CAPÍTULO 2

Fiquei sentada mais tempo do que deveria.

A música vibrava pelo chão, atravessando meu corpo, enquanto eu observava Annabell na pista — completamente entregue, como se o mundo lá fora não existisse. Seus cabelos loiros balançavam suavemente a cada movimento, e os olhos castanhos brilhavam sob as luzes da boate. O vestido vermelho fluía levemente, acompanhando cada giro, sem esforço algum, chamando atenção de todos ao redor.

Ela ria. Girava. Parecia completamente à vontade.

E então, um homem moreno apareceu.

Ele ofereceu um copo de bebida para ela, e, para meu choque, Annabell aceitou sem hesitar. Como podia confiar assim em um completo estranho?

— Annabell! Chamei ela do outro lado da pista, mas a música alta abafou minha voz.

Então, para minha surpresa, outro homem surgiu logo atrás, colando-se às costas de Annabell, encaixando o corpo contra o dela, as mãos subindo por seu quadril sem qualquer hesitação.

Meu estômago revirou.

Annabell riu.

Riu como se fosse normal.

Como se aquilo não fosse… errado.

Talvez eu fosse antiquada demais para entender como as relações funcionavam hoje em dia.

Passei a mão na nuca, desconfortável com a naturalidade da minha amiga.

Diferente de mim — que mais parecia uma eremita —, Annabell colecionava namorados e ficantes desde o ensino fundamental.

Fiquei boquiaberta com o que vi, logo em seguida.

Ela passou os braços ao redor do pescoço do loiro e o beijou.

Sem pensar. Sem hesitar.

Meu peito apertou. Algo estava errado.

O outro homem deslizou o rosto pelo pescoço dela, lento demais… íntimo demais.

Predatório.

Senti um arrepio gelado subir pela minha coluna.

A minha respiração ficou curta, irregular.

O coração disparou, batendo tão forte que parecia que todos ao redor poderiam ouvi-lo.

— Não deveria encarar tanto…

A voz ao meu lado me fez gelar.

Virei o rosto devagar.

Um homem loiro estava sentado ao meu lado, próximo demais. Não vi quando ele se aproximou. Não ouvi passos.

A iluminação da casa noturna não ajudava. As luzes pulsavam, concentradas na pista de dança, deixando as mesas mergulhadas em sombras irregulares.

Eu não conseguia vê-lo com clareza.

Apenas fragmentos.

Os óculos escuros escondendo completamente seus olhos.

A barba por fazer suavizando o contorno firme do maxilar.

O corpo atlético sob roupas escuras, discretas demais para alguém que queria ser notado.

Nada nele era exagerado.

Ainda assim… algo estava profundamente errado.

— A menos que queira participar — completou, baixo.

Meu corpo ficou rígido.

Uma onda de alerta percorreu cada fibra do meu corpo.

O instinto gritava que aquilo não era apenas flerte…

— Não estou interessada. — Minha voz saiu firme… mais do que eu me sentia.

Ele inclinou levemente a cabeça, como se me estudasse.

— Tem certeza?

— Tenho.

Desviei o olhar, tentando ignorá-lo — mas foi quando percebi.

Annabell.

Ela não estava mais ali.

Meu coração disparou.

Levantei abruptamente, os olhos varrendo a pista.

Nada.

Só luzes. Corpos. Movimento.

Então vi.

Os dois homens a conduziram em direção à saída dos fundos.

Ela ria.

Mas havia algo… estranho naquele riso.

Vazio. Forçado.

— Droga… — sussurrei, sentindo o desespero tomar conta.

Saí quase correndo.

Empurrei pessoas, ignorei olhares irritados, tudo ao redor virou ruído.

Só conseguia enxergar a porta.

Meus passos ecoavam contra o chão de madeira, acelerando com cada segundo que passava.

Quando a atravessei, o ar frio da noite me atingiu com força.

O cheiro de fumaça, óleo de carro e grama molhada me fez engolir em seco.

E a cena que vi me fez parar por um segundo.

Annabell foi empurrada contra o banco de trás de um carro.

O vestido desalinhado.

O corpo mole demais.

O cabelo caindo desordenado pelo rosto.

Um dos homens entrou logo atrás dela.

O outro fechou a porta com força, o som ecoando pelo estacionamento vazio.

Meu coração martelava no peito.

A adrenalina corria pelas veias.

Minhas mãos tremiam, mas meus pés continuavam se movendo, quase sozinhos.

— Ei! — gritei, dando um passo à frente.

Tarde demais.

Algo se moveu atrás de mim, rápido demais para que eu pudesse reagir.

Fui agarrada.

Quando tentei gritar, um pano foi pressionado contra meu nariz e minha boca.

Me debati imediatamente, tentando me soltar, mas o corpo que me segurava era firme — sólido como uma rocha.

Inspirei por reflexo… e foi meu erro.

Um cheiro forte invadiu meus sentidos, queimando minha garganta.

Minha visão vacilou.

Pontos escuros começaram a dançar diante dos meus olhos.

Continuei lutando, me contorcendo, tentando gritar mesmo com o pano abafando qualquer som…

Mas meus movimentos foram ficando mais lentos. Mais fracos.

Meus braços não respondiam como antes. Minhas pernas pareciam distantes. O mundo girou. Minhas pálpebras ficaram pesadas demais para sustentar abertas.

E, pouco antes de tudo desaparecer…

a única coisa que restou foi a escuridão…

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