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Capítulo 6 — A Marca Que Ele Também Carrega

A caneca tremeu na mão de Maia. Água morna espirrou na ponta dos dedos, mas ela nem piscou. O olho ficou na mulher que tinha saído do fundo da caverna.

— Você...

A voz falhou. A garganta raspou.

— A pintura no corredor leste do palácio. A guerreira que liderava a patrulha da fronteira.

A mulher puxou um sorriso fraco, sem alegria nenhuma. O movimento repuxou a cicatriz prateada no meio do peito, bem por baixo do tecido escuro da túnica.

— A história oficial diz que a febre da montanha queimou meus pulmões faz cinco anos.

A voz vinha baixa, serena.

— O Conselho prefere morte limpa e poética a ter que explicar pra alcateia por que uma fêmea marcada recusou o isolamento e sumiu no mato.

Maia apertou os dedos na caneca. O metal quente ajudava a lembrar que aquilo era real. A mentira do Conselho era grande. Antiga. Construída com calma, ano atrás de ano, só pra proteger a pose de controle absoluto dos Alfas.

Ela desviou da mulher e encarou Zarek.

Ele continuava encostado na parede de pedra, braços cruzados, olho amarelo acompanhando a reação dela com uma calma que irritava. A fogueira puxava sombra comprida na mandíbula dele, cheia de marca antiga.

A desconfiança virou raiva suja. No Norte ela aprendeu cedo: ninguém oferece resgate de graça. Alfa não estende a mão sem cobrar submissão. E homem do Oeste não arrisca o pescoço contra o Conselho por piedade.

— E você ganha o quê com isso tudo, Zarek?

Maia ergueu o queixo. A voz saiu afiada.

— Vai me dizer que arriscou a vida contra dois caçadores armados porque tem coração bondoso?

Zarek soltou um riso curto pelo nariz. Seco. Sem graça nenhuma. Desencostou da rocha e deu dois passos devagar na direção do fogo. A luz pegou o peito nu, o ombro largo, as marcas velhas.

— Bondade é luxo de quem tem alcateia e barriga cheia, garota.

Parou a dois metros dela.

— Eu sou exilado. Vivo do que acho e do que consigo defender.

— Então qual é o teu jogo?

Maia segurou o olhar dele mesmo com a dor puxando a pele do peito.

— Vai me entregar pra outro grupo? Vai pedir resgate pro Aren?

O nome do Supremo mudou o clima do abrigo num segundo. A mulher mais velha deu um passo pra trás e sumiu de novo na sombra, deixando os dois no meio da grota.

Zarek não se alterou. Não fez a pose de macho do Norte. Só estendeu o braço esquerdo. Com a outra mão, puxou a braçadeira de couro puído que ia do pulso até o cotovelo.

O antebraço tinha pelo curto e marca velha de garra. Mas na parte de dentro do pulso, subindo torta até a base da mão, tinha outra coisa.

Um relevo prateado, torto, da mesma cor da cicatriz que queimava no peito dela.

A respiração de Maia travou na garganta.

— Você...

Ela apontou o braço dele, olho arregalado.

— O vínculo não escolhe só fêmea pra moer.

A voz dele baixou, mais rouca.

— A diferença é que a nobreza do Norte ensina que macho supera. Que a gente aceita a rejeição, ergue a cabeça e segue governando.

Ele olhou a própria cicatriz um segundo antes de voltar o olho amarelo pra ela.

— Mentira. A dor rasga a carne do mesmo jeito. O sangue queima igual. Quando o laço arrebentou, a única escolha que me sobrou foi juntar o que restou e dar as costas pra minha própria gente.

Maia ficou olhando a linha prateada no pulso dele. O choque foi baixando e entrou outra coisa no peito — estranha, sem nome. Pela primeira vez desde a sentença de Aren no salão de pedra, ela não se sentia uma aberração sozinha. Ali na frente dela tinha um homem com a mesma ruína. A mesma marca de quem foi jogado fora.

Sem perceber, Maia pousou a caneca na terra e se levantou devagar. A perna ainda tremia de cansaço, mas ela foi mesmo assim.

Deu um passo na direção dele. Zarek não recuou. Manteve o braço estendido, o pulso aberto na luz da fogueira.

Maia ergueu a mão. Os dedos ainda frios do vento pararam a um fio da cicatriz dele. Hesitou. Procurou no rosto de Zarek qualquer aviso, qualquer ameaça.

— Pode tocar.

A voz dele veio firme. Sem vacilo.

Maia encostou a ponta dos dedos na marca prateada.

O contato mandou um calor estranho pelo braço dela, direto no peito. Uma vibração funda — e não era aquele puxão sufocante do laço antigo. Era corpo respondendo a corpo. Dor parecida encontrando dor parecida.

O pulso de Zarek saltou debaixo dos dedos dela, rápido, forte. A pele dele soltava um calor grosso que fez a palma de Maia arder — e, pela primeira vez, não era o pavor que ela sentia com Aren. O cheiro dele veio junto: fumaça, terra molhada, mato bravo. Envolveu ela sem prender. Sem cobrar nada.

Os dedos de Zarek fecharam no pulso dela. Sem aperto bruto. Só sustentando. O polegar calejado roçou devagar a pele da mão de Maia.

Aquele roçar manso mandou um arrepio quente pela espinha dela. Um calor diferente. Desejo, talvez — mas nascido ali, da escolha, do toque. Não de laço nenhum empurrando o corpo dela pra cima de ninguém.

Zarek olhou a mão dela na dele. Depois subiu o olhar pro peito de Maia, onde o tecido rasgado mostrava a beirada da cicatriz nova.

— O rompimento deixa marca no corpo pra sempre.

A voz baixou pela proximidade.

— Mas você continua de pé. Isso conta mais do que a coroa que ele te tirou.

Maia puxou a mão devagar. A pele ainda formigava no lugar do toque. A respiração veio um pouco curta, calor subindo pelo pescoço.

— Pra onde você vai me levar?

Ela ajustou a capa nos ombros, forçando a voz a não tremer.

Zarek puxou a braçadeira de volta, cobrindo a cicatriz do pulso. Encarou Maia. O olho amarelo veio sério.

— Tem uma rede inteira de mulher como você escondida nessas montanhas.

Cruzou os braços.

— Um lugar que o Conselho do Norte tenta destruir há gerações e nunca achou o portão principal. Chamam de Jardim.

Maia franziu a testa. O nome cutucou uma memória velha.

— Eu já vi esse nome num mapa antigo da biblioteca do meu pai. Achava que era uma lenda.

— Não é lenda. É o único lugar seguro pra quem carrega essa marca no peito.

Zarek deu meio passo pro lado, apontando a saída dos fundos.

— Eu te levo até a entrada. Mas aviso logo: o Jardim tem regra própria. E você pode não gostar do preço que cobram pra te deixar passar.

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