Capítulo 5

Lyra tentou acalmar a respiração que saía irregular, rápida demais, ameaçando se transformar em hiperventilação. Forçou o ar a entrar e sair de forma controlada, contando mentalmente. Precisava pensar. Precisava entender.

E então outra memória chegou, mais suave desta vez, menos traumática mas carregada de significados diferentes.

Depois do fogo.

O Alfa Theron, pai de Kael e Azerik, líder inquestionável da alcateia a levou para sua própria casa sem perguntar, sem dar opções. E não era crueldade. Era tradição, inquebrantável.

Ela era órfã agora. Sem parentes próximos que pudessem reivindicá-la. O beta estava morto, e sua filha ficaria sob proteção direta do alfa até atingir a maioridade. Era honra. Era dever.

Era também sufocante de forma que ninguém admitia.

Kael tinha dezenove anos naquela época. Quatro anos mais velho, mas pareciam décadas na forma como carregava responsabilidade. Já sendo preparado para eventualmente assumir a liderança, já sério demais para a idade, já com aquele peso invisível curvando ligeiramente os ombros largos.

Ele aceitou sua presença da mesma forma que aceitava tudo, como dever, como mais uma responsabilidade em uma lista interminável.

Nos primeiros meses, ela mal existia para ele de forma real. Era a garota traumatizada ocupando o quarto de hóspedes. A que comia em silêncio nas refeições. A que evitava olhares diretos e respondia em monossílabos quando perguntada. Eles já se conheciam. O pai dela era o beta, era impossível que não se cruzassem em jantares, treinamentos ou cerimônias. Ainda assim, nunca haviam passado de duas ou três palavras superficiais. Kael sempre se manteve distante de “garotinhas”.

Então algo mudou.

Devagar. Quase imperceptível no começo.

Kael começou a verificar se ela havia comido durante o dia, a perguntar sobre seu treinamento com genuíno interesse e a corrigi-la, nunca com crueldade, mas com atenção precisa, quando errava posturas durante os combates práticos.

— Mais baixo — ele dizia, e a mão grande e calejada empurrava seu ombro para baixo, ajustando a posição com toque firme mas não brusco. — Se ficar alta assim, qualquer lobo adulto te derruba em dois segundos.

— Talvez eu não queira lutar — ela retrucava por puro reflexo teimoso.

— Talvez eu não queira lutar — ela retrucava por puro reflexo teimoso, embora o fogo de querer ser a melhor tivesse se apagado quando os pais se foram, e Kael fizesse questão de mantê-lo aceso nela.

Mas algo nos olhos suavizava quando dizia essas coisas. Como se visse além das palavras duras, além da teimosia reflexiva. Como se entendesse que ela lutava contra inimigos muito piores que oponentes físicos, contra memórias, contra pesadelos, contra o buraco negro que a perda havia aberto no peito.

Com o passar dos meses, Kael se tornou protetor, às vezes de forma excessiva. Quando outros lobos, especialmente os mais jovens e cruéis em sua fase rebelde, a provocavam por ser órfã ou por ser o "projeto de caridade do futuro alfa", Kael aparecia. Não precisava dizer nada, apenas surgia e o silêncio caía pesado e absoluto.

Ninguém mexia com a garota que o herdeiro do alfa protegia tão abertamente.

Ela deveria tê-lo visto apenas como protetor, como alguém próximo do papel de irmão mais velho, uma figura paterna jovem demais para a função, mas que se esforçava para cumpri-la mesmo assim.

Durante o dia, conseguia.

Mas à noite...

Sozinha no quarto escuro, ouvindo o farfalhar das folhas da árvore próxima, sua mente traía todas as tentativas de manter pensamentos apropriados.

Pensava na forma como ele se movia, aquela graça letal que lobos poderosos desenvolvem, músculos definidos deslizando sob a pele bronzeada quando treinava sem camisa no calor do verão. Na voz grave que apertava algo no estômago dela de um jeito que não conseguia nomear, mas que sabia ser errado. Nos raros momentos em que ele sorria de verdade, pequenos sorrisos contidos que, ainda assim, transformavam a forma como aqueles olhos dourados, sempre sérios demais, brilhavam por um instante.

Irmãos não pensam assim sobre irmãos.

Você não deveria pensar assim.

É errado. É impróprio. É tentador demais.

Mas pensava. Constantemente. Vergonhosamente. Os pensamentos chegavam sem convite e se recusavam a partir, crescendo mais intensos à medida que ela própria crescia, que o corpo mudava, que impulsos novos e confusos se manifestavam.

Enterrava esses pensamentos no fundo da consciência, onde outras coisas proibidas moravam. Fingia que não existiam durante o dia. Negava com veemência se alguém insinuasse qualquer coisa.

Mas à noite, na privacidade do quarto escuro...

À noite, eram só ela e a verdade inconveniente.

E então havia Azerik.

A lembrança dele trouxe algo completamente inesperado, não a dor lancinante que deveria vir ao pensar no morto, mas calor, quase afeto involuntário que a pegou desprevenida.

Azerik tinha dezesseis anos quando ela chegou, apenas um ano mais velho que Lyra, mas parecia muito mais jovem na forma como se relacionava com o mundo. Onde Kael era toda seriedade e controle, Azerik era caos e energia vibrante. Seus cabelos, castanho dourado, eram mais claros que os do irmão, quase negros, e seu sorriso era fácil, frequente, genuíno. Os olhos, sempre brilhando com uma travessura constante, pareciam ver o mundo de outra maneira.

Ele a provocava constantemente, como se fosse missão pessoal.

— Ainda não consegue me acompanhar? — gritava enquanto corria pela floresta, já metros à frente, virando de costas só para provocá-la, rindo alto quando ela tropeçava tentando alcançá-lo.

— Cala a boca, Azerik!

— Me alcança primeiro, baixinha!

Escondia suas botas antes de treinamentos importantes, fazendo-a chegar atrasada e levar bronca. Colocava insetos, nunca nada perigoso, mas sempre nojentos, em suas roupas limpas. Imitava sua voz quando ela tentava dar ordens durante exercícios em grupo, fazendo sua entonação séria soar ridícula e arrancando risadas de todos.

Era profundamente irritante.

Mas ela não conseguia odiá-lo.

Tentava. Frequentemente. Mas não conseguia.

Porque por baixo de todas as provocações irritantes, Azerik estava sempre ali quando importava. Quando ela teve pesadelos sobre o fogo, e teve muitos nos primeiros anos, noites em que acordava gritando, suando, sentindo o cheiro de fumaça que não estava lá, ele sempre aparecia, quieto, como se importasse mais do que queria admitir.

Batia na porta levemente. Entrava sem esperar resposta.

— Acordei pra beber água — mentia descaradamente. — Você tá bem?

— Estou — ela mentia de volta.

— Tá mentindo.

— E você é irritante.

— Verdade — ele sorria, sem ofensa alguma. — Mas pelo menos não te deixo sozinha.

E ficava ali, sentado no chão ao lado da cama, costas contra a parede, conversando sobre absolutamente nada importante até ela relaxar o suficiente para dormir de novo. Sobre caçadas engraçadas. Sobre o lobo velho que insistia em treinar pelado. Sobre planos ridículos de pregar peças em Kael que nunca funcionavam.

Bobagens. Completas bobagens.

Mas pequenas bobagens que a faziam sorrir, esquecer os pesadelos e dormir tranquila.

Os anos passaram, Azerik cresceu, ficou forte como o irmão, com ombros se alargando, músculos se definindo e voz aprofundando, a promessa clara de se tornar um guerreiro formidável. Mas ele manteve aquela essência irreverente, aquele brilho nos olhos que desafiava a seriedade sufocante da hierarquia da alcateia, e cada vez mais parecia que esse brilho se acendia por ela.

A última memória clara que ela tinha dele parecia recente.

Ele estava rindo de algo que outro lobo havia dito, a cabeça jogada para trás, o som rico e genuíno ecoando pela clareira. Quando percebeu Lyra olhando de longe, piscou exageradamente, fazendo aquela cara ridícula que sempre fazia.

— O que foi, baixinha? Finalmente admitindo que sou irresistível? — ele disse, piscando para ela com um sorriso encantador.

— Impressionada que você ainda não me enlouqueceu de vez — ela retrucou no mesmo tom.

— Ah, ela me ama! — ele anunciou para toda a clareira, abrindo os braços dramaticamente. — Podem testemunhar! Admita logo, Lyra!

Ela pegou uma pedrinha do chão e a lançou nele. Errou por quilômetros. Ele riu ainda mais alto, o som contagiante fazendo outros rirem também.

Mas a lembrança disso logo se desfez, substituída pelo silêncio e pelo frio que a esperavam.

De volta à cela fria e úmida.

Lyra sentiu que aquela foi a última conversa.

E agora ele está morto.

Dilacerado.

Por suas mãos.

Ela sentiu as lágrimas escorrerem livres, quentes contra a pele gelada, silenciosas, mas impossíveis de conter.

— Eu não o matei — sussurrou para a escuridão indiferente, a voz saindo quebrada, estilhaçada. — Eu não fiz aquilo com ele.

Seu corpo rejeitava a ideia com uma força visceral que transcendia a lógica. Ele era irritante, mas sempre presente. Provocador, mas protetor à sua maneira torta. Doía saber que Azerik, que ficava acordado a noite inteira quando ela tinha pesadelos, que a fazia rir mesmo quando rir parecia impossível, como se seu sorriso fosse a própria alegria dele, nunca mais faria nada disso por ela. Ele tinha partido, e ela o havia tirado deste mundo.

Eu não faria isso com ele.

Não faria.

Não importa o quê.

Mas o corpo havia estado ali. Na cela. Real. Frio. Dilacerado de forma brutal.

E todos diziam, Kael, os outros lobos, as evidências físicas, que ela havia feito.

A dúvida começava a se infiltrar, pequena mas persistente, como água através de rachadura fina.

E se você fez?

E se algo em você...

Não.

NÃO

Ela soluçou, o peito apertado, a respiração entrecortada, cada lágrima queimando como se carregasse culpa líquida. Chorou alto, um som cru que parecia rasgar a própria escuridão ao redor.

— EU NÃO FIZ ISSO! — agora gritava, a voz quebrada pelo desespero.

— AZERIK — a dor a atingindo com força, como se algo a expulsasse de seu próprio corpo.

Ela se encolheu no chão frio da cela, o peito comprimido, as lágrimas escorrendo, tentando desesperadamente agarrar as lembranças que fugiam.

— Não, não, não... eu preciso lembrar.

Lyra respirou fundo, tremendo violentamente, e tomou uma decisão.

Precisava saber. Precisava lembrar. Não importava o custo.

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