Mundo de ficçãoIniciar sessãoKylen passou quinze dias fora. Ele percorreu o vilarejo de Solver, andou pelas cidades vizinhas e frequentou diversas tavernas perguntando se alguém havia perdido ou abandonado uma criança. Ele analisou cada canto, mas não encontrou resposta alguma. Ninguém sabia de onde vinha aquela bebê.
Exausto, Kylen retornou para a mansão Silver. Ao entrar em casa, viu Scarlett sentada no sofá com a pequena Ruby ao lado, no carrinho. Ao ver o marido, Scarlett se levantou esperançosa. — E então, meu amor? Você achou alguma resposta? — Não achei nada — respondeu Kylen, cansado. — A gente vai ter que ficar com a criança. Scarlett não segurou as lágrimas de alegria e abraçou o marido. — Viu? Eu disse a você! A Deusa Lua trouxe a Ruby para nós. Kylen suspirou e a olhou nos olhos. — Scarlett, vou ser sincero com você. Eu só estou aceitando essa criança porque vi a alegria nos seus olhos. Eu estava determinado a devolver a bebê para qualquer parente que encontrasse. Scarlett o encarou com frieza, o brilho no rosto dando lugar à mágoa. — Você faria isso comigo? Tiraria a minha alegria? — Essa alegria não pertence a nós — disse ele com firmeza. — Agora pertence — rebateu ela. — Porque ela não tem mais ninguém além da gente. O silêncio tomou conta da sala por um momento. Kylen quebrou a tensão: — Olha, vamos levá-la até os anciãos. Precisamos resolver isso para podermos viver tranquilos. Scarlett se arrumou, colocou uma touca na cabeça de Ruby para esconder seus cabelos marcantes e acompanhou Kylen até a casa de Gideon. Mais conhecido como Deon, ele era um dos grandes e mais poderosos líderes da Matilha Solver. Ao chegarem, foram recebidos por Kiara, esposa de Gideon, que segurava no colo o filho do casal, um garotinho de quase dois anos, loiro e de olhos azuis. Kiara olhou surpresa para Scarlett. — Nossa! Você teve um bebê durante todo esse tempo em que esteve afastada de nós? — Sim, eu tive — mentiu Scarlett. Kylen a encarou seriamente, mas não a desmentiu. — Que maravilhoso! — comemorou Kiara. — Então você a trouxe para ser abençoada? — Sim, para abençoá-la — respondeu Scarlett. — É uma menina, o nome dela é Ruby. — Ela é linda! — disse Kiara, sorrindo. Gideon se aproximou da família e observou o casal com atenção. — Eu não me lembro de você ter apresentado a bebê à Deusa Lua na última visita às crianças da matilha — comentou ele. — É que... a nossa bebê estava doente naqueles dias — improvisou Kylen, rápido. — Por isso não pudemos comparecer. — Entendo — disse Gideon. — Então trouxeram a menina para que eu a abençoe. Kylen confirmou com a cabeça. Gideon, então, pediu para retirarem a touca da criança. Ao tirarem o tecido, Kiara e Gideon se surpreenderam com a cor daqueles cabelos. Gideon achou diferente, mas não fez perguntas ou julgamentos; afinal, era uma criança da linhagem Silver. Ele colocou as mãos sobre a bebê e declarou a benção: — Ela está abençoada. Que seja uma vida próspera. Antes de saírem, Scarlett se aproximou com Ruby no colo do pequeno filho de Gideon. No instante em que os dois bebês ficaram próximos, uma faísca de eletricidade pareceu cortar o ar entre eles. Kiara sentiu aquele arrepio e franziu a testa, surpresa com a sensação. Percebendo o perigo, Kylen agiu rápido. Ele puxou suavemente a mão de Scarlett e caminhou apressado para fora da mansão. Assim que se afastaram, Scarlett reclamou, chateada: — Você nem me deixou conversar com a Kiara! — Conversar o quê, Scarlett? — rebateu Kylen, irritado. — Será que você não entende? Se eles descobrirem que essa bebê não é nossa, seremos rejeitados pela matilha! Você sabe o que é ser rejeitado? Ninguém vai nos aceitar. Como a gente vai viver e criar uma criança desse tamanho fora daqui? Scarlett abaixou a cabeça e ficou em silêncio, engolindo as palavras enquanto caminhavam de volta para casa. Assim que Kylen e Scarlett se retiraram, Kiara se aproximou do marido com um olhar pensativo. — A bebê dos Silver é especial, Gideon... — disse ela, baixinho. Gideon ergueu a sobrancelha, surpreso. — Especial por causa daquela cor de cabelo estranha? — Não — respondeu Kiara, convicta. — Quando aproximou a menina, eu vi os bracinhos do nosso filho se arrepiarem. Eu senti algo diferente no ar logo depois da benção. — Sério? — questionou ele, desconfiado. — E você não ficou surpresa com a aparência daquela criança? Kiara preferiu ficar quieta. Ela conhecia o marido e sabia a força do líder que ele era; não valia a pena contrariá-lo. Gideon balançou a cabeça, encerrando o assunto. — Quem vai determinar a companheira para o nosso filho é a Deusa Lua. O que ela decidir será o certo. Não tem nada a ver com essa aproximação de hoje, e muito menos com aquela menina. Assim espero. Ele deu as costas e voltou a se sentar no seu lugar, focado nos deveres da matilha. Kiara permaneceu em silêncio. Ela puxou o menininho para os braços, ajeitando o filho no colo com carinho. Olhou bem no fundo dos olhos azuis dele e pensou, em segredo: "É, meu filho... eu acho que os seus caminhos e os dela já estão traçados.” Assim que pisaram dentro da mansão Silver, Kylen nem esperou a esposa se sentar. Ele se virou para ela com o rosto fechado, rígido e direto: — A sua filha vai usar touca o tempo todo — ordenou ele, sem dar espaço para discussão. — Eu não quero ninguém olhando para a gente com desconfiança, nem nenhum olhar torto por causa do cabelo dessa menina. Essa é a minha condição para ela continuar morando aqui. Scarlett segurou a bebê mais forte contra o peito. Ela sentiu o peso da ameaça nas palavras do marido, mas olhou para o pequeno rosto de Ruby e engoliu a seco. — Tudo bem — concordou ela, em um murmúrio. — Ela vai usar a touca. Kylen passou a mão pelo rosto, exausto. A regra estava criada. A partir daquele dia, a verdadeira identidade de Ruby Silver ficaria escondida debaixo de um simples pedaço de tecido, protegendo a família da fúria e do julgamento de toda a Matilha Solver.






