CAPÍTULO 3

Quando acordei, ainda piscando, tentando recuperar o foco, percebi que minha visão estava embaçada.

Minha cabeça latejava, pesada, enquanto sons distantes começavam a ganhar forma.

Risos. Baixos. Cruéis.

E então… um gemido baixo.

As imagens finalmente começaram a se ajustar.

Por um segundo, não entendi o que estava vendo.

Então entendi.

Meu estômago revirou.

— Não… — tentei falar, mas minha voz saiu fraca.

Annabell estava completamente vulnerável, inconsciente… sendo manipulada como se não tivesse vontade própria. Pelo homem moreno da casa noturna, com quem dançava momentos antes.

Desviei o olhar, sentindo náusea. Foi quando percebi: eu estava amarrada.

— Me solta! — minha voz saiu desesperada.

— Calma… sua vez vai chegar. O chefe já deve estar voltando para te buscar. Vamos nos divertir com sua amiga enquanto isso — disse o homem parado em pé ao meu lado.

Quando olhei para ele, lembrei.

Era o mesmo que estava na pista com Annabell.

Não o que tinha falado comigo.

Outro.

O pânico tomou conta de mim.

— Deixa a gente ir! — gritei. — Por favor!

O tapa veio rápido. O gosto metálico do sangue invadiu minha boca.

Meu rosto virou com o impacto.

— Ninguém vai te ouvir — disse ele, antes de se abaixar até ficar na minha altura.

Eu estava sentada no chão, amarrada… e ainda assim ele invadiu meu espaço, perto demais.

Seus dedos se fecharam no meu queixo com força.

— Ei! Não b**e nela! O chefe vai te matar! Lembra? Nada de tocar na outra — disse o moreno, sem parar o que fazia.

Minhas lágrimas vieram sem controle.

— Socorro! — gritei novamente.

— Chega!

O loiro puxou um lenço vermelho do bolso e amarrou minha boca.

Tentei gritar, mas só consegui emitir sons abafados.

Meu coração disparava.

Eu ia morrer ali.

CRAC!

O som de um galho quebrando fez o homem virar a cabeça.

— Cuide delas — disse ele, levando a mão para trás da cintura.

Vi o brilho metálico.

Uma arma.

Meu corpo inteiro gelou.

— Vou ver o que é — disse, antes de se pôr de pé novamente.

Ele seguiu em direção à floresta.

O silêncio caiu por um instante.

Pesado.

Errado.

Então —

Um som. Baixo. Profundo. Vindo das árvores. O moreno parou o que estava fazendo.

Outro barulho. Mais próximo.Mais ameaçador.

Ele empalideceu.

— Merda… tem algo aqui.

Ele puxou a arma da cintura e se levantou de sua posição. Meu coração parecia não suportar mais. O suor frio escorria pela minha testa.

Prendi a respiração.

O tempo pareceu parar.

E então —

Um grito.

Alto. Doloroso. Brutal.

BANG!

O disparo ecoou pela floresta.

BANG! BANG!

Mais tiros. Rápidos. Desesperados. Seguidos por um rosnado… bestial. Ecoando entre as árvores.

Outro grito.

O homem gelou.

— Que merda foi essa? — gaguejou.

— Daniel?! — chamou.

Um novo rosnado respondeu.

Ele recuou, tropeçando.

Mais perto agora. Mais aterrorizante.

Ele olhou para mim… depois para Annabell.

Hesitou.

— Dane-se… o chefe pega outra depois. E saiu correndo. Nos deixando ali. Sozinhas. Indefesas. Com aquele som ecoando na escuridão.

Tentei me soltar. Nada.

Olhei para Annabell.

— Acorda… por favor…

Mas ela não se mexeu.

Os gritos ao longe continuavam. O rosnado fazia meu corpo tremer. A dor das amarras queimava meus pulsos.

As lágrimas embaçaram minha visão. Eu não queria morrer. Não assim. Depois de algum tempo de silêncio angustiante.

Ouvi.

Passos.

Pesados. Firmes.

Se aproximando. Meu coração batia tão forte que doía. Prendi a respiração. E então… ele apareceu.

Alto.

Imponente.

Saindo das sombras como se pertencesse àquele lugar.

Por um segundo, achei que fosse a criatura que estava lá fora.

Mas não.

Era um homem.

Um homem que parecia mais perigoso do que qualquer um dos sequestradores.

Vestia apenas uma calça jeans.

Descalço.

O corpo marcado, levemente sujo de terra.

Ele passou por mim.

Como se eu não existisse.

Se aproximou de Annabell.

Observou. Em silêncio. Frio.

— O coração dela está fraco — disse, a voz grave e controlada. — Drogaram demais.

Meu corpo inteiro entrou em alerta.

Como ele sabia disso?

Ele se virou.

A luz da fogueira tocava sua pele bronzeada, destacando cada linha do seu corpo musculoso.

Tentei desviar o olhar.

Mas então…

seus olhos azuis escuros encontraram os meus. E tudo dentro de mim congelou.

Não era apenas o olhar.

Era… a sensação.

Como se algo invisível me atravessasse, me analisasse, me despisse de qualquer defesa.

Profundo. Frio. Perigoso.

Minha respiração falhou.

Por um instante, esqueci da dor, das cordas, do medo.

Só existia… Ele.

Seu olhar desceu lentamente pelo meu rosto, como se estivesse avaliando cada detalhe… cada reação.

Sem pressa.

Sem emoção.

Como um predador.

Meu coração disparou ainda mais.

Mas algo não fazia sentido.

Se ele fosse como os outros… eu já estaria morta ou pior.

— Me ajuda… — tentei dizer, a voz abafada pelo pano.

Ele não respondeu. Nem sequer demonstrou que ouviu. Apenas continuou me observando.

Meu estômago revirou.

— Por favor…

Nada.

O silêncio dele era pior que qualquer ameaça. Então, finalmente, ele se moveu. Um passo. Depois outro. Na minha direção. Meu corpo inteiro ficou rígido.

Instinto puro. Alerta total.

Ele parou à minha frente.

Perto demais.

O calor do corpo dele contrastava com o frio que corria pelas minhas veias.

Se abaixou. Lento. Controlado.

Ficando na minha altura.

Meu coração parecia querer sair pela boca.

Por um segundo, achei que ele faria o mesmo que o outro.

Que me tocaria.

Que —

Mas não.

Ele apenas levou a mão até meu rosto. Congelei.

Seus dedos passaram pelo pano amarrado na minha boca.

Firmes. Precisos.

E então —

Ele puxou.

O tecido se soltou de uma vez. O ar entrou nos meus pulmões com força. Desesperado.

— Por favor… — minha voz saiu trêmula. — Minha amiga…

Ele não olhou para mim.

Já estava de pé novamente.

— Se ela continuar assim, morre — disse, direto.

Sem emoção. Sem suavizar.

Meu coração despencou.

— Então ajude ela! — minha voz saiu mais forte, desesperada. — Por favor!

Silêncio.

Ele virou levemente o rosto, como se estivesse escutando algo além dali.

Algo distante. Algo que eu não podia ouvir.

Então seus olhos voltaram para mim.

E, pela primeira vez… algo diferente passou por eles. Não era gentileza. Mas também não era indiferença. Era… decisão.

— Vocês entraram no meu território.

Minha garganta secou.

— Eu… nós fomos sequestradas… — minha voz falhou. Ele me observou. Sem expressão. Eu desviei o olhar.

Um rosnado baixo que saiu dele fez meu corpo inteiro congelar.

— Olhe para mim quando eu estiver falando — ele comandou.

Obedeci na mesma hora.

— Aqueles homens — ele continuou — não pertenciam a este lugar.

Meu coração apertou.

— Você… viu o que matou eles?

Silêncio. Pesado.

Ele sustentou meu olhar por um segundo.

— Sim…

Meu estômago afundou.

Sem querer entrar em detalhes.

Ele se virou e pegou Annabell, que estava deitada no chão, nos braços com facilidade.

— Sua amiga precisa de ajuda. Deu um passo, mas parou. Olhou para mim novamente.

— E você…

Pausa.

— Ainda não decidi.

O medo voltou com força total.

— Por favor… não me mate… — minha voz saiu quebrada.

Ele me analisou.

Como se estivesse decidindo meu destino. Então se afastou.

— Meu beta virá buscá-la. Meu coração disparou.

— Não tente fugir. Assenti rapidamente. Não tinha escolha. Ele começou a se afastar.

— Espera! — chamei, desesperada. — Não me deixe sozinha… tem uma fera aqui… Ele parou. Sem se virar completamente.

Um leve sorriso surgiu em seu rosto.

Sombrio. Perigoso.

— Tem mesmo.

Meu corpo gelou.

Ele virou o rosto de perfil.

— Mas nenhuma delas vai tocar em você.

Eu congelei. Ele falou no plural? Tem mais de uma fera nesse lugar?!

Pausa.

— Elas sabem quem eu sou. Não tocarão em você.

E então ele desapareceu na escuridão, levando Annabell nos braços.

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