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O vento frio da floresta entrava pelas frestas da cabana e cortava a pele de Livia como lâminas. Ela estava deitada de lado, encolhida, abraçando os próprios joelhos. Cada batida do coração parecia um martelo batendo dentro do peito, porque cada batida também carregava o nome dele: Matheus.
O vínculo ainda existia. Pulsava. Doía. Vivia. Era um fio de prata incandescente que ligava sua alma à dele, mesmo quando ele a ignorava, mesmo quando ele a humilhava na frente de toda a alcateia, mesmo quando ele passava a noite nos aposentos de Julia. Livia sentia tudo. Sentia o prazer dele com outra. Sentia o desprezo dele por ela. E sentia, dia após dia, sua loba Luna definhando dentro do peito como uma flor arrancada da terra e deixada ao sol. Aos vinte anos, a Lua destinada da Alcateia Lua Prateada era apenas uma sombra do que deveria ter sido. Cabelos negros que antes brilhavam como ônix agora pendiam sem vida. Olhos violeta, outrora temidos e admirados, estavam opacos, marcados por olheiras profundas. O corpo que já fizera guerreiros babarem agora tremia de febre constante. Porque o vínculo não aceita ser metade. Ou é inteiro… ou mata. Ela se levantou com dificuldade, apoiando-se na parede de madeira. Vestiu um suéter largo demais — um dos antigos de Matheus que ele jogara fora quando Julia disse que “cheirava a fracasso”. Livia ainda o usava. Era patético, ela sabia, mas o cheiro dele, mesmo que fraco, era a única coisa que acalmava Luna por alguns minutos. Na cozinha comunitária, o silêncio caiu como uma guilhotina quando ela entrou. Olhares de desprezo. Sussurros venenosos. “A rejeitada chegou.” “Olha o estado dela… coitada.” “Coitada coisa nenhuma. É obsessão. O Alfa já escolheu Julia.” Livia ignorou. Pegou um pedaço de pão e uma caneca de chá de ervas que ela mesma preparava para tentar amenizar a dor. Sentou-se no canto mais afastado. Sozinha. Como sempre. Então ele entrou. Matheus. Dois metros de puro poder alfa. Ombros largos, tatuagens tribais subindo pelo pescoço, olhos cinzentos tempestuosos. O cheiro dele — pinheiro, fumaça e masculinidade crua — invadiu o ambiente e fez o vínculo dentro de Livia dar um pux, doído e desesperado. Ele não olhou para ela. Nem uma vez. Foi direto para Julia, que já o esperava com um sorriso doce demais para ser verdadeiro. Julia passou os braços em volta do pescoço dele e o beijou na frente de todos. Um beijo longo, molhado, possessivo. Matheus retribuiu com fome, as mãos descendo até a cintura dela. Livia sentiu o estômago revirar. O vínculo queimava. Uma lágrima escorreu sem permissão. Uma das amigas de Julia riu alto. “Olha a cara dela. Parece que vai desmaiar de ciúme.” Matheus finalmente virou o rosto. Seus olhos encontraram os dela por um segundo apenas. E havia… nada. Nem culpa. Nem arrependimento. Apenas irritação. — Para de fazer cena, Livia — disse ele, alto o suficiente para todos ouvirem. — Ninguém aqui tem paciência pra seu drama. O silêncio que se seguiu foi pior que qualquer tapa. Livia se levantou, as pernas trêmulas. — Eu não estou fazendo cena — respondeu, a voz rouca. — Estou morrendo. Lentamente. Por sua causa. Matheus revirou os olhos. — Sempre com essa história de “morrer”. Você está viva, não está? Então para de vitimismo. Julia se aninhou mais nele, sorrindo com malícia. — Deixa, amor. Ela só quer atenção. Livia saiu dali correndo, o pão esquecido na mesa. Correu até a floresta, até os pulmões arderem, até cair de joelhos na terra úmida. Luna uivou dentro dela — um uivo de dor tão profundo que ecoou pelas árvores. — Eu não aguento mais… — sussurrou para a lua que começava a nascer. — Por favor… faça parar. Mas a lua não respondeu. A lua apenas assistia. E o vínculo continuou queimando.






