A noite caiu depressa sobre o Norte.
Tão densa que até o fogo parecia frio.
O rugido do Alfa ainda ecoava nas muralhas quando as primeiras rajadas de vento começaram a soprar.
A tempestade vinha das montanhas — um reflexo daquilo que acontecera dentro dele.
Lobos corriam pelos pátios, uivando sem entender se comemoravam ou lamentavam.
No salão, o Conselho se dispersava em desordem.
Erynn tentava conter Sigrid e Maelor, enquanto Ronan dava ordens aos guardas para fechar os portões.
O ar estava carregado demais — parecia que o castelo respirava junto com o Alfa.
Helena, porém, não se movia.
Ficou ali, imóvel, vendo Kael de pé no centro do salão, o corpo tenso, a cicatriz brilhando em prata e vermelho.
O sangue escorria lentamente do pescoço, e cada gota que tocava o chão parecia vibrar, como se tivesse vida própria.
Ela se aproximou.
— Precisa de ajuda.
Ronan segurou o braço dela.
— Não o toque.
— Ele está ferido!
— E ferido, pode destruir tudo ao redor.
Helena tentou se soltar, mas Ronan a manteve firme.
— A voz dele é como o vento — disse, com gravidade. — Quando sopra, ninguém controla. Nem ele.
Kael ergueu o rosto.
Os olhos dele encontraram os de Helena, e a força do olhar bastou para que Ronan a soltasse.
O Alfa caminhou até ela, cambaleando, o corpo pesando como se cada passo fosse uma batalha.
Quando parou diante dela, a distância entre os dois era só de um sopro.
Helena sentiu o calor do sangue dele no ar.
A cicatriz pulsava.
O selo em seu ombro respondeu com uma luz fraca.
Ela ergueu a mão.
Não sabia se por impulso, ou por coragem.
Os dedos tocaram o rosto dele — e o frio que a cercava desapareceu.
O corpo de Kael estremecia.
A respiração dele vinha curta, como se lutasse contra algo dentro de si.
Quando Helena tocou o pescoço dele, o ar pareceu parar.
Por um segundo, tudo silenciou.
Depois, veio o som.
Não uma voz — mas o coração dele.
Rápido. Dolorido. Humano.
Helena fechou os olhos, sentindo-o pulsar sob os dedos.
— Está queimando por dentro — murmurou. — A voz ainda está viva.
Kael levou a mão ao peito e, pela primeira vez, ela entendeu o gesto.
Dor.Ronan se aproximou, preocupado.
— O Alfa precisa ser levado à câmara de repouso.
Erynn assentiu.
— A voz desperta consome o corpo. A febre do rugido já começou.
Do lado de fora, trovões ressoaram, e o vento bateu nas janelas com força.
Helena olhou em volta — o castelo inteiro tremia.
Kael tentou dar um passo, mas as pernas falharam.
Helena o segurou antes que caísse.
O peso dele quase a derrubou, mas ela resistiu.
Quando os olhos dele se fecharam, a cicatriz acendeu em prata viva.
— Leve-o! — gritou Erynn.
Ronan e dois guardas o ergueram, enquanto Helena os seguia.
Subiram os degraus em pressa até a torre mais alta, onde o vento entrava pelas fendas e fazia as tochas dançarem.
Na câmara do Alfa, o fogo rugia na lareira, mas o frio era mais forte.
Kael foi deitado sobre a pele do urso branco, e Erynn começou a preparar as ervas.
Helena ajoelhou-se ao lado dele, observando o rosto tenso, o suor frio, os dedos fechados com força.
— A voz tenta sair — disse Erynn, misturando folhas no almofariz. — O corpo não foi feito para conter tanto poder duas vezes.
Helena olhou para a cicatriz.
— E se eu puder ajudá-lo?
A anciã a fitou com desconfiança.
— Ajudar pode significar morrer.
— Ou salvá-lo. — A voz de Helena era firme. — Eu sinto o que ele sente.
Ronan se voltou, incrédulo.
— O quê?
Helena tocou o ombro.
A marca brilhou.
— Quando ele fala, eu queimo. Quando ele sangra, eu sinto. — Ela olhou para Kael. — Se ele cair, eu caio também.
Erynn respirou fundo, resignada.
— Então és mesmo a ponte.
— E pontes não recuam — respondeu Helena.
A anciã estendeu a mão.
— Coloca a tua sobre a dele. Mas, se o vento mudar, solta.
Helena obedeceu.
O toque foi como mergulhar em um lago gelado e em chamas ao mesmo tempo.
O corpo dela foi tomado por uma vertigem, e imagens começaram a surgir.
Campos cobertos de sangue.
Lobos de olhos brancos.
Lyra, sorrindo sob a lua, antes de cair.
Helena ofegou, as lágrimas caindo sem controle.
Kael abriu os olhos.
O azul deles agora tinha prata misturada.
Por um instante, ela viu — e ele a viu.
Não como estranhos.
Mas como quem já se amou em outra vida.
Tu és o que ficou.
A voz dele ecoou dentro da mente dela.
Ela respondeu, sem saber como:
E tu és o que retorna.
As chamas na lareira se ergueram em turbilhão.
Erynn recuou, o cajado vibrando em luz.
Ronan se curvou, protegendo o rosto.
Helena manteve a mão sobre a dele até o vento cessar.
Quando tudo parou, Kael respirava de novo — devagar, profundo.
A febre o deixara pálido, mas vivo.
Erynn se ajoelhou ao lado.
— Ele vai viver. Por enquanto.
Helena ainda tremia.
— O que foi isso?
— O eco se estabilizou. — A anciã sorriu de leve. — O Norte tem dois corações agora.
Helena olhou para Kael, adormecido.
Os dedos dele ainda seguravam a mão dela, mesmo inconsciente.
Do lado de fora, o vento se acalmava.
Mas, entre os flocos de neve, um som novo percorreu o vale — baixo, ritmado, quase uma canção.
Era o rugido do Alfa, misturado à voz de uma mulher.
Duas forças que, por fim,
se reconheciam.
E no coração do Norte, algo sagrado voltou a respirar.