Natália sentiu a mudança antes mesmo que alguém dissesse qualquer coisa.
Ela estava ali.
Mas não estava.
Arthur foi o primeiro a perceber.
— Você vai brincar comigo hoje? — ele perguntou, segurando Thor, os olhos esperançosos.
Natália se agachou, sorrindo com cuidado.
— Claro que vou. Só… um pouquinho diferente, tá?
Diferente significava que ela não o pegaria no colo.
Não ficaria sentada no chão por horas.
Não dormiria ao lado dele.
Regras novas.
Nicolas observava tudo à distância, do alto da escada, como se cada gesto dela fosse uma linha que ele precisava medir.
— O senhor pediu distância — Natália disse quando o viu. — Estou cumprindo.
— Ótimo.
Mas nada naquele tom era realmente ótimo.
Arthur ficou mais quieto ao longo do dia. Obedeceu, mas sem entusiasmo. Brincou sozinho por mais tempo. Perguntou menos. Riu menos.
Nicolas percebeu.
E odiou isso.
No fim da tarde, Natália organizava os brinquedos na sala quando Nicolas entrou.
— Helena disse que Arthur não comeu direito.
— Ele não estava com fome — respondeu ela, sem levantar a cabeça. — Crianças também sentem mudanças emocionais.
— Está insinuando que a culpa é minha?
Natália respirou fundo antes de responder.
— Estou dizendo que ele sente falta.
— Ele precisa aprender a lidar com frustrações.
Ela se virou lentamente.
— Ele tem cinco anos, senhor Vartem. Não é um executivo.
O silêncio voltou a se instalar.
— Você está me desafiando outra vez — ele disse.
— Não. Estou defendendo uma criança.
Os olhos deles se prenderam.
Havia cansaço ali. Dos dois lados.
— Eu perdi minha esposa — Nicolas disse de repente, a voz baixa. — Não posso perder meu filho também.
Natália sentiu o impacto da confissão inesperada.
— Amar não é perder — respondeu com suavidade. — É arriscar.
— Você fala como se nunca tivesse perdido nada.
Ela desviou o olhar por um segundo.
— Já perdi o suficiente para saber que fechar o coração não impede a dor. Só impede a vida.
Nicolas deu um passo à frente, depois parou. Como se estivesse lutando contra um impulso.
— Você precisa entender — disse. — Pessoas entram… e vão embora.
— Nem todas — ela respondeu. — Algumas ficam. Mesmo machucadas.
Ele riu baixo.
— Você não me conhece.
— Conheço o homem que observa o filho de longe porque tem medo de errar — disse ela. — Conheço o homem que prefere regras a sentimentos porque sentimentos não obedecem.
Nicolas sentiu algo se romper por dentro.
— Chega — disse, seco. — Isso não é uma sessão de terapia.
— Não — concordou ela. — É uma casa. Ou deveria ser.
Ela passou por ele, indo em direção ao quarto de Arthur.
Nicolas ficou parado, sentindo o peso da própria decisão.
Naquela noite, Arthur teve outro pesadelo.
Mas não saiu do quarto.
Natália ouviu o choro abafado do corredor. Ficou parada, o coração apertado, as mãos fechadas em punho.
Ela não podia.
Nicolas ouviu também.
E dessa vez… entrou.
Quando saiu do quarto do filho, horas depois, encontrou Natália sentada no sofá, acordada, os olhos marejados.
Eles se encararam.
Sem palavras.
Sem regras.
Só o silêncio cheio de coisas não ditas.
— Ele dormiu — disse Nicolas por fim.
— Eu sei — respondeu ela. — Ouvi quando o choro parou.
Os olhos dele escureceram.
— Isso não está funcionando — admitiu.
— Eu sei.
— Você deveria ir embora.
O coração dela falhou uma batida.
— Quer que eu vá?
Nicolas abriu a boca.
Mas não respondeu.
Porque, no fundo, ele já sabia:
pedir que ela ficasse era perigoso…
mas deixá-la ir poderia ser irreversível.