapassou uma linha clara.

— Eu nunca tentei substituir ninguém — falei. — Só cuidei dela como qualquer criança precisa ser cuidada.

— Exatamente aí está o problema — ele respondeu. — Ela não precisa de uma mãe.

Meu coração despencou.

— Ela precisa de uma babá — completou. — E você esqueceu isso.

Respirei fundo, segurando as lágrimas que queimavam.

— Eu fiz meu trabalho — falei. — E fiz bem.

— Não — ele rebateu. — Você se envolveu.

Ele se aproximou, imponente, o olhar duro.

— Não quero você perto da minha filha — disse, sem hesitar. — Arrume suas coisas.

Agora.

— O quê? — sussurrei.

— Está demitida.

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