Mundo de ficçãoIniciar sessãoCAPÍTULO 7 — O que falta
"Matteo Thompson" Eu ainda estava processando aquilo. A palavra, o som, o jeito como saiu da boca pequena da Sophia, natural demais para ser ignorado. Mama. Não fazia sentido, não podia fazer. Ela era só uma babá. Duas semanas. Em duas semanas não se constrói esse tipo de coisa. Não se cria vínculo profundo. Não se cria dependência. Muito menos substituição. Ainda assim, a casa parecia diferente naquela noite. Não era barulho, nem agitação, era um peso. Algo invisível, denso, ocupando os espaços, lembrando o tempo todo da consequência daquela ausência. Sophia chorava no andar de cima. Não era um choro explosivo, era contínuo, rouco. Um som insistente que não pedia atenção — exigia. Como se algo essencial tivesse desaparecido e nada mais fosse suficiente para preencher o vazio. Margot desceu as escadas com o rosto tenso. — Ela não para — disse. — Já verifiquei tudo. Fralda, alimentação, febre. Está tudo certo. Assenti, rígido. — É adaptação — respondi. — Vai passar. Margot me observou por alguns segundos antes de falar novamente. — Matteo… ela está diferente. Ela sente... — A Sophia não pode sentir falta de alguém que não é nada dela — cortei, sem paciência. — É impossível existir esse tipo de apego em tão pouco tempo. — Para um bebê é possível, sim — Margot respondeu, com cuidado. — Principalmente quando... — Chega — interrompi. O choro aumentou. Me afastei, irritado com cada som. Minutos depois, subi os degraus devagar, sentindo um peso sobre os ombros. Parei diante da porta do quarto. Margot estava sentada na poltrona, tentando embalar Sophia sem sucesso. O rostinho estava vermelho, os olhos inchados, o corpo pequeno arqueando em soluços cansados. — Ma… — balbuciou, fraco. — Ma… Ignorei o aperto que ameaçou se formar no peito. — Coloque-a no berço — ordenei. Margot hesitou, mas obedeceu. Assim que Sophia foi deitada, o choro voltou mais alto. — Ela só precisa se acostumar — falei.— Está vendo porque não é saudável criar dependência. Margot me encarou. — Ela está perdida, Matteo. Não respondi, apenas desci e me servi um whisky. Depois outro. Sentei no sofá tentando focar em qualquer coisa que não fosse aquele som atravessando a casa inteira, mas de nada adiantou. Sophia só adormeceu horas depois. Não por calma, e sim por exaustão. Na manhã seguinte, acordei cedo demais. A cabeça pesada. O corpo tenso. Encontrei Margot na cozinha com Sophia no colo. Ela parecia abatida. — Dormiu mal — disse. — Acordou várias vezes. Observei minha filha. O olhar apagado, distante. Sem a vivacidade dos últimos dias. — Entre em contato com a agência — ordenei. — Quero outra babá hoje. Margot assentiu, mas não escondeu a preocupação. As entrevistas começaram à tarde. Foram apenas duas. A primeira entrou sorrindo demais. Falava demais. Tocou em Sophia sem cuidado. Minha filha chorou no mesmo instante. — Não — interrompi, seco. — Pode ir. A mulher tentou argumentar. — Senhor, eu tenho experiência... — Eu disse não. Ela saiu visivelmente constrangida. A segunda parecia mais preparada. Menos expansiva. Tentou se aproximar com calma. Sophia virou o rosto. Chorou. Depois estendeu os braços… para mim, como quem pedia ajuda. Porém eu travei. — Faça alguma coisa — falei, impaciente. — Ela não está confortável — a candidata respondeu. — Talvez precise de... — Não me diga o que minha filha precisa — cortei. — Está dispensada. Assim que a porta se fechou, Margot falou: — Isso nunca aconteceu antes. — Porque ela está confusa — respondi. — Não — Margot rebateu. — Porque ela sente falta. Ignorei. O dia foi um desastre. A Sophia não comeu direito. Chorou mais do que dormiu. Recusou brinquedos. À noite, a febre voltou — baixa, mas suficiente para me tirar o chão. — Ela não está doente — Margot disse. — A febre é emocional. — Chega — respondi, mais ríspido do que pretendia. Subi para o escritório. Andei de um lado para o outro, à beira de um colapso. Dividido entre o orgulho e a raiva. Eu odiava perder o controle da situação. Nada daquilo estava funcionando. Me sentindo derrotado, então decidi abrir o e-mail. Rolei a tela até encontrar o nome que eu vinha evitando desde a manhã anterior. Emma Carter. Fiquei olhando para a tela por longos segundos, ela não tinha sido incompetente, não tinha desobedecido, não tinha ultrapassado limites por malícia. Tinha feito exatamente o que ninguém mais conseguiu. Cuidar da minha filha. Fechei o notebook com força e peguei o casaco. — Vou sair — avisei Margot, passando por ela. Ela me olhou surpresa. — Agora? — Sim. Tenho que ir. O trajeto até o apartamento dela foi silencioso. Não ensaiei discurso. Não pedi desculpas em pensamento. Eu não fazia esse tipo de coisa. Assim que subi os degraus parei diante da porta e toquei a campainha três vezes seguidas, já impaciente e completamente desesperado. Foi então que a porta se abriu e lá estava a Emma... parada na minha frente, apenas de pijama. O tecido era simples, mas revelador demais para ser ignorado. Curto. Leve. O cabelo solto caía pelos ombros, o rosto limpo denunciava que eu a tinha arrancado de um momento íntimo. Ela congelou. Constrangida. Surpresa. Vulnerável. Era óbvio que não esperava me ver ali — muito menos daquela forma. Emma era bonita, não tinha como negar. Afastei o pensamento imediatamente. Não podia e nem devia. Controlei a expressão. Endireitei a postura. Até que ela saiu do transe e perguntou, ainda incrédula: — O que você faz aqui? E, naquele instante, eu soube que atravessar aquela porta seria muito mais difícil do que qualquer coisa que já tivesse feito.






