5 — Primeiro dia

CAPÍTULO 5 — Primeiro dia

Acordei com um choro baixo vindo do berço.

Não foi susto, foi instinto. Abri os olhos ainda sonolenta e levei alguns segundos para lembrar onde estava. O quarto era claro, silencioso, organizado demais para ser meu. O berço ao lado da cama confirmou tudo.

Sophia.

Levantei no mesmo instante. Tomei um banho rápido, me vesti e voltei para o quarto antes que o choro aumentasse. Ela se mexia inquieta, os olhos semicerrados, o rostinho amassado de sono.

— Ei… — sussurrei, pegando-a no colo.

O choro cessou quase na hora.

Ela se aninhou contra mim com facilidade, como se aquele gesto já fosse familiar. Aquilo me apertou o peito de um jeito estranho. Era só o primeiro dia, mas o corpo dela relaxou nos meus braços como se soubesse que estava segura.

Desci com ela pouco depois.

A cozinha estava silenciosa. Margot organizava a bancada com a mesma eficiência tranquila do dia anterior.

— Bom dia, querida — disse ao nos ver. — Ela acordou cedo?

— Um pouco — respondi. — Já se acalmou.

Margot sorriu para Sophia.

— O senhor Thompson já saiu — comentou, quase casualmente.

Levantei os olhos.

— Já?

— Saiu bem cedo. Não gosta de se atrasar.

Olhei para Sophia, tranquila no meu colo, brincando com a gola da minha blusa.

— Ele… não se despediu? — perguntei, sem conseguir disfarçar a estranheza.

Margot abriu a boca para responder, mas se interrompeu no meio da frase.

— Matteo não é muito… — ela fez uma pausa breve, calculada, e balançou a cabeça. — Desculpe. Não cabe a mim comentar isso.

O tom mudou. Mais fechado. Mais profissional.

Ela percebeu que estava falando demais para uma estranha. E sabia, acima de tudo, que o senhor Thompson prezava por discrição.

Aquilo ficou ecoando na minha cabeça mais do que deveria.

Preparei a mamadeira, dei o remédio no horário certo, troquei a fralda. Sophia estava mais desperta, curiosa. Já se sentava sozinha e balbuciava sons desconexos, como se estivesse tentando conversar comigo.

— Ba… ba… — disse, batendo as mãos pequenas no ar.

— É, eu sei — respondi, sorrindo. — Você tem muito a dizer.

Ela gargalhou.

Uma gargalhada aberta, clara, que encheu a cozinha.

Margot observava de longe.

— Ela não costuma rir assim logo cedo — comentou.

— Talvez só estivesse precisando de atenção — falei, sem pensar.

O dia seguiu nesse ritmo.

Sophia cochilou duas vezes, comeu bem, brincou no tapete da sala. Eu conversava com ela o tempo todo, descrevendo o que fazia, apontando objetos, respondendo aos sons que ela emitia como se fossem frases completas. Ela parecia gostar.

Sentava firme, curiosa, tentava alcançar tudo. Quando eu me afastava por alguns segundos, reclamava. Quando voltava, abria um sorriso orgulhoso, como se tivesse vencido um desafio.

Margot esteve por perto o tempo todo, como o senhor Thompson havia pedido. Observava, ajudava quando necessário, mas não interferia.

— Ela confia fácil em você — disse em certo momento. — Nem sempre é assim.

— Bebês sentem quando alguém está presente de verdade — respondi.

Margot assentiu, pensativa.

No meio da tarde, Sophia ficou mais manhosa. A gengiva estava sensível, e ela reclamava com pequenos gemidos. Sentei no sofá, coloquei-a no colo e comecei a cantar baixinho, sem pensar muito na melodia. Ela se acalmou aos poucos e encostou a cabeça no meu peito, adormecendo ali.

Fiquei imóvel por longos minutos, com medo de acordá-la. Quando o sol começou a cair, ouvi o som da porta da frente, e passos firmes e precisos se aproximava. Ele havia chegado.

Matteo entrou na sala ainda falando ao telefone, expressão fechada, postura tensa. Desligou sem se despedir de quem estava do outro lado da linha e só então pareceu notar a cena, eu no sofá com a Sophia dormindo no meu colo.

O silêncio se instalou.

— Ela dormiu bem? — perguntou, por fim, com a voz neutra.

— Sim — respondi. — Teve um bom dia.

— Febre?

— Não.

— Comeu?

— Tudo.

— Chorou?

— Um pouco à tarde. A gengiva incomodou.

Ele assentiu, como se marcasse itens invisíveis numa lista.

— Medicação no horário?

— Sim.

— Ótimo.

O olhar dele se fixou na posição em que estávamos.

— Leve-a para o quarto — disse. — Não é bom deixá-la dormir assim. Não quero que fique mal-acostumada.

Ergui os olhos devagar e lancei um olhar incrédulo.

Não respondi.

Levantei com cuidado, ajustando Sophia nos braços para não acordá-la. Segui em direção ao quarto, sentindo a presença dele logo atrás de mim, silenciosa e controladora. Coloquei-a no berço com todo cuidado, a Sophia se mexeu, mas não acordou.

— Ela tentou falar hoje — comentei baixo, enquanto ajeitava o cobertor. — Balbuciou bastante. Está esperta.

— É a idade — respondeu ele, indiferente.

Nenhum sorriso. Nenhum comentário a mais, então saiu do quarto.

Alguns minutos depois, ouvi passos novamente, ele voltou, agora acompanhado da Margot. Quando entraram, Sophia choramingava baixo, inquieta. Eu estava ao lado do berço, tentando acalmá-la com movimentos suaves e voz baixa.

— A gengiva ainda está incomodando — expliquei. — Mordedores ajudam bastante nesses momentos.

Matteo observou por alguns segundos.

— Vou providenciar — disse, seco.

Esperei até que Sophia se acalmasse novamente antes de entregá-la a Margot.

— Boa noite, pequena — murmurei, antes de me afastar.

Segui Matteo pelo corredor.

— Amanhã começamos mais cedo — disse por fim. — Quero que mantenha a mesma rotina.

— Certo.

— Você vai precisar dormir aqui — acrescentou. — Terá direito à folga, mas preciso que esteja disponível.

Assenti.

Ele virou de costas e seguiu adiante.

Fiquei parada por um instante.

Com a certeza incômoda de que aquele homem não enxergava a filha como alguém a amar — mas como algo a administrar.

E aquilo, cedo ou tarde, ia explodir.

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