Mundo ficciónIniciar sesiónO cano frio da arma de Lorenzo contra a minha testa era a única coisa que me impedia de desmoronar. O silêncio no quarto era tão denso que eu podia ouvir o tique-taque do relógio de parede, cada segundo soando como uma sentença de morte.
— Responda! — o rugido de Lorenzo fez as janelas vibrarem. — Por que os cães do Comando estão na minha propriedade atrás de você? Eu engoli em seco, o gosto metálico do medo misturado ao desejo que ainda queimava em minhas veias. Olhei para o cadáver no chão, para a tatuagem de dois fuzis cruzados no pulso do homem. Minha herança. Minha maldição. — I don't know why they are here — respondi em um inglês perfeito, minha voz tremendo menos do que eu esperava. — Mas se eles atravessaram o oceano, não foi por amor, Lorenzo. Ele soltou uma risada amarga, o rosto a centímetros do meu. A proximidade, que antes era uma promessa de prazer, agora era pura ameaça. — Inglês impecável, arrisca italiano, espanhol... Eu até ouvi você murmurar em mandarim enquanto dormia. — Ele pressionou a arma com mais força, forçando minha cabeça contra o colchão. — Uma babá de favela não fala quatro línguas, Bianca. Uma espiã fala. Uma infiltrada fala. — Eu não sou uma espiã! — gritei, as lágrimas de frustração finalmente escapando. — Eu estudei porque era a minha única chance de fugir! No meu mundo, ou você é o produto, ou é quem negocia o produto. Eu aprendi as línguas para entender o que os monstros que visitavam a minha casa diziam sobre mim! Lorenzo estreitou os olhos. Ele afastou a arma, mas não me soltou. Suas mãos agarraram meus pulsos, prendendo-os acima da minha cabeça com uma força brutal. Ele se acomodou entre minhas pernas, seu corpo pesado me esmagando contra a cama. — Negociavam você? — ele perguntou, a voz baixando para um tom perigosamente calmo. — Como uma mercadoria? Eu desviei o olhar. A memória do cheiro de ópio e do toque gélido do homem chinês que meu pai chamava de "parceiro de negócios" ameaçou me sufocar. O trauma era uma cicatriz invisível que Lorenzo estava cutucando com uma faca cega. — Minha família não tem limites quando o assunto é o mercado exterior, Lorenzo. Eles fazem parte de algo muito maior do que você imagina. Eu fugi porque... porque eu não queria ser a moeda de troca em uma aliança com o Oriente. Lorenzo soltou meus pulsos, mas apenas para segurar meu rosto com as duas mãos. Seu olhar percorreu cada centímetro das minhas feições, como se estivesse procurando a mentira escondida na minha pele. — Se eles vieram até aqui, significa que você roubou algo deles. Ninguém manda soldados para o outro lado do mundo apenas por orgulho ferido. O que você levou, Bianca? — Nada! — menti, e meu coração deu um salto que ele certamente sentiu através do meu peito colado ao dele. — Você mente mal para alguém tão inteligente — ele sussurrou, deslizando os lábios pelo meu pescoço, um gesto que era metade carícia e metade mordida. — Vou manter você viva por enquanto. Não porque confio em você, mas porque Mia não para de chamar seu nome. Mas entenda uma coisa... Ele se afastou o suficiente para olhar no fundo dos meus olhos. O Don da máfia estava de volta, sem rastro de luxúria, apenas autoridade absoluta. — Você está em dívida comigo. Pelo meu segurança morto, pela paz da minha filha e pela minha misericórdia. E eu sou um homem que cobra juros altos. Ele se levantou e ajeitou a camisa, recuperando a elegância letal de sempre. Caminhou até a porta e deu uma ordem curta pelo rádio para limparem o quarto. Antes de sair, ele parou e olhou para mim sobre o ombro. — De manhã, você me entregará todas as línguas que conhece. Você vai traduzir os documentos que Marco encontrou com aquele homem. Se você omitir uma vírgula, Bianca... eu mesmo a entrego de volta para sua família. E eu imagino que isso seja pior que a morte para você. A porta se fechou e eu me encolhi na cama, abraçando meus próprios joelhos. O tremor voltou, mais forte do que nunca. Eu estava entre dois fogos. Se eu contasse a verdade para Lorenzo, ele me usaria como arma. Se eu mentisse, ele me descartaria como lixo. Mas havia algo mais. No meio do caos, eu tinha visto um detalhe no pescoço do invasor que Lorenzo não viu. Não era apenas a tatuagem da minha família. Havia uma pequena marca vermelha, um selo de cera sintética escondido atrás da orelha. O sinal da Tríade. Eles não vieram me buscar. Eles vieram buscar o que eu escondi no forro da mala que Lorenzo confiscou no primeiro dia. A adrenalina me fez levantar. Eu precisava recuperar aquela mala antes que o "Limpador" resolvesse limpá-la também. Mas, ao caminhar até a porta, percebi que ela não estava trancada por fora. Estava aberta. Um convite. Ou uma armadilha. Ao sair no corredor, vi Lorenzo no final das escadas, conversando em voz baixa com Marco. Ele olhou para cima e nossos olhos se cruzaram. Ele levou dois dedos aos lábios e depois apontou para mim, um gesto claro de: estou te vigiando. Corri de volta para o outro quarto de Mia, precisando ver se ela estava bem. Ao entrar, a encontrei sentada na cama, com o caderno de desenhos aberto. Ela não estava desenhando flores ou golfinhos. Ela estava desenhando um homem sem rosto, com uma faca na mão, e uma mulher à frente dele. Mas o que me gelou o sangue foi o que estava escrito no topo da página, em um português arrastado, mas legível: "Eles estão vindo pelo Coração de Jade." Mia me olhou com aqueles olhos brilhantes e tristes. — Ele contou para mim, Bianca. O homem mau disse que você tem o que é deles.






