Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs palavras do estranho ainda pairavam no ar quando o vento bateu nos pinheiros. Maia continuava no chão, costas no musgo gelado, respiração saindo branca pela boca. Olhou a lâmina preta jogada na neve, os dois caçadores estirados, e por fim o homem de olhos amarelos parado na frente dela.
Mesmo com aquele frio de matar, o corpo dele soltava calor. Tinha cicatriz antiga cruzando o peito e nenhum resto daquela pose engomada dos nobres do Norte. Parecia gente criada no mato, não em salão. Lá em cima, na encosta, um uivo longo cortou a noite. O chão quase vibrou. A guarda de Aren estava subindo. — Quem é você? A voz de Maia saiu rouca, a garganta seca demais pra disfarçar. — Zarek. Ele não se mexeu. Não chegou perto. Não fez nenhum daqueles movimentos de Alfa querendo impressionar. — Acabou o tempo de pergunta. Maia ficou olhando pra ele. Não via aquele brilho de dono que ela conhecia nos Alfas da terra dela. Zarek não avançou, não segurou o braço dela, não mandou nada. Só estava ali, oferecendo uma saída do jeito frio de quem fecha um trato. Ficar significava cair na mão da guarda de elite. Voltar pra fortaleza que tinha cuspido ela pra fora. Virar prisioneira do homem que tinha estraçalhado o peito dela, e torcer pra ele proteger ela do Conselho em vez de jogar numa cela até o julgamento. Ir com Zarek era outra aposta feia: entregar a vida a um desconhecido do Oeste. Terra sem lei, cheia de exilado, mercenário e gente que sumia do mapa por motivo pior. A cicatriz latejou, uma ferroada seca. O salão inteiro voltou num segundo. A escolha, no fundo, já estava feita. Maia apoiou as mãos na rocha e se forçou a levantar. As pernas tremeram, a vista girou, mas ela fincou as botas na lama e segurou o olhar dele. — Eu vou. Zarek não sorriu. Só fez que sim com a cabeça, virou o corpo e tirou a capa de pele dos ombros. Jogou em cima dela sem cerimônia. O tecido pesado cheirava a fumaça de fogueira, terra molhada e couro velho. O calor grudou na pele trêmula de Maia e o arrepio foi afrouxando aos poucos. — Mantém o pé no meu rastro e não para por nada. Ele já caminhava em direção à fenda escura no fim do desfiladeiro. — Se cair, eu não carrego. Eles entraram no escuro das rochas bem na hora em que as primeiras tochas da guarda apareceram no topo da montanha. A passagem estreita entre os picos era um inferno quieto. O chão subia torto, puxando músculo que Maia mal lembrava de ter, e o ar fino fazia o pulmão chiar a cada passo. De trecho em trecho a cicatriz prateada repuxava — quanto mais longe da Alcateia, pior a ferroada. Zarek ia alguns metros na frente, ritmo firme, andando como quem nasceu naquele terreno. Orelha ligada em qualquer barulho da mata. — Por que você atacou os caçadores do Conselho? A voz de Maia saía em pedaços, ela tentando pegar o passo dele. — Um lobo do Oeste não ganha nada comprando briga com ancião do Norte. — Eu não comprei briga com ninguém. Zarek nem olhou pra trás. Só desviou de um bloco de gelo na trilha. — Aqueles homens eram lixo. E o Conselho do Norte tem o vício feio de achar que é dono da floresta inteira. — Eles queriam me matar. — Eu ouvi. Maia apertou a capa contra o peito rasgado, tentando segurar o arfar. — Por que o Conselho manda assassino atrás de rejeitada? Eles já tinham o que queriam. Me expulsaram na frente da alcateia inteira. Zarek parou tão seco que ela quase bateu nas costas largas dele. Virou devagar. O olho amarelo pegou o pouco de lua que entrava entre as fendas da pedra. — Acha mesmo que é a primeira, garota? O tom vinha frio. Sem dó nenhuma. — Acha que é a única Luna do Norte descartada e depois caçada no mato? O estômago de Maia afundou. — Do que você tá falando? — O Norte tem uma historinha bonita pra rejeitada. Zarek deu meio passo. A voz baixou, áspera. — Dizem que a mulher enlouquece de dor. Que congela na neve. Que fera come. Que se j**a do penhasco. Uma tragédia linda, bem contadinha, pra limpar a barra do Alfa que quebra o laço. Ele levantou a mão e apontou a cicatriz no peito dela. O dedo era calejado, grosso de quem trabalha sujo. — A verdade é mais feia. O Conselho nunca deixa rejeitada andar solta. Toda mulher com essa marca no Norte some. Não sobra osso. Aquilo bateu mais fundo do que tudo que a matilha tinha cuspido nela naquela noite. Vieram os cochichos da infância, os nomes de Lunas antigas que um dia simplesmente pararam de ser falados nas festas. Sumiam da boca da gente. E pronto. Ninguém perguntava mais. Não era só honra de matilha. Era limpeza. Matança combinada. — Por quê? O peito dela ia e vinha rápido demais. — O que o Conselho ganha matando mulher que já perdeu tudo? — Essa é a pergunta que vale a sua vida. Zarek virou de costas e voltou a andar. — E é por isso que eu tô te levando pra um lugar onde você consegue a resposta. Andaram mais meia hora, descendo por um túnel natural na pedra — aquela fronteira feia entre o Norte e o território neutro. Lá fora o vento morreu. Dentro ficou só o gotejar constante na parede. No fim da passagem, a fenda abriu numa grota escondida. Teto de pedra segurando a neve, mato grosso em volta. No fundo, uma fogueira baixa queimava sem fumaça, jogando sombra laranja na parede. Maia não aguentou em pé. Deixou o corpo deslizar pela pedra até sentar na terra seca. As pernas entregaram de uma vez. A cicatriz ardia numa dor surda, sem pausa, e a cabeça dela não largava o que Zarek tinha falado. Ele foi até a fogueira, pegou uma caneca de metal, encheu com água quente da chaleira velha e entregou pra ela sem dizer nada. Maia segurou o metal quente com as duas mãos. Ainda tremia quando um passo leve soou no canto mais escuro do abrigo. Ela se endireitou na hora, os olhos vasculhando o fundo da caverna. Uma mulher saiu de lá. Roupa simples de lã escura, cicatriz prateada no meio do peito — igualzinha à de Maia — e aquele jeito firme de quem conhecia o chão de olhos fechados. Quando o fogo pegou o rosto dela, a caneca tremeu na mão de Maia. Água quente espirrou no joelho. Aquele rosto ela conhecia. Tinha visto numa pintura no salão dos nobres, anos atrás. Mulher da linhagem guerreira do Norte. “Morta de febre” fazia cinco anos, segundo a história oficial da alcateia. A mulher parou a três passos. Olhou a marca prateada no peito de Maia, depois subiu até os olhos dela. — Maia Valença. A voz vinha mansa, mas pesada o bastante pra mudar o ar do abrigo. — A gente tava esperando por você.






