Mundo de ficçãoIniciar sessãoNaquela noite ela decidiu.
Não ia esperar a lua cheia. Não ia assistir Matheus marcar Julia. Não ia morrer assistindo. Tomou a erva-da-lua-negra — a única planta capaz de amortecer o vínculo por algumas horas. Engasgou com o gosto amargo, sentindo o fio de prata dentro do peito se tornar um zumbido distante. Saiu pela janela dos fundos, descalça, o corpo tremendo de frio e febre. Correu. Correu até os pulmões arderem, até as pernas quase cederem. A erva estava perdendo o efeito mais rápido do que o esperado. O vínculo voltava como uma onda de dor lancinante. Ela caiu de cara na neve, a dois quilômetros da fronteira norte. — Não… por favor… — gemeu, arranhando a terra gelada. Passos pesados na neve. Ela soube quem era antes mesmo de olhar. Matheus. Sempre ele. Sempre o vínculo. Ele a encontrou em minutos. Ajoelhou-se ao lado dela, o rosto pálido de raiva e… medo. — Eu te disse que não ia deixar — rosnou, virando-a de costas com cuidado. Livia tentou se arrastar para longe, mas ele a segurou pelos ombros, imobilizando-a contra o peito. — Olha pra você — disse ele, a voz falhando. — Olha o que está fazendo consigo mesma. — Me solta… — ela tentou empurrá-lo, mas não tinha força. Ele a puxou para o colo, abraçando-a com força contra o peito quente. O vínculo explodiu em êxtase e agonia ao mesmo tempo. Livia chorou sem controle, socando o peito dele com os punhos fracos. — Por que você faz isso comigo?! — gritou ela. — Por que não me deixa ir?! — Porque você é minha — respondeu ele, os dentes cerrados, segurando os pulsos dela. — Mesmo que eu odeie isso. Mesmo que eu queira odiar. Você é minha, caralho. O corpo dele tremia tanto quanto o dela. O desejo entre eles era palpável, denso, quase sólido. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, inspirando fundo, os lábios roçando a pele sensível onde deveria estar a marca. — Eu sinto você o tempo todo — confessou ele, voz rouca contra a pele dela. — Mesmo quando estou com ela. Eu sinto você. E isso me enlouquece. Livia virou o rosto, os lábios quase tocando os dele. — Então me mata — sussurrou. — Ou me marca. Escolhe logo. Por um segundo eterno, pareceu que ele ia fazer os dois. A mão dele subiu até o pescoço dela, o polegar pressionando o ponto exato da marca. Os olhos dele escureceram, caninos alongando-se de desejo. Ele se inclinou, a boca aberta, pronta para cravar. Mas parou a milímetros da pele. Porque o rosto de Julia surgiu na mente dele. Porque o orgulho falou mais alto. Porque ele ainda acreditava nas mentiras. Recuou como se tivesse sido queimado. — Não — disse ele, respirando pesado. — Não assim. Não enquanto você estiver assim… quebrada. Levantou-se com ela nos braços, como se ela não pesasse nada. — Você volta comigo. E dessa vez eu tranco você até aprender a se comportar. Livia chorou contra o peito dele o caminho inteiro de volta. O corpo ardendo de desejo não satisfeito. A alma destruída. Ele a deitou na cama, ainda tremendo. Cobriu-a com o próprio casaco — aquele que Julia usava mais cedo. Beijou a testa dela uma única vez — um gesto tão suave que doeu mais que qualquer grito. — Não fuja de novo — pediu, quase suplicando. — Eu sempre vou te encontrar. E da próxima vez… talvez eu não consiga parar. Saiu. Livia ficou olhando o teto por horas. O corpo em chamas. O coração em cinzas. E começou a planejar uma fuga de verdade. Uma que nem o vínculo pudesse rastrear. Porque agora ela sabia: Matheus nunca a deixaria ir enquanto o vínculo existisse. E o vínculo só se romperia com a morte… ou com algo mais forte.






