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capítulo 6.Distancia

Natália sentiu a mudança antes mesmo que alguém dissesse qualquer coisa.

Ela estava ali.

Mas não estava.

Arthur foi o primeiro a perceber.

— Você vai brincar comigo hoje? — ele perguntou, segurando Thor, os olhos esperançosos.

Natália se agachou, sorrindo com cuidado.

— Claro que vou. Só… um pouquinho diferente, tá?

Diferente significava que ela não o pegaria no colo.

Não ficaria sentada no chão por horas.

Não dormiria ao lado dele.

Regras novas.

Nicolas observava tudo à distância, do alto da escada, como se cada gesto dela fosse uma linha que ele precisava medir.

— O senhor pediu distância — Natália disse quando o viu. — Estou cumprindo.

— Ótimo.

Mas nada naquele tom era realmente ótimo.

Arthur ficou mais quieto ao longo do dia. Obedeceu, mas sem entusiasmo. Brincou sozinho por mais tempo. Perguntou menos. Riu menos.

Nicolas percebeu.

E odiou isso.

No fim da tarde, Natália organizava os brinquedos na sala quando Nicolas entrou.

— Helena disse que Arthur não comeu direito.

— Ele não estava com fome — respondeu ela, sem levantar a cabeça. — Crianças também sentem mudanças emocionais.

— Está insinuando que a culpa é minha?

Natália respirou fundo antes de responder.

— Estou dizendo que ele sente falta.

— Ele precisa aprender a lidar com frustrações.

Ela se virou lentamente.

— Ele tem cinco anos, senhor Vartem. Não é um executivo.

O silêncio voltou a se instalar.

— Você está me desafiando outra vez — ele disse.

— Não. Estou defendendo uma criança.

Os olhos deles se prenderam.

Havia cansaço ali. Dos dois lados.

— Eu perdi minha esposa — Nicolas disse de repente, a voz baixa. — Não posso perder meu filho também.

Natália sentiu o impacto da confissão inesperada.

— Amar não é perder — respondeu com suavidade. — É arriscar.

— Você fala como se nunca tivesse perdido nada.

Ela desviou o olhar por um segundo.

— Já perdi o suficiente para saber que fechar o coração não impede a dor. Só impede a vida.

Nicolas deu um passo à frente, depois parou. Como se estivesse lutando contra um impulso.

— Você precisa entender — disse. — Pessoas entram… e vão embora.

— Nem todas — ela respondeu. — Algumas ficam. Mesmo machucadas.

Ele riu baixo.

— Você não me conhece.

— Conheço o homem que observa o filho de longe porque tem medo de errar — disse ela. — Conheço o homem que prefere regras a sentimentos porque sentimentos não obedecem.

Nicolas sentiu algo se romper por dentro.

— Chega — disse, seco. — Isso não é uma sessão de terapia.

— Não — concordou ela. — É uma casa. Ou deveria ser.

Ela passou por ele, indo em direção ao quarto de Arthur.

Nicolas ficou parado, sentindo o peso da própria decisão.

Naquela noite, Arthur teve outro pesadelo.

Mas não saiu do quarto.

Natália ouviu o choro abafado do corredor. Ficou parada, o coração apertado, as mãos fechadas em punho.

Ela não podia.

Nicolas ouviu também.

E dessa vez… entrou.

Quando saiu do quarto do filho, horas depois, encontrou Natália sentada no sofá, acordada, os olhos marejados.

Eles se encararam.

Sem palavras.

Sem regras.

Só o silêncio cheio de coisas não ditas.

— Ele dormiu — disse Nicolas por fim.

— Eu sei — respondeu ela. — Ouvi quando o choro parou.

Os olhos dele escureceram.

— Isso não está funcionando — admitiu.

— Eu sei.

— Você deveria ir embora.

O coração dela falhou uma batida.

— Quer que eu vá?

Nicolas abriu a boca.

Mas não respondeu.

Porque, no fundo, ele já sabia:

pedir que ela ficasse era perigoso…

mas deixá-la ir poderia ser irreversível.

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