Mundo ficciónIniciar sesiónMelinda
O restaurante está lotado, com barulho de pratos, vozes misturadas e aquele cheiro forte de fritura que gruda na pele. Seguro a bandeja com firmeza, forçando o sorriso mecânico que já virou parte de mim. O relógio na parede me lembra que não vou conseguir ver meu avô hoje, e isso aperta meu peito. Ele deve estar sozinho, me esperando. Tento afastar o pensamento, mas ele insiste em me perseguir. Estou servindo uma mesa quando ouço meu nome ser chamado alto e claro, impossível fingir que não é comigo. Paro por um segundo, com meu corpo inteiro se arrepiando antes de me virar. É Natalie . Natalie da faculdade. Natalie sempre animada, sempre leve, sempre sorridente. Nunca imaginei que fosse encontrá-la aqui. — Melinda? — Ela arregala os olhos, surpresa e feliz. — Não acredito! Engulo em seco e forço um sorriso, segurando a bandeja como se fosse um escudo. — Oi, Natalie ... que surpresa boa. Ela se levanta, ainda com aquele mesmo jeito expansivo de antes. — Meu Deus, quanto tempo! O que você está fazendo aqui? — Ela olha em volta, confusa, como se não conseguisse juntar as peças da cena de me ver em um uniforme de garçonete em um restaurante chinês barato. Meu rosto esquenta de imediato, e eu gostaria de desaparecer. — Trabalho aqui — murmuro, baixo demais, mas ela escuta. — Nossa... você? — Ela franze a testa, mas logo abre um sorriso, tentando suavizar. — Você era uma das melhores da turma, lembro perfeitamente. Sempre dedicada, inteligente... Sinto o sangue subir para o rosto, cada palavra dela um peso a mais me esmagando. Seguro a bandeja com força, os dedos quase cravando na madeira. — Tive alguns problemas — digo rápido, cortando a linha de pensamentos que ela pode seguir. — Ah, eu entendo — ela responde, mas não parece realmente entender. — E você? O que faz aqui em Vegas? — pergunto, tentando não focar em mim, no meu fracasso. — Eu me mudei pra Las Vegas recentemente. Faço parte da equipe de um lutador de UFC famoso, acredita? Nunca pensei que ia cair nesse mundo, mas estou adorando! A comparação me destrói por dentro. Ela está crescendo, vivendo algo novo e empolgante, enquanto eu... afundada nesse atoleiro. Tento sorrir, mas sei que o sorriso morre nos meus lábios. O celular dela vibra, então ela olha a tela e solta um “droga” quase rindo. — Estou atrasadíssima. — Ela pega a bolsa. — Mas foi tão bom te ver! A gente precisa marcar alguma coisa. Me dá seu número. Por um segundo, penso em recusar, inventar qualquer desculpa, mas a mão dela já está estendida com o celular aberto na tela de contatos. Suspiro, pego o aparelho e digito meu número, imaginando que ela só está sendo educada, que nunca vai ligar. — Pronto. — Devolvo o celular rápido. — Ótimo! — Ela dá um sorriso largo. — Fico feliz de te encontrar aqui. Te ligo para tomarmos um café. Ela deixa uma gorjeta na mesa antes de ir. O dinheiro pisca diante dos meus olhos como uma marca de derrota. A vergonha me corrói, mas respiro fundo e empurro o orgulho para o fundo da garganta. Dinheiro é dinheiro, e eu preciso dele. É nisso que tenho que me agarrar. Seguro a bandeja contra o peito e sigo para a cozinha, engolindo o nó na garganta antes que alguém perceba. ** O turno finalmente termina e eu sinto cada músculo do meu corpo implorar por descanso. Minhas mãos estão doloridas de tanto equilibrar bandejas, meu sorriso já não existe mais, só aquele vazio automático que entrego aos clientes porque não há outra escolha. O dinheiro da noite pesa no bolso do avental, as gorjetas foram melhores do que eu esperava, suficientes para garantir pelo menos um mês de aluguel. Um mês a mais de teto. Um mês a mais de silêncio fingido dentro de quatro paredes que não são seguras. Mas a vitória é amarga, porque junto com ela vem o medo. O medo de voltar e encontrar Tom, o medo de ouvir de novo aquelas palavras cuspidas com frieza, que se repetem na minha mente como um eco que não consigo calar. Nunca me senti segura, nem dentro de casa, nem fora dela. E essa noite não é diferente. O ar está anormalmente frio para essa época do ano, e a brisa corta minha pele como se quisesse arrancar de mim o pouco calor que restou. Ergo a gola do casaco, tentando me esconder, me recolher dentro de mim mesma. Minhas botas batem contra o asfalto molhado, e cada passo parece pesado demais. Enquanto penso no hospital, sei que amanhã de manhã vou conseguir ver meu avô. Só isso já me faz seguir em frente, ainda que a esperança venha misturada com a angústia de ter que negociar dívidas, implorar por mais tempo, convencer médicos e administrativos de que ele não pode parar o tratamento. Ele não tem ninguém além de mim e eu não posso falhar. Talvez eu precise arrumar outro trabalho, algum bico nas folgas, qualquer coisa que me dê mais dinheiro rápido. Não é sobre mim, nunca foi, é sobre ele. Sobre mantê-lo vivo. Me pergunto quando foi a última vez que pensei em mim de verdade. Eu só queria um único dia sem carregar o peso de tudo. Um dia me deitar em uma cama macia, sentir o corpo afundar em travesseiros limpos e dormir sem medo. Quero atuar de verdade, como planejei um dia, reabilitar pessoas, ajudar a reconstruir vidas. Mudar algo no mundo. Quero sair de um turno pesado e ter o direito de um banho quente, deixar a água correr pelos ombros até a exaustão se dissolver pelo ralo. Mas querer demais é perigoso. Sonhar demais machuca. E eu aprendi que quanto mais você deseja, mais dói acordar. Então sigo andando, apertando os braços contra o corpo, repetindo para mim mesma que tenho um mês de aluguel pago. Um dia a mais de tratamento para ele, e isso precisa bastar, porque é tudo o que tenho. **






