Mundo de ficçãoIniciar sessãoA caneca tremeu na mão de Maia. Água morna espirrou na ponta dos dedos, mas ela nem piscou. O olho ficou na mulher que tinha saído do fundo da caverna.
— Você... A voz falhou. A garganta raspou. — A pintura no corredor leste do palácio. A guerreira que liderava a patrulha da fronteira. A mulher puxou um sorriso fraco, sem alegria nenhuma. O movimento repuxou a cicatriz prateada no meio do peito, bem por baixo do tecido escuro da túnica. — A história oficial diz que a febre da montanha queimou meus pulmões faz cinco anos. A voz vinha baixa, serena. — O Conselho prefere morte limpa e poética a ter que explicar pra alcateia por que uma fêmea marcada recusou o isolamento e sumiu no mato. Maia apertou os dedos na caneca. O metal quente ajudava a lembrar que aquilo era real. A mentira do Conselho era grande. Antiga. Construída com calma, ano atrás de ano, só pra proteger a pose de controle absoluto dos Alfas. Ela desviou da mulher e encarou Zarek. Ele continuava encostado na parede de pedra, braços cruzados, olho amarelo acompanhando a reação dela com uma calma que irritava. A fogueira puxava sombra comprida na mandíbula dele, cheia de marca antiga. A desconfiança virou raiva suja. No Norte ela aprendeu cedo: ninguém oferece resgate de graça. Alfa não estende a mão sem cobrar submissão. E homem do Oeste não arrisca o pescoço contra o Conselho por piedade. — E você ganha o quê com isso tudo, Zarek? Maia ergueu o queixo. A voz saiu afiada. — Vai me dizer que arriscou a vida contra dois caçadores armados porque tem coração bondoso? Zarek soltou um riso curto pelo nariz. Seco. Sem graça nenhuma. Desencostou da rocha e deu dois passos devagar na direção do fogo. A luz pegou o peito nu, o ombro largo, as marcas velhas. — Bondade é luxo de quem tem alcateia e barriga cheia, garota. Parou a dois metros dela. — Eu sou exilado. Vivo do que acho e do que consigo defender. — Então qual é o teu jogo? Maia segurou o olhar dele mesmo com a dor puxando a pele do peito. — Vai me entregar pra outro grupo? Vai pedir resgate pro Aren? O nome do Supremo mudou o clima do abrigo num segundo. A mulher mais velha deu um passo pra trás e sumiu de novo na sombra, deixando os dois no meio da grota. Zarek não se alterou. Não fez a pose de macho do Norte. Só estendeu o braço esquerdo. Com a outra mão, puxou a braçadeira de couro puído que ia do pulso até o cotovelo. O antebraço tinha pelo curto e marca velha de garra. Mas na parte de dentro do pulso, subindo torta até a base da mão, tinha outra coisa. Um relevo prateado, torto, da mesma cor da cicatriz que queimava no peito dela. A respiração de Maia travou na garganta. — Você... Ela apontou o braço dele, olho arregalado. — O vínculo não escolhe só fêmea pra moer. A voz dele baixou, mais rouca. — A diferença é que a nobreza do Norte ensina que macho supera. Que a gente aceita a rejeição, ergue a cabeça e segue governando. Ele olhou a própria cicatriz um segundo antes de voltar o olho amarelo pra ela. — Mentira. A dor rasga a carne do mesmo jeito. O sangue queima igual. Quando o laço arrebentou, a única escolha que me sobrou foi juntar o que restou e dar as costas pra minha própria gente. Maia ficou olhando a linha prateada no pulso dele. O choque foi baixando e entrou outra coisa no peito — estranha, sem nome. Pela primeira vez desde a sentença de Aren no salão de pedra, ela não se sentia uma aberração sozinha. Ali na frente dela tinha um homem com a mesma ruína. A mesma marca de quem foi jogado fora. Sem perceber, Maia pousou a caneca na terra e se levantou devagar. A perna ainda tremia de cansaço, mas ela foi mesmo assim. Deu um passo na direção dele. Zarek não recuou. Manteve o braço estendido, o pulso aberto na luz da fogueira. Maia ergueu a mão. Os dedos ainda frios do vento pararam a um fio da cicatriz dele. Hesitou. Procurou no rosto de Zarek qualquer aviso, qualquer ameaça. — Pode tocar. A voz dele veio firme. Sem vacilo. Maia encostou a ponta dos dedos na marca prateada. O contato mandou um calor estranho pelo braço dela, direto no peito. Uma vibração funda — e não era aquele puxão sufocante do laço antigo. Era corpo respondendo a corpo. Dor parecida encontrando dor parecida. O pulso de Zarek saltou debaixo dos dedos dela, rápido, forte. A pele dele soltava um calor grosso que fez a palma de Maia arder — e, pela primeira vez, não era o pavor que ela sentia com Aren. O cheiro dele veio junto: fumaça, terra molhada, mato bravo. Envolveu ela sem prender. Sem cobrar nada. Os dedos de Zarek fecharam no pulso dela. Sem aperto bruto. Só sustentando. O polegar calejado roçou devagar a pele da mão de Maia. Aquele roçar manso mandou um arrepio quente pela espinha dela. Um calor diferente. Desejo, talvez — mas nascido ali, da escolha, do toque. Não de laço nenhum empurrando o corpo dela pra cima de ninguém. Zarek olhou a mão dela na dele. Depois subiu o olhar pro peito de Maia, onde o tecido rasgado mostrava a beirada da cicatriz nova. — O rompimento deixa marca no corpo pra sempre. A voz baixou pela proximidade. — Mas você continua de pé. Isso conta mais do que a coroa que ele te tirou. Maia puxou a mão devagar. A pele ainda formigava no lugar do toque. A respiração veio um pouco curta, calor subindo pelo pescoço. — Pra onde você vai me levar? Ela ajustou a capa nos ombros, forçando a voz a não tremer. Zarek puxou a braçadeira de volta, cobrindo a cicatriz do pulso. Encarou Maia. O olho amarelo veio sério. — Tem uma rede inteira de mulher como você escondida nessas montanhas. Cruzou os braços. — Um lugar que o Conselho do Norte tenta destruir há gerações e nunca achou o portão principal. Chamam de Jardim. Maia franziu a testa. O nome cutucou uma memória velha. — Eu já vi esse nome num mapa antigo da biblioteca do meu pai. Achava que era uma lenda. — Não é lenda. É o único lugar seguro pra quem carrega essa marca no peito. Zarek deu meio passo pro lado, apontando a saída dos fundos. — Eu te levo até a entrada. Mas aviso logo: o Jardim tem regra própria. E você pode não gostar do preço que cobram pra te deixar passar.






