Capítulo 3

Melinda

O sonho me arrasta como uma corrente pesada, e quando me vejo, não estou mais no meu cubículo sujo, mas num quarto infantil, iluminado por uma luz fraca, com cortina com estampas alegres de flores. Sinto a pele úmida, o choro cortando minha garganta pequena.

Olho para baixo e vejo o sangue escorrendo pelas minhas pernas finas, quente e viscoso, manchando minha camisola de sapinhos fofos. Os bichinhos sorridentes agora estão manchados de vermelho. Minha respiração é um soluço atrás do outro, e o gosto de ferro parece estar dentro da minha boca.

— Shhh, meu amor... — A voz da minha mãe me envolve, os braços dela ao redor do meu corpo miúdo. O calor dela é o único abrigo enquanto ela repete como um mantra: — Ele nunca mais vai te tocar. Nunca mais vai te machucar, eu prometo.

Mas mesmo me apertando contra o peito, sinto o cheiro do medo dela.

A sombra está no canto do quarto, um vulto sem rosto, sem contorno definido, mas eu sei quem é. O terror que carrego até hoje tem aquele formato escuro, humano e monstruoso ao mesmo tempo.

Minha mãe me afasta de repente, com os olhos cheios de ódio.

— Você é um doente! — grita. — Um monstro! Ela é só uma criança de onze anos! Que tipo de lixo... que tipo de lixo deseja uma criança?!

A voz dela explode pelo quarto, carregada de fúria e desespero. Eu a vejo puxar da gaveta da cômoda uma arma, pesada e metálica, brilhando sob a luz fraca. Suas mãos tremem, mas não os olhos.

— Fica longe dela! — ela berra, apontando a arma para a sombra.

O vulto se move lentamente, parecendo querer convencê-la.

— Se acalma... não precisa disso... — a voz sem rosto murmura.

— Não chegue perto de mim! — minha mãe grita, as mãos firmes. — Eu juro que eu atiro!

Meu coração b**e tão forte que estou com medo de que estoure o meu peito.

Ela aperta o gatilho e o estampido sacode o ar, o cheiro de pólvora invadindo o quarto. Quando a bala acerta a porta, lascas de madeira voam e a sombra avança em um salto, não dando tempo para a minha mãe reagir. O barulho seco de um tiro ecoa novamente, mas não sei de onde.

Então eu a vejo cair, seu corpo se dobrando como um boneco, com uma mancha escura na camisola se espalhando rapidamente. Os olhos ainda tentam me procurar, ainda querem me proteger, mas não há força.

O vulto corre e desaparece pela porta, deixando para trás o silêncio e o cheiro de sangue.

— Mamãe! — minha voz aguda e quebrada grita no sonho, o som sufocado pela garganta.

Em um sobressalto, eu acordo, puxando o ar como se estivesse me afogando. O suor encharca minha pele, fazendo o tecido da camiseta grudar. Meu coração martela e os soluços escapam. Estou deitada no colchão fino, mas ainda sinto a presença daquela sombra no canto do quarto. Ainda sinto o sangue quente nas minhas pernas de criança.

Respiro fundo, tentando arrancar o ar do mundo ao meu redor, mas não consigo. A lembrança me agarra, tão real quanto anos atrás. Não foi somente um pesadelo, é uma lembrança, uma memória, uma cicatriz que nunca vai me deixar em paz. Meu peito ainda sobe e desce em soluços curtos quando me viro de lado no colchão fino. Os fios do meu cabelo estão colados na minha testa com suor frio escorrendo pelas têmporas. Tento fechar os olhos, mas a lembrança é mais cruel que qualquer sonho.

E se tudo tivesse sido diferente? Se meu pai não tivesse morrido naquela maldita missão de pacificação? Talvez minha mãe não tivesse se afogado em garrafas baratas para enterrar o vazio. Talvez ela nunca tivesse deixado aquele homem escorregar para dentro da nossa casa, da nossa vida.

Eu me lembro o que perdi, e a dor é um corte aberto. Eu tinha uma família feliz, um pai que ria facilmente, com suas mãos grandes folheando livros enquanto lia para mim, uma mãe que assava biscoitos que perfumavam a casa inteira usando um avental. Lembro-me da mesa simples, da sensação de segurança, da inocência que se quebrou de uma vez só.

Aquele homem não só arrancou a minha infância, ele arrancou minha mãe de mim, e só restou meu avô Nicholas, meu único pedaço de raiz, que segurou minha mão em cada queda. Mesmo quando a vida o esmagava, ele fez de tudo para que eu não fosse só um escombro. Ainda vejo o sorriso dele, cansado, mas cheio de amor.

Eu tinha dezesseis quando tudo piorou. O carro, o atropelamento, a cadeira de rodas. Eu achei que aquilo fosse quebrá-lo, mas não, ele ainda tentava me arrancar um sorriso, me contar histórias, me convencer que havia futuro. Ele foi minha força, mesmo sem ter mais forças no corpo.

Foi por ele que eu decidi ser fisioterapeuta. Eu queria ajudá-lo, queria reerguê-lo, mesmo que ele se recusasse às sessões. Foi na faculdade que me encontrei na fisioterapia esportiva, que descobri paixão pelo corpo humano em movimento, pela força, pela recuperação. Eu acreditava que seria alguém.

Mas aquele desgraçado fez questão de esmagar meus sonhos. Meu chefe. O homem que me assediou e me puniu por não ceder. Um “não” custou minha carreira antes mesmo que ela tivesse começado.

Olho para o celular na mesinha, com a tela brilhando no quarto escuro. Quase hora de me levantar, de ir direto para o primeiro turno depois de uma noite sem descanso, de um pesadelo que ainda aperta meu peito como uma mão invisível. Estou exausta, mas dinheiro é dinheiro e eu não posso recusar, não posso nunca.

Me levanto devagar, cada músculo pesado como chumbo, e visto a calça preta gasta, a camiseta que já perdeu a cor, e amarro o cabelo num coque frouxo. Me olho no espelho rachado do banheiro e quase não reconheço o rosto abatido, os olhos azuis cercados de olheiras fundas.

Pego a bolsa de cima do sofá e caminho até a porta, giro a maçaneta devagar, com o coração acelerado temendo encontrar Tom à espreita no corredor. Prendo a respiração e dou uma olhada no corredor, respirando aliviada ao não ver ninguém. Fecho a porta atrás de mim e apresso o passo, como se fugisse da vida que me prende.

**

Estou a poucos metros da saída, já sinto o ar frio da rua me chamar, quando a voz áspera dele corta o corredor como uma lâmina enferrujada.

— Ô, vadia.

Congelo. Meu corpo inteiro fica arrepiado e um calafrio rasteja pela minha espinha. Tom surge das sombras do corredor, com passos lentos e pesados, cada movimento denunciando o peso da barriga saliente. O suor escorre pela testa larga, refletindo a luz fraca da lâmpada. A careca lustrosa dele brilha como óleo, e o olhar, meu Deus... aquele olhar sobe e desce pelo meu corpo como se me despisse ali mesmo.

— Vai sair de novo sem falar nada, hein? — ele rosna, a boca torcida de raiva. — Dois meses de aluguel atrasado e ainda tem coragem de andar por aí de cabeça erguida, sua vadia?

Meu coração dispara e eu engulo em seco, sentindo um amargor na boca.

— Eu... eu vou pagar, Tom. Juro. Essa semana. Estou fazendo turnos extras.

— Turnos extras? — Ele cospe no chão, agora mais perto. — Acha que nasci ontem? Está me enrolando. Se não pagar logo, vou jogar as suas tralhas na rua.

Com minhas mãos suando, sinto quando a bolsa escorrega pelo ombro, então dou um passo à frente.

— Por favor, não faça isso. Eu vou arrumar o dinheiro. Juro. — Minha voz falha, suplicante.

Ele solta um riso grave, debochado, que reverbera pelo corredor mofado.

— Sei que você está atolada até o pescoço com agiotas, Melinda.

— Como você sabe disso? — Meu sangue gela e meu coração quase para.

— Eu tenho meus contatos. — Dá de ombros, se sentindo o dono do mundo.

O silêncio entre nós pesa. O olhar dele me percorre devagar, de cima a baixo, seus olhos pequenos brilhando com malícia.

— Tem um jeito fácil de resolver seu problema. — A voz dele fica baixa, arrastada. — Você é uma vadia gostosa. Mesmo magrela desse jeito, dá para tirar uma boa grana.

Meu estômago se contorce e a bile sobe até a garganta. Ele dá um passo mais perto, me fazendo sentir o cheiro rançoso de cigarro e suor velho.

— Se quiser, paga os dois meses com a tua boceta.

Sentindo os olhos queimando e um nó se formando no peito, seguro as lágrimas como quem segura a própria dignidade. Minha garganta trava e não consigo responder, não consigo respirar. De repente, a voz da zeladora ecoa pelo corredor.

— Tom! Estou precisando de você aqui!

Ele vira o rosto devagar, indicando que está sendo importunado, e cospe no chão.

— A gente continua essa conversa depois. — Ele se afasta, com os passos pesados se arrastando pelo corredor.

Eu disparo para fora do prédio, com o coração ainda em chamas e a respiração descompassada. Sentindo o gosto da bile na boca, luto para não vomitar e não chorar no meio da rua a cada passo que dou. A impotência me sufoca e lateja dentro do peito. A insegurança gruda na minha pele como uma segunda roupa, sentindo que a cidade me devora enquanto sigo meu caminho.

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