Natália começou a perceber que Nicolas Vartem não gritava quando perdia o controle.
Ele ficava quieto.
Quieto demais.
Foi isso que a deixou em alerta naquela manhã.
Arthur estava no quarto, montando um quebra-cabeça no chão, enquanto Natália organizava algumas roupas no armário. O silêncio era confortável — até que a porta se abriu sem aviso.
Nicolas entrou.
— Precisamos conversar — disse, a voz baixa, sem rodeios.
Natália sentiu o aviso no tom.
— Arthur, querido — ela falou com cuidado —, por que você não leva o Thor para o jardim? A Helena está lá.
— Tá bom — ele respondeu, obediente, e saiu saltitando.
A porta se fechou.
O ar mudou.
— Aconteceu alguma coisa? — Natália perguntou, virando-se.
Nicolas estava parado perto da porta, braços cruzados, olhar fixo nela como se estivesse prestes a desmontá-la peça por peça.
— Você está ultrapassando limites — disse.
Ela suspirou.
— Se isso for sobre o café da manhã…
— Não é.
Ele deu um passo à frente.
— Meu filho dorme com você no quarto. Ri com você. Procura você. — A voz dele ficou mais tensa. — Você se tornou o centro da rotina dele em poucos dias.
— Porque alguém precisava estar — respondeu ela, firme. — E o senhor não estava.
A frase o atingiu em cheio.
— Eu sempre estive — rebateu.
— Fisicamente — corrigiu. — Emocionalmente, não.
Nicolas passou a mão pelo rosto, visivelmente irritado.
— Você não entende o que está em jogo aqui.
— Então me explique — ela disse, cruzando os braços. — Porque do meu ponto de vista, o que está em jogo é uma criança que finalmente está sorrindo.
— E quando você for embora? — ele explodiu, finalmente. — Quando decidir ir embora como todos os outros?
O silêncio caiu pesado.
Natália sentiu o impacto daquela frase.
— Eu não planejo ir embora — respondeu, mais baixo. — Mas também não posso prometer ficar para sempre.
Os olhos dele escureceram.
— Exatamente.
Ele se aproximou mais. Perto demais.
Natália sentiu o calor do corpo dele, o perfume discreto, a tensão que parecia vibrar no ar entre os dois.
— É por isso que não posso permitir que você se torne indispensável — ele continuou. — Nem para ele. Nem para mim.
O coração dela bateu mais forte.
— Então o problema não é o Arthur — disse. — Sou eu.
Nicolas não respondeu.
O silêncio foi resposta suficiente.
— O senhor tem medo — ela concluiu, num sussurro.
Ele riu sem humor.
— Medo é para pessoas que acreditam em finais felizes.
— Ou para quem já perdeu demais — rebateu.
Algo se quebrou no olhar dele.
Por um segundo, Nicolas pareceu… humano.
— Você não faz ideia do que está provocando — disse, a voz rouca.
— Então pare de me provocar também — ela respondeu, sustentando o olhar.
Eles estavam perto demais agora.
Próximos o suficiente para que Natália percebesse a respiração dele mudar. Próximos o suficiente para que Nicolas percebesse que afastá-la seria muito mais difícil do que mantê-la ali.
Ele deu um passo atrás de repente.
— A partir de hoje, novas regras — anunciou. — Arthur dorme no próprio quarto. Nada de intimidades desnecessárias. E você…
Fez uma pausa.
— Você mantém distância de mim.
Natália sentiu algo apertar no peito.
— Isso não é uma regra — disse. — É uma fuga.
— É sobrevivência.
— Não para mim — respondeu. — Para o senhor.
Ela saiu do quarto antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
Nicolas ficou sozinho.
Minutos depois, Arthur apareceu na porta.
— Pai… a Natália vai embora?
Nicolas fechou os olhos por um instante.
Porque, pela primeira vez, ele não tinha certeza da resposta.
E isso o aterrorizava.