Mundo ficciónIniciar sesiónA SOMBRA DE JULIA
Nos dias seguintes, Julia apertou o cerco. Primeiro foram os boatos: “Livia tentou envenenar meu chá.” “Livia rasgou minhas roupas de ciúmes.” “Livia ameaçou se matar se o Alfa não voltasse para ela.” Mentiras tão bem contadas que até a mãe de Livia começou a duvidar. — Filha, talvez você esteja mesmo… exagerando — disse a mulher, torcendo as mãos. — O Alfa tem o direito de escolher quem ele quer ao lado. — Ele não escolheu, mãe. Ele quebrou um vínculo sagrado. Isso tem consequências. — Consequências são para os fracos que não aceitam o destino — retrucou o pai, o Beta da alcateia, com frieza. — Aceite seu lugar, Livia. Ou saia. Naquela noite, Matheus a chamou para o salão principal. Sozinhos. Ele estava sentado no trono de carvalho escuro, pernas abertas, o corpo exalando poder. A luz das tochas dançava nos músculos expostos pelo colete aberto. Livia sentiu o vínculo latejar tão forte que quase caiu de joelhos. — Chega, Livia — disse ele, sem rodeios. — Eu quero Julia. Quero marcar ela na próxima lua cheia. Você precisa aceitar isso de uma vez. — Aceitar? — Ela riu, um som quebrado. — Matheus, o vínculo está me matando. Cada vez que você toca nela, eu sinto. Cada vez que você a beija, é como se arrancassem um pedaço de mim. Eu estou sangrando por dentro. Ele se levantou, aproximando-se devagar. O cheiro dele a envolveu como uma droga. — Então luta contra isso — rosnou, parando a centímetros dela. — Lute como a Luna que você deveria ser. Seus olhos cinzentos a perfuraram. Por um segundo, Livia viu o desejo ali — cru, animal, alfa. O vínculo respondeu com violência, fazendo seu corpo inteiro tremer de necessidade. Ele ergueu a mão… e segurou seu queixo com força. — Eu poderia te ter agora mesmo — sussurrou, voz rouca. — Poderia te jogar nesse chão e te foder até você esquecer seu próprio nome. O vínculo quer isso. Eu sinto. Livia prendeu a respiração. — Então por que não faz? Porque Julia entrou naquele exato momento. — Amor? — chamou a voz melíflua. — Os anciãos estão esperando. Matheus soltou Livia como se ela queimasse. Virou-se para Julia com um sorriso que nunca fora dirigido a ela. — Já vou. E saiu. Sem olhar para trás. Livia ficou ali, sozinha no salão, o corpo ardendo de desejo não satisfeito e o coração em pedaços. Naquela noite, ela vomitou sangue pela primeira vez. A dor não era mais só interna. Ela escorria pelos cantos dos olhos de Livia em forma de lágrimas silenciosas enquanto observava, da janela entreaberta da cabana, Julia e Matheus atravessarem o pátio da alcateia de mãos dadas. Julia usava o vestido vermelho que Livia ganhara de presente de aniversário no ano anterior. O mesmo que Matheus rasgara com os dentes na noite em que, pela primeira e única vez, havia se deitado com ela antes de tudo desmoronar. Agora o tecido abraçava o corpo da irmã como se tivesse sido feito para ela. Livia apertou a cortina com tanta força que as unhas cravaram na madeira. Dentro do peito, Luna gemia, um som baixo, quase humano, de puro desespero. O vínculo pulsava. Latejava. Exigia. Era como se uma corda incandescente estivesse amarrada em seu coração e alguém, do outro lado, a puxasse a cada passo que Matheus dava com Julia. Cada risada deles era um nó que se apertava mais. Ela precisava sair dali. Correu para o banheiro minúsculo, trancou a porta e vomitou. Não era só bile. Havia sangue. Escuro, grosso, com cheiro metálico. O terceiro episódio naquela semana. Seus joelhos cederam e ela caiu sentada no chão frio, o corpo tremendo de febre. Foi quando bateram na porta da cabana. Três batidas secas. Autoridade pura. — Abre, Livia. — A voz de Matheus. Grave. Inegociável. Ela se levantou com dificuldade, limpou a boca com as costas da mão e abriu a porta. Ele estava ali, ocupando todo o batente, o peito largo quase tocando o dela. O cheiro dele a invadiu como uma droga. Pinheiro queimado, couro, testosterona pura. O vínculo deu um estalo tão violento que Livia cambaleou para trás. — Você está pálida — ele disse, franzindo a testa. Entrou sem ser convidado, fechando a porta com o calcanhar. — Julia disse que você andou falando coisas… estranhas. Sobre ela. Livia riu. Um som rouco, quebrado. — Coisas estranhas? Tipo que ela mente sobre mim todos os dias? Que ela inventou que eu tentei envenená-la? Que ela disse que eu arranhei o rosto dela enquanto ela dormia? Escolhe qual mentira você quer acreditar hoje, Alfa. Matheus estreitou os olhos cinzentos. — Cuidado com o tom. — Ou o quê? — Ela deu um passo à frente, desafiadora, mesmo sabendo que era suicídio. — Vai me bater? Me trancar de novo? Me matar mais rápido do que o vínculo já está fazendo? Ele a segurou pelo braço com força, puxando-a para tão perto que os narizes quase se tocaram. — Você está fora de controle. — Eu estou morrendo! — gritou ela no rosto dele, as lágrimas finalmente caindo. — Olha pra mim, Matheus! Olha bem! Eu peso quarenta e dois quilos. Estou sangrando por dentro. Minha loba mal consegue se transformar. E tudo porque você escolheu foder minha irmã em vez de honrar o que os Deuses te deram! O silêncio que se seguiu foi denso, elétrico. O vínculo rugia entre eles, exigindo toque, exigindo pele, exigindo submissão. Matheus respirava pesado. Ela podia sentir o calor do corpo dele, o volume crescente na calça de couro. Ele queria. Sempre queria, mesmo quando a odiava. Era o pior tipo de tortura. — Eu não pedi esse vínculo — rosnou ele, os dentes à mostra. — Eu não pedi você. — Mas ele te pediu — sussurrou Livia, a voz falhando. — E você está matando nós dois com isso. Por um segundo, apenas um segundo, os olhos dele vacilaram. Culpa. Dor. Desejo. Tudo misturado. A mão que segurava o braço dela afrouxou, deslizando até a cintura. Os dedos cravaram na carne macia logo acima do quadril. — Livia… — o nome saiu dele como um gemido. Ela sentiu. Sentiu o exato momento em que ele quase cedeu. O corpo dele se curvou na direção do dela, o vínculo puxando como um ímã. Seus lábios roçaram o canto da boca dela, quentes, famintos. Ela abriu a boca sem querer, o corpo traindo a mente, pronta para se entregar mais uma vez àquele inferno. Mas então ele se lembrou de Julia. Empurrou-a com força contra a parede, fazendo o quadro na parede cair e se espatifar no chão. — Chega — disse ele, a voz fria de novo. — Amanhã à noite tem reunião da alcateia. Você vai estar lá. Vai sorrir. Vai dizer publicamente que aceita minha escolha. E vai parar de envergonhar todo mundo com esse teatro. Livia deslizou pela parede até o chão, as pernas sem força. — E se eu não for? — Eu te arrasto pelada se for preciso — respondeu ele, sem piscar. — Você é minha Luna até eu dizer o contrário. Age como tal. Ele saiu batendo a porta. Livia ficou ali, encolhida, por horas. Quando a noite caiu, Julia apareceu. Sem bater. Entrou com um sorriso doce demais, vestindo apenas uma camisola de seda preta que mal cobria as coxas. Marcas de mordida frescas brilhavam no pescoço e nos seios. Marcas dele. — Mana — disse ela, fingindo preocupação. — Você está horrível. Deveria se cuidar mais. Livia não respondeu. Apenas encarou. Julia se aproximou, agachando-se na frente dela. — Sabe o que o Matheus me disse hoje, depois de transar comigo três vezes? — sussurrou, como quem compartilha um segredo. — Que nunca sentiu tanto prazer na vida. Que eu sou perfeita pra ele. Que você… — ela riu baixinho — …você é só um peso que ele carrega por obrigação. Livia sentiu o mundo girar. — Saia — conseguiu dizer. Julia se levantou, alisando a camisola. — Ah, e mais uma coisinha… — virou-se na porta. — Ele vai me marcar na próxima lua cheia. Publicamente. E você vai assistir. De joelhos, se eu mandar. A porta se fechou. Livia vomitou sangue de novo. Dessa vez, desmaiou no chão frio.






