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Capítulo 2: A Aceitação por Amor e o Pacto do Silêncio

Kylen saiu do quarto e caminhou em direção ao banheiro. Enquanto deixava a água cair sobre o corpo, os pensamentos não paravam. Ele precisava encontrar uma forma de tirar aquela bebê da sua casa. Antes de tomar qualquer atitude, porém, tinha que descobrir de onde a menina tinha vindo. Ninguém perdia um bebê daquele jeito, do nada, ainda mais com uma cor de cabelo tão marcante. Tinha algo errado nessa história, e essa incerteza o deixava inquieto. Ele precisava entender quem eram os pais dela e de onde vinha aquele traço tão diferente.

​Assim que terminou o banho e vestiu uma roupa, Kylen foi para a sala. Encontrou Scarlett dobrando algumas roupas com uma calma que há muito tempo ele não via. Ele se aproximou, tentou manter a expressão leve e disse:

​— Amanhã eu vou precisar me ausentar. Tenho alguns assuntos para resolver fora daqui. Você se importa?

​Scarlett nem levantou o olhar das mantas que ajeitava com cuidado.

​— Não — respondeu ela com tranquilidade. — Pode ir. Eu vou ficar bem aqui com a nossa filha.

​Kylen sentiu um nó na garganta e engoliu em seco. "Nossa filha." Aquela bebê não era filha deles, mas ele preferiu não rebater. Fingiu que não ouviu aquela parte. No fundo, ele tentava se convencer de uma coisa: se encontrasse a verdadeira família de Ruby, Scarlett aceitaria devolver a criança. Afinal, a esposa tinha um coração bondoso e jamais tiraria um filho de outra pessoa.

​Mais tarde, no meio da noite, um resmungo baixinho quebrou o silêncio do quarto. Ruby tinha acordado. Scarlett se levantou da cama sem reclamar, trazendo no rosto um sorriso suave. A luz fraca do abajur se misturava com o brilho das estrelas que entrava pela janela, iluminando o rosto da esposa enquanto ela pegava a menina no colo.

​Deitado na escuridão, Kylen observava em silêncio. Ver a dedicação e o carinho de Scarlett fazia o estômago dele embrulhar. O medo o corroía por dentro: o julgamento dos moradores da cidade e, pior ainda, o risco de a bebê não ter linhagem alguma de loba.

​Em silêncio, ele começou a planejar os próximos passos. Faria um mapeamento mental de onde começar as buscas. Precisava descobrir quem tinha perdido, tido ou abandonado uma criança de três meses recentemente. A cidade de Solver era grande e os arredores eram ainda maiores, mas Kylen calculou que em quinze dias conseguiria encontrar respostas. Ele descobriria quem era aquela criatura e a devolveria para os seus verdadeiros pais.

​Mesmo vendo o brilho de felicidade renascer nos olhos da esposa, o medo da rejeição da Matilha pesava cada vez mais em seu coração.

Scarlett retornou ao quarto pouco depois e logo adormeceu, exausta.

Kylen continuava acordado. Ele se levantou em silêncio, caminhou até o berço e olhou mais uma vez para a criança. A bebê dormia sossegada, tão relaxada que chegava a dar pequenos roncados no silêncio do quarto. Os cabelos diferentes continuavam espalhados pelo pequeno travesseiro. Ao olhar para ela, Kylen se lembrou dos olhos castanhos-claros, quase cor de mel, que tinha visto mais cedo.

Ele bufou, incomodado com toda aquela situação. O som acabou fazendo a bebê se mexer um pouco no berço, e Kylen deu um passo para trás no mesmo instante. Ele não tinha simpatizado com a menina e não queria correr o risco de fazê-la acordar; se ela chorasse, ele teria que pegá-la no colo, e isso era a última coisa que desejava.

Afastou-se do berço e voltou para a cama. Deitado no escuro, ele tomou uma decisão firme: assim que descobrisse de quem era aquela criança, ele a devolveria sem pensar duas vezes.

Logo pela manhã, Scarlett já estava acordada, caminhando pela casa com a bebê nos braços. Kylen terminou de ajeitar as coisas na mala, pronto para partir, quando a esposa o encarou com desconfiança.

— Ué... você vai fazer essa viagem não é por negócios, né? — perguntou Scarlett. — Você vai descobrir de onde a Ruby veio?

Kylen soltou o ar devagar, encarando a esposa com firmeza.

— É, Scarlett. Não tem como a gente ficar com uma criança que não é nossa. Tenta entender o meu lado.

— Mas foi um presente da Deusa Lua! — rebateu ela na hora, apertando a menina no colo. — Eu tenho certeza! Já se passaram três meses e ninguém veio atrás dela.

— Mas eu preciso ter certeza absoluta, Scarlett — explicou Kylen, abaixando o tom de voz para tentar acalmá-la. — Eu não disse que rejeitei a menina. Eu aceitei que ela fique aqui por enquanto.

Scarlett apenas balançou a cabeça, escutando em silêncio.

— Eu vou até a cidade e vou procurar em outros lugares próximos. Preciso saber quem é essa criança e se ela tem parentes — continuou ele. — Se ela não tiver ninguém, nós vamos levar a bebê até os anciãos e pedir a autorização deles para adotar. Mas, enquanto eu estiver fora, você fica em casa. Não apareça na cidade com essa criança, ok? Por favor, meu amor... É pelo nosso bem.

Kylen deu um passo à frente, segurando nos ombros dela.

— Se a gente não fizer as coisas do jeito certo, seremos rejeitados. Podemos ser expulsos da matilha! Onde a gente vai criar essa bebê se formos banidos? Nós precisamos do apoio dos anciãos. Você consegue entender o meu desespero? Não é só pela bebê, é por nós dois.

Os olhos de Scarlett se encheram de lágrimas. Ela olhou para a bebê e depois para o marido, sentindo o peso do aviso dele.

— Tá bom... — concordou ela, engolindo o choro. — Eu vou ficar aqui com a bebê e esperar você voltar.

Kylen aproximou-se, deu um beijo carinhoso na esposa e saiu pela porta, carregando no peito a promessa de voltar em quinze dias com todas as respostas.

Assim que cruzou os portões da mansão Silver, Kylen parou por um segundo e olhou para trás. Observou a casa em silêncio e deixou escapar um suspiro pesado.

— Tomara que eu encontre respostas rápido — murmurou ele para si mesmo. — Espero do fundo do coração que essa bebê saia da nossa vida. Eu tenho certeza absoluta de que ela vai trazer problemas para a minha família... e eu não vou deixar isso acontecer.

Ajustou a mala no ombro, deu as costas para a mansão e seguiu viagem estrada fora.

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