Mundo de ficçãoIniciar sessãoMelinda Dorie
O saco de lixo arranha minha mão enquanto o arrasto até o contêiner atrás do restaurante. O cheiro de óleo velho, molhos azedos e fritura encharcada gruda no ar quente da madrugada. Empurro a tampa pesada, jogo tudo lá dentro e ouço o thump abafado do peso caindo sobre o resto. Fico parada, respirando pelo nariz, tentando ignorar o enjoo. Me recosto contra a parede fria de tijolos e fecho os olhos, soltando um suspiro longo, tão pesado quanto meu corpo. A dor nas costas lateja como uma faca mal enfiada entre os ossos. Eu não devia ter aceitado o turno extra. A cada movimento sinto meu corpo implorar por descanso, mas descanso não paga aluguel. Descanso não mantém meu avô respirando em um quarto de hospital que fede a remédio e abandono. Abro os olhos e olho para o céu. As luzes de Las Vegas sangram sobre mim, fortes e coloridas, pulsando como um coração de neon, ofuscando tudo. Nenhuma estrela brilha sobre mim, só esse falso brilho que nunca dorme, que engole a escuridão e me lembra que essa cidade não tem piedade de quem não tem dinheiro. — Melinda? — A voz de Tina quebra o silêncio. Viro o rosto e a vejo perto da porta de trás, segurando o batente com a mesma calma que sempre carrega, como se não estivesse no mesmo inferno que eu. Seu rosto jovem parece cansado, mas não duro. Nunca ouvi um xingamento sair da boca dela, não como dos outros. — Tudo bem com você? — Estou indo. — Forço um sorriso que não alcança meus olhos. Quando entro na cozinha, o chão já está lavado, brilhando molhado sob as lâmpadas fluorescentes. O silêncio é estranho depois do barulho constante de panelas, fritadeiras, gritos em chinês e pratos se chocando. Eu sou uma das últimas a sair, sempre. — Vai direto pra casa? — Tina pergunta, com um cuidado sincero em sua voz. — Vou sim. — A mentira sai fácil. A verdade é que não sei se consigo chegar inteira à minha casa. — Amanhã — ela hesita, coça o braço e continua —, será que você consegue vir cedo? Pela manhã? — Amanhã? — Minha respiração prende no peito. — Uma das meninas está resfriada e a outra teve uma reação alérgica. Ninguém cobre. Eu sei que é muito, mas... são três turnos. Meu corpo inteiro protesta. Três turnos. Já passa da meia-noite, e até chegar à minha casa será quase três da madrugada. O sono já pesa nos meus ossos, e meu estômago vazio ronca alto como se também quisesse dizer não. Por um instante, eu penso em recusar, mas a imagem do hospital, da conta pendurada como uma sentença, dos dois alugueis atrasados e do rosto do meu avô com tubos enfiados pelo nariz me esmagam. Eu não tenho escolha. — Eu venho. — As palavras saem baixas, mas firmes. — Obrigada. Você está salvando a gente. — Os olhos dela se suavizam com gratidão. Dou um pequeno sorriso, cansada demais para acreditar que salvo alguém além de mim mesma. — Coma alguma coisa antes de ir. — Ela aponta para o balcão com o queixo. — Você não comeu nada hoje, né? Está cada vez mais magra. Meu estômago ronca alto, traindo meu segredo. Percebo que só tenho café amargo no corpo desde cedo, não tive tempo, nunca tenho. Pego um rolinho esquecido no balcão e mordo, o gosto gorduroso gruda na boca, mas é suficiente para enganar a fome por alguns minutos. Vou até o armário, pego minha bolsa puída e jogo no ombro. Não penso nas horas de sono, que talvez consiga cochilar no trem, que vou acordar com a nuca doendo e os olhos queimando. Também não penso no vovô e nos três dias sem visitá-lo, três dias que parecem um pecado que não posso evitar. Se eu não trabalhar, ele não tem tratamento. Se eu não trabalhar, eu perco o teto sobre minha cabeça. Saio do restaurante com a boca amarga de óleo frio e a mente fervendo com contas e dívidas. Por fim, a frase que repito em silêncio há meses surge em minha mente novamente: “Minha vida é uma merda”. *** A chave range quando empurro a porta do meu “lar”. Um cubículo mofado, com paredes descascadas e cheiro de umidade impregnado. Chamar isso de casa é um insulto à palavra. Mas é o que eu consigo pagar, ou deveria estar pagando, se não fossem os dois meses de aluguel atrasados. Jogo a bolsa no que um dia já foi um sofá − hoje é só um esqueleto de molas estouradas coberto por um tecido encardido que arranha a pele −, fazendo o som do impacto ecoar no espaço pequeno e vazio. Respiro aliviada por não ter visto o rosto do meu senhorio, se Tom estivesse por perto, estaria cuspindo cobranças e ameaças, lembrando que ele não liga para avôs doentes nem para lágrimas. Tentando afastar esse peso da mente, vou direto para o banheiro, cada passo ecoando na madeira podre do chão. Um banho é tudo o que eu quero. Um banho, mesmo gelado, para soltar um pouco da dor das minhas costas e lavar o suor do restaurante. Só isso. Tiro a roupa devagar, cada peça colando na pele cansada, e abro o registro do chuveiro esperançosa. Nada, nem uma gotinha. O silêncio seco me rasga, mais uma vez, a água foi cortada. — Droga... filha da puta... — murmuro, a voz falhando entre a raiva e a exaustão. Fecho o registro com força e saio, sentindo mais sujeira grudada na pele do que antes. Pego uma camiseta velha, visto a calcinha e me arrasto até o canto do quarto onde um colchão fino e deformado me espera no chão. Assim que meu corpo toca o tecido áspero, tudo desmorona. As lágrimas vêm antes mesmo que eu consiga contê-las, escorrendo quentes pelas têmporas e molhando o travesseiro murcho. Eu choro por estar cansada demais, por sentir que cada esforço é inútil, por carregar o peso de fracassar sempre. Choro pela saudade da minha mãe, pelo medo absurdo de não conseguir cuidar do meu avô, pelo pavor dos agiotas que me cercam como hienas desde que aceitei aquele dinheiro maldito para pagar o tratamento dele. Eu não devia ter trazido meu avô para essa cidade. Vegas engole os fracos, e eu o arrastei comigo. Meu peito dói. Me sinto tão perdida, tão sufocada, que falta ar. Passo as mãos pelo rosto, tentando secar, mas só espalho as lágrimas. Quando fecho os olhos, a pergunta me atravessa como faca: e se eu tivesse escolhido diferente? E se eu tivesse calado? Se eu tivesse engolido a sujeira daquele homem e não o denunciado? Se eu tivesse aceitado ser usada, meu diploma talvez não tivesse virado pó. Eu não estaria aqui, nesse buraco. Não estaria com medo de dormir e ser acordada por batidas na porta. Meu estômago embrulha só de pensar. Eu disse “não” e paguei com meus sonhos. Anos de faculdade, noites estudando até sangrar os olhos, tudo jogado fora porque eu não quis me deitar com meu chefe. As lágrimas voltam, pesadas e incessantes. Sentindo meu corpo estremecer com soluços, eu as deixo vir, sem resistência. Choro até minha garganta arranhar, até meu peito doer mais que as costas, até o sono me arrastar como um anestésico cruel. Adormeço com o gosto salgado das lágrimas na boca, o coração esmagado e a alma gritando em silêncio. **






