Início / Lobisomem / A LUNA DO ALFA SEM VOZ / ✦ CAPÍTULO 6 — O PESO DA VOZ
✦ CAPÍTULO 6 — O PESO DA VOZ

A noite caiu depressa sobre o Norte.

Tão densa que até o fogo parecia frio.

O rugido do Alfa ainda ecoava nas muralhas quando as primeiras rajadas de vento começaram a soprar.

A tempestade vinha das montanhas — um reflexo daquilo que acontecera dentro dele.

Lobos corriam pelos pátios, uivando sem entender se comemoravam ou lamentavam.

No salão, o Conselho se dispersava em desordem.

Erynn tentava conter Sigrid e Maelor, enquanto Ronan dava ordens aos guardas para fechar os portões.

O ar estava carregado demais — parecia que o castelo respirava junto com o Alfa.

Helena, porém, não se movia.

Ficou ali, imóvel, vendo Kael de pé no centro do salão, o corpo tenso, a cicatriz brilhando em prata e vermelho.

O sangue escorria lentamente do pescoço, e cada gota que tocava o chão parecia vibrar, como se tivesse vida própria.

Ela se aproximou.

— Precisa de ajuda.

Ronan segurou o braço dela.

— Não o toque.

— Ele está ferido!

— E ferido, pode destruir tudo ao redor.

Helena tentou se soltar, mas Ronan a manteve firme.

— A voz dele é como o vento — disse, com gravidade. — Quando sopra, ninguém controla. Nem ele.

Kael ergueu o rosto.

Os olhos dele encontraram os de Helena, e a força do olhar bastou para que Ronan a soltasse.

O Alfa caminhou até ela, cambaleando, o corpo pesando como se cada passo fosse uma batalha.

Quando parou diante dela, a distância entre os dois era só de um sopro.

Helena sentiu o calor do sangue dele no ar.

A cicatriz pulsava.

O selo em seu ombro respondeu com uma luz fraca.

Ela ergueu a mão.

Não sabia se por impulso, ou por coragem.

Os dedos tocaram o rosto dele — e o frio que a cercava desapareceu.

O corpo de Kael estremecia.

A respiração dele vinha curta, como se lutasse contra algo dentro de si.

Quando Helena tocou o pescoço dele, o ar pareceu parar.

Por um segundo, tudo silenciou.

Depois, veio o som.

Não uma voz — mas o coração dele.

Rápido. Dolorido. Humano.

Helena fechou os olhos, sentindo-o pulsar sob os dedos.

— Está queimando por dentro — murmurou. — A voz ainda está viva.

Kael levou a mão ao peito e, pela primeira vez, ela entendeu o gesto.
Dor.

Ronan se aproximou, preocupado.

— O Alfa precisa ser levado à câmara de repouso.

Erynn assentiu.

— A voz desperta consome o corpo. A febre do rugido já começou.

Do lado de fora, trovões ressoaram, e o vento bateu nas janelas com força.

Helena olhou em volta — o castelo inteiro tremia.

Kael tentou dar um passo, mas as pernas falharam.

Helena o segurou antes que caísse.

O peso dele quase a derrubou, mas ela resistiu.

Quando os olhos dele se fecharam, a cicatriz acendeu em prata viva.

— Leve-o! — gritou Erynn.

Ronan e dois guardas o ergueram, enquanto Helena os seguia.

Subiram os degraus em pressa até a torre mais alta, onde o vento entrava pelas fendas e fazia as tochas dançarem.


Na câmara do Alfa, o fogo rugia na lareira, mas o frio era mais forte.

Kael foi deitado sobre a pele do urso branco, e Erynn começou a preparar as ervas.

Helena ajoelhou-se ao lado dele, observando o rosto tenso, o suor frio, os dedos fechados com força.

— A voz tenta sair — disse Erynn, misturando folhas no almofariz. — O corpo não foi feito para conter tanto poder duas vezes.

Helena olhou para a cicatriz.

— E se eu puder ajudá-lo?

A anciã a fitou com desconfiança.

— Ajudar pode significar morrer.

— Ou salvá-lo. — A voz de Helena era firme. — Eu sinto o que ele sente.

Ronan se voltou, incrédulo.

— O quê?

Helena tocou o ombro.

A marca brilhou.

— Quando ele fala, eu queimo. Quando ele sangra, eu sinto. — Ela olhou para Kael. — Se ele cair, eu caio também.

Erynn respirou fundo, resignada.

— Então és mesmo a ponte.

— E pontes não recuam — respondeu Helena.

A anciã estendeu a mão.

— Coloca a tua sobre a dele. Mas, se o vento mudar, solta.

Helena obedeceu.

O toque foi como mergulhar em um lago gelado e em chamas ao mesmo tempo.

O corpo dela foi tomado por uma vertigem, e imagens começaram a surgir.

Campos cobertos de sangue.

Lobos de olhos brancos.

Lyra, sorrindo sob a lua, antes de cair.

Helena ofegou, as lágrimas caindo sem controle.

Kael abriu os olhos.

O azul deles agora tinha prata misturada.

Por um instante, ela viu — e ele a viu.

Não como estranhos.

Mas como quem já se amou em outra vida.

Tu és o que ficou.

A voz dele ecoou dentro da mente dela.

Ela respondeu, sem saber como:

E tu és o que retorna.

As chamas na lareira se ergueram em turbilhão.

Erynn recuou, o cajado vibrando em luz.

Ronan se curvou, protegendo o rosto.

Helena manteve a mão sobre a dele até o vento cessar.

Quando tudo parou, Kael respirava de novo — devagar, profundo.

A febre o deixara pálido, mas vivo.

Erynn se ajoelhou ao lado.

— Ele vai viver. Por enquanto.

Helena ainda tremia.

— O que foi isso?

— O eco se estabilizou. — A anciã sorriu de leve. — O Norte tem dois corações agora.

Helena olhou para Kael, adormecido.

Os dedos dele ainda seguravam a mão dela, mesmo inconsciente.

Do lado de fora, o vento se acalmava.

Mas, entre os flocos de neve, um som novo percorreu o vale — baixo, ritmado, quase uma canção.

Era o rugido do Alfa, misturado à voz de uma mulher.

Duas forças que, por fim, se reconheciam.

E no coração do Norte, algo sagrado voltou a respirar.

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