Mundo de ficçãoIniciar sessãoCom as regras rígidas estabelecidas por Kylen, Ruby não saía de casa sem a sua touca. Dentro de casa, por muitas vezes, ela também era obrigada a usar o tecido na cabeça, pois Kylen simplesmente não suportava olhar para aquele cabelo.
Ruby Silver cresceu acostumada a essa rotina. Quando ia brincar na praça de Solver com as outras crianças da matilha — todas de pele clara e cabelos albinos —, ela sempre usava a touca, mesmo no calor forte. De vez em quando, as meninas notavam as pontas das tranças que Scarlett fazia no cabelo da filha, repartido ao meio. No início, as crianças achavam aquilo até engraçado e brincavam com ela normalmente. Não havia preconceito entre os pequenos por ela ter fios vermelhos. Os adultos da cidade, no entanto, olhavam para Ruby com estranhamento. Quando ela estava sozinha na praça, os cochichos eram constantes, mas ninguém se atrevia a falar nada perto de Kylen. Aos poucos, a própria Ruby começou a perceber que era diferente de todo mundo. Quando completou oito anos, Scarlett bateu o pé: queria que a filha frequentasse a escola para se socializar. Kylen era totalmente contra, mas aproveitou-se de uma longa viagem de negócios do marido para matricular a menina. Como Scarlett já ensinava a filha em casa, Ruby era muito esperta. No começo, as professoras olhavam para ela de canto de olho e a colocavam na última cadeira da sala. Com o tempo, percebendo o entusiasmo e a inteligência de Ruby, elas foram mudando a garota de lugar, até trazê-la para as primeiras bancas. No entanto, Ruby notou que responder às aulas com tanta atenção atraía o falatório de um grupo de meninas, que começaram a se afastar dela. Para evitar a rejeição, Ruby decidiu se camuflar: parou de levantar a mão, preferiu ficar quieta e apenas fazer os deveres em silêncio. Já chamava atenção demais só de caminhar pelos corredores. Aos doze anos, o uso da touca foi proibido em sala de aula, pois não fazia parte do uniforme escolar. Tirar a touca diante de todos foi doloroso. Entre tantos alunos albinos e loiros, aquele ruivo intenso se destacava de longe, tornando Ruby alvo de risos e deboches no recreio. Vendo o sofrimento da menina, a professora abriu uma exceção e permitiu que ela voltasse a cobrir a cabeça durante as aulas. Naquele mesmo dia, Ruby chegou em casa arrasada. Foi direto até a mãe: — Mãe, eu quero que você pinte o meu cabelo. Scarlett a olhou com carinho e respondeu: — Mas o seu cabelo é lindo, Ruby. — Não é lindo, mãe! — desabafou a garota, com os olhos cheios de lágrimas. — Meu cabelo tem uma cor que nenhuma outra criança tem, e isso me incomoda muito. Scarlett tentou ajudar. Tentou descolorir, mas a tinta não pegava nos fios. Tentou passar um tom preto bem escuro, mas a cor ruiva parecia repelir a tinta. Desesperada, Ruby olhou no espelho e chorou: — Eu não gosto desse cabelo... Eu não gosto de mim! Eu não quero mais ir para a escola, mãe! Nesse momento, Kylen entrou na sala. Ele tinha voltado de viagem e assistia a toda a cena. — Eu avisei para você não colocar essa menina na escola! — disse ele, irritado. — Você é teimosa, Scarlett, só faz o que quer e nunca me obedece! Ela já chama atenção demais só de estar nesta casa! Ruby ficou paralisada, sem entender o peso das palavras do pai. Scarlett se colocou na frente da filha, indignada: — Para com isso, Kylen! Ela é a nossa filha, não fale assim com ela! Sem responder, Kylen deu as costas, saiu de casa e bateu a porta com força. A sala ficou em silêncio. Ruby se aproximou devagar da mãe e perguntou com a voz embargada: — Mãe... por que o meu pai não gosta de mim? — Não é isso, meu amor... Ele gosta de você sim — mentiu Scarlett, com o coração apertado. — É por causa do meu cabelo vermelho? Por que o meu cabelo é assim se o de vocês não é? Scarlett se ajoelhou na altura da filha, limpou as lágrimas do rosto dela e a abraçou com força. — É porque você é especial, Ruby. Você foi um presente da Deusa Lua para nós. Foi por isso que você veio ao mundo com esse cabelo vermelho tão lindo. Ruby encarou a mãe com lágrimas nos olhos e continuou o desabafo: — Mãe, por que só eu tenho que cobrir o meu cabelo? Por que só o meu é vermelho, enquanto o das outras crianças da matilha é loiro, castanho-claro ou castanho-escuro? — Eu já disse, filha... A Deusa Lua mandou você assim para mim e para o seu pai — repetiu Scarlett, tentando confortá-la. — Mas por que a Deusa Lua fez isso comigo? — questionou a menina, com a voz embargada. — Ela não gosta de mim? Ela me odeia tanto a ponto de me mandar com este cabelo e com estes olhos? Se o meu pai tem olhos azuis, por que os meus são castanho-claros, quase da cor do meu cabelo? Scarlett se ajoelhou na altura da filha, a puxou para um abraço apertado e disse com carinho: — A mamãe ama você exatamente do jeito que você é. — Mas as outras crianças não gostam de mim, mãe! — chorou Ruby. — Elas riem do meu cabelo. E por que eu preciso usar touca até no calor? Por que tenho que brincar na praça coberta desse jeito? Esquenta o meu couro cabeludo, eu não gosto! Scarlett sentiu o peito rasgar de dor. Ela olhou para a filha e tomou uma decisão: — Então você não precisa mais usar touca. — Não preciso? — perguntou Ruby, surpresa. — Não, filha. Não precisa. Pode deixar os seus cabelos à vontade. — Eu não preciso nem prender? — Não. Você pode soltar o cabelo e andar livremente por aí — afirmou Scarlett. — Livremente somente dentro de casa! — interrompeu Kylen, que tinha acabado de voltar para a sala. A voz dele era pura frieza. Ele encarou a menina sem um pingo de compaixão e disparou: — Se eu ver você na rua, na praça ou em qualquer lugar fora desta casa com esse cabelo ao vento, eu raspo a sua cabeça! Eu corto tudo e você nunca mais vai colocar a cara na rua! Scarlett se levantou na hora, indignada: — Você não pode falar com ela desse jeito! — Eu falo com ela e falo com você também! — rebateu Kylen, dando um passo à frente. — Se você não gosta, eu levo essa menina de volta até o ancião Gideon agora mesmo. É isso o que você quer, Scarlett? Quer que eu vá até o Gideon? Scarlett parou no mesmo instante e abaixou o olhar. O silêncio tomou conta da sala. Ruby olhou para a mãe, assustada, e perguntou bem baixinho: — Mãe... eu ainda preciso usar a touca? Scarlett não conseguiu encarar a filha. De cabeça baixa, com a voz falhada, ela engoliu o próprio orgulho e respondeu: — Precisa... Você precisa usar a touca. Tanto fora quanto dentro de casa. Sem dizer mais nada, Ruby virou as costas e correu para o seu quarto, chorando em silêncio. Assim que Ruby correu para o quarto chorando, Scarlett virou-se para Kylen. Os olhos dela brilhavam de dor e indignação. — São doze anos, Kylen! — disse ela, com a voz embargada. — Doze anos que essa menina está com a gente! Você sabe muito bem o quanto eu mudei por causa dela, o quanto a Ruby nos trouxe felicidade... — Felicidade, Scarlett? — interrompeu Kylen, e a voz dele transbordava um desespero guardado há mais de uma década. — Você não tem ideia do tormento que esses doze anos têm sido para mim! Ele deu um passo na direção dela, apontando para a porta de saída. — Se descobrirem a verdade... se o Gideon ou qualquer ancião souber que a gente mentiu por doze anos, nós seremos deserdados! Nós seremos expulsos da Matilha Solver! Você tem noção do que acontece quando um lobo é expulso da alcateia? Scarlett ficou em silêncio, sentindo o peso das palavras do marido. — A gente vira renegado, Scarlett! — continuou ele, a voz falhando pelo pavor. — Perder a matilha é ser jogado ao vento. É perder nossa honra, nosso teto e nossa proteção. Nenhuma outra alcateia aceita um lobo banido! Nós seremos jogados para morrer no deserto de gelo, isolados de tudo e de todos. Quem é que vai aceitar a gente? Me diz! Quem vai acolher dois expulsos e uma criança humana? Kylen passou as mãos pelo rosto, respirando fundo, com os ombros pesados pelo medo que o consumia diariamente. — Eu não odeio a menina — confessou ele, em um tom mais baixo, mas frio. — Mas eu tenho pavor de perder tudo o que nós temos. Se a escolha for entre o segredo dela e a nossa sobrevivência na matilha, eu sempre vou escolher a nossa sobrevivência. Sem esperar por uma resposta, Kylen deu as costas e caminhou em direção ao seu escritório, deixando Scarlett sozinha na sala, dividida entre o amor Incondicional pela filha e o medo real do destino cruel que o marido tanto temia. Do outro lado da porta do quarto, encostada na madeira fria, Ruby escutava cada palavra. Ela ouvia a voz alterada de Kylen, o tom desesperado do pai e o choro contido de Scarlett. O peito da garota apertava tanto que parecia difícil respirar. Ela sabia que tinha algo muito errado ali — com ela, com os pais e com um nome que Kylen repetia com pavor: Gideon. Ruby não sabia direito quem era Gideon. Ela conhecia o nome, ouvia os adultos comentando na praça com tom de respeito e temor, mas nunca tinha chegado perto dele. Aos doze anos, ninguém nunca tinha explicado para Ruby como a alcateia realmente funcionava. Para uma criança, a figura dos anciões e do líder supremo era um mistério. Eles não eram como os vizinhos da cidade; viviam isolados no topo do território e tomavam as decisões que mudavam a vida de todos. Um lobo comum só se apresentava diante de Gideon se fosse formalmente convocado para um julgamento, se precisasse pedir uma autorização grave ou em rituais sagrados, como as bênçãos dos recém-nascidos. Ninguém simplesmente caminhava até o líder para conversar. Ajoelhada no chão do quarto, Ruby tentava juntar as peças do que ouvia. Por que o pai gritava tanto? Por que ele falava com tanta raiva sobre ela para a mãe? A garota não entendia o que significava ser "renegado" ou "banido". Não conseguia alcançar a gravidade de ser jogada no deserto de gelo. A única coisa que a mente de doze anos dela conseguia processar era uma certeza amarga: todo aquele medo, toda aquela briga e todo o sofrimento de Scarlett aconteciam por causa dela. Tudo voltava para a mesma coisa. O cabelo vermelho. A cor dos seus olhos. O segredo debaixo da touca. Ela abraçou os próprios joelhos no escuro do quarto, escondeu o rosto e deixou as lágrimas correrem em silêncio. Sem entender nada sobre a política dos lobos ou o poder dos anciões, Ruby só conseguia sentir uma coisa: a culpa de existir.






