Mundo de ficçãoIniciar sessãoO ar gelado arranhava o nariz de Maia a cada puxada curta de ar. A neve escondia pedras e raízes tortas. Um passo errado e ela ia de cara no chão. Ela avançava sem olhar pra trás, enfiando as botas no escuro dos pinheirais da fronteira norte.
A garganta ardia. O peito doía feito ferro quente no meio das costelas. As pernas tremiam, mas aquilo no peito era pior. Ali, onde o vínculo com Aren tinha sido arrancado horas atrás, a carne repuxava quente e dura. A cicatriz prateada latejava no mesmo ritmo do sangue batendo na têmpora. Maia parou. Apoiou a mão no tronco áspero de um pinheiro velho. O suor frio escorria da testa e gelava no queixo antes de cair na neve. A floresta ficava quieta. Só o estalo de galho sob gelo e a respiração dela, feia, ofegante. Ela fechou os olhos. O salão de pedra voltou na cabeça dela de uma vez. Doeu. O rosto de Aren. Frio. Longe. A cicatriz queimando no peito dela enquanto ele dava um passo pra trás. O sorriso miúdo da matriarca. A tia Nara sendo jogada no chão pelos guardas. A garganta fechou. Ela engoliu o choro na marra. Não dava pra fraquejar agora. Chorar não ia fechar aquela dor no peito. Nem ia impedir o frio de matar ela ali. Tinha que continuar andando. Meter o máximo de distância possível da Alcateia do Norte. Um uivo veio de longe. Veio no vento. Grave. Seco. Ordem pura. Maia travou. Os braços arrepiaram sob o vestido rasgado. Não era lobo selvagem. Era chamada de caça. Guarda do Alfa. Aren cumpriu a promessa. Mandou os homens dele. Maia se jogou atrás do tronco, joelhos afundando na neve gelada. O coração batia tão forte que doía no peito. Por que a guarda dele? Pra expulsar ela de vez… ou pra calar a boca da Luna rejeitada antes que envergonhasse o Alfa na frente das outras alcateias? Estalo de galho seco. Menos de vinte metros à esquerda. Maia prendeu o ar, peito colado na casca do pinheiro. Os olhos vasculharam o escuro entre as árvores. Duas figuras saíram do meio dos arbustos. Não eram da guarda de elite. Capas pretas pesadas, sem marca da matilha. Lâminas longas e escuras. Andavam quietos demais pra ser patrulha comum. — Acharam rastro? A voz saiu baixa, áspera. — Ainda não. — O outro parou a poucos metros dela. — A garota tá ferida pelo rompimento do laço. Não foi longe com aquele buraco no peito. — Acha ela antes dos batedores do Supremo. O Ancião foi claro: se a guarda do Alfa pegar primeiro, Aren mantém ela viva pra interrogar. E o Conselho não pode deixar essa garota abrir a boca. A nuca de Maia gelou. Não era gente do Alfa. Era Conselho Lunar. Não era só banimento pra limpar a honra da alcateia. Queriam ela morta. A rejeição na frente da matilha tinha sido só o começo. Tinha coisa maior. Um segredo que ela nem sabia que carregava — e por causa dele os anciãos mandavam caçador escondido pra matar ela no meio do mato. Maia recuou devagar. Milímetro por milímetro. Bota deslizando na neve. Mão tremendo. Dente cerrado. Ficar ali era morrer antes do sol nascer. Correr pra guarda de Aren era virar prisioneira do homem que tinha acabado com ela. Mais um passo pra trás. Buscou apoio. A bota direita pisou em falso num galho enterrado no gelo. O estalo da madeira seca estourou na noite quieta. — Ali! Maia não pensou. Disparou ladeira abaixo. Músculo gritando. Vista escurecendo nas beiradas. Galho seco chicoteou o rosto, cortou a bochecha. Ela nem freou. Saltou pedra, tronco, o que viesse. Atrás, passos pesados na neve. Rápidos. Firmes. Eles não estavam partidos por dentro como ela. O terreno caiu de repente. Maia tentou frear. A sola gasta escorregou na lama congelada. Perdeu o chão. Rolou encosta abaixo e bateu duro num rochedo coberto de musgo. O impacto tirou o ar. Ela ficou de costas, vista tremendo, corpo inteiro latejando. Quando conseguiu levantar a cabeça, viu: não tinha pra onde ir. Atrás do rochedo, o chão acabava. Desfiladeiro fundo. Pedra afiada embaixo. Rio gelado batendo com força. Passos lentos no topo da encosta. Os dois desceram devagar, fechando ela contra o abismo. O mais alto ergueu a lâmina preta. O luar bateu no fio. — Acabou, garota. A voz vinha sem calor nenhum. — O Conselho manda lembranças. Ele deu um passo. Ergueu a espada pro golpe final. Maia travou o dente e tateou o chão atrás de uma pedra. Ia lutar com o que tivesse. A lâmina subiu. Uma sombra enorme pulou do rochedo acima da cabeça dela. O baque foi feio. Um lobo negro enorme pegou o caçador no ar e jogou o homem no chão. Osso estalou. O grito ecoou no desfiladeiro. O outro recuou dois passos. Ergueu a espada com a mão tremendo. O lobo negro ficou entre Maia e o último homem. Maior do que qualquer lobo da Alcateia do Norte que ela já tinha visto. Cicatriz feia no focinho e no ombro esquerdo. Olho amarelo, duro, preso no armado. O rosnado dele veio baixo e grosso. Maia sentiu no chão. O lobo avançou. Dois movimentos. Desarmou o segundo e jogou o homem na parede de pedra. O corpo caiu desacordado na neve. O silêncio voltou. Maia ainda no chão. Peito subindo e descendo sem controle. Costas na rocha. Olhando aquele bicho enorme. Salva… ou próxima refeição? O lobo virou a cabeça devagar. Os olhos amarelos acharam os dela. O corpo dele mudou. Pelo preto recolhendo. Ossos ajeitando. Em segundos, um homem alto estava de pé na frente dela, no luar. Cabelo escuro bagunçado. Cicatriz no peito nu, no meio daquele frio todo. O mesmo olho amarelo de antes. Sem traje de nobre. Sem marca do Norte. Cheiro de Oeste: terra molhada, fumaça, mato molhado. Ele deu um passo na direção dela. Não tocou. Não mandou ajoelhar. Não fez pose de dono. O olhar desceu pra cicatriz prateada no peito de Maia e subiu de volta pros olhos dela. A voz dele saiu grave, rouca: — Você tem dez segundos antes da guarda do seu Alfa Supremo chegar nessa ravina. Pode ficar e descobrir se ele te salva ou te prende… ou vem comigo e continua viva. Escolhe.






