Três dias se passaram desde o rugido.
O castelo não dormiu em nenhum deles.
As muralhas estremeciam a cada rajada de vento, e os lobos não paravam de uivar.
Diziam que o Norte estava acordando — e que isso nem sempre era uma bênção.
Helena não saiu da torre.
Passava as noites vigiando o Alfa adormecido, o rosto dele pálido, o peito subindo devagar.
A cada suspiro, a marca em seu ombro pulsava, respondendo como se respirassem o mesmo ar.
Ela tentava se convencer de que era apenas instinto, uma ligação forjada pela magia antiga, mas sabia que era mais do que isso.
Quando fechava os olhos, via flashes que não eram dela — mãos sujas de sangue, neve tingida de vermelho, olhos de uma mulher sorrindo sob a lua.
Lyra.
O nome queimava em sua mente como uma lembrança emprestada.
E, no entanto, cada vez que pensava nela, a marca acendia — não de dor, mas de saudade.
Na terceira manhã, o som dos sinos quebrou o silêncio.
Três toques longos.
O Conselho convocava julgamento.
O salão estava lotado.
Os estandartes tremulavam com o vento que entrava pelas janelas, e os anciãos já esperavam diante do trono de pedra.
Maelor, Sigrid e Halv, vestidos com mantos pesados, tinham rostos duros como gelo.
Kael ainda não estava ali.
Helena entrou escoltada por dois guardas.
Os murmúrios cessaram quando ela cruzou o portal.
Ronan a seguia, em silêncio, o olhar firme — mas havia algo diferente nele, uma hesitação que não existia antes.
Sigrid foi a primeira a falar.
— Trouxeste o vento consigo, criança. E com o vento, o caos.
Helena manteve a postura.
— Não fui eu quem o chamou.
— Mas respondeste — retrucou Maelor. — E isso basta.
Halv deu um passo à frente, mais cauteloso.
— O Alfa está doente. A febre do rugido voltou. Há sinais de desequilíbrio em toda a fronteira.
— E achas que fui eu quem o causou? — Helena perguntou.
— Achamos que és o espelho — respondeu Sigrid. — O reflexo de algo que devia permanecer morto.
Helena respirou fundo, sentindo o peso do olhar de todos sobre ela.
— Eu o salvei.
— Salvaste? — Maelor riu, seco. — Ou o amarraste à tua própria voz?
Antes que ela pudesse responder, um som ecoou pelo corredor: passos pesados, firmes.
As portas se abriram.
Kael Dravik entrou.
O silêncio foi total.
A presença dele encheu o salão como um trovão contido.
O Alfa caminhava devagar, ainda pálido, mas com os olhos mais frios do que nunca.
A cicatriz em seu pescoço brilhava sob a luz das tochas — uma marca de poder, não mais de dor.
Helena sentiu o corpo reagir antes da mente.
A marca dela pulsou, e o ar entre os dois vibrou em uma nota que só eles podiam ouvir.
Maelor deu um passo à frente.
— Alfa, o Conselho exige explicações.
Kael não respondeu.
Ronan se adiantou, falando por ele:
— O Alfa não deve explicações.
— O Norte exige ordem! — gritou Sigrid. — E o silêncio dele não basta mais!
O vento soprou pelas janelas, apagando algumas tochas.
Kael ergueu o olhar, e o salão inteiro pareceu prender o ar.
O gesto bastou para silenciar todos os presentes.
Erynn surgiu atrás do trono, apoiando-se no cajado.
— O silêncio do Alfa é o que mantém este vale de pé — disse. — Mas talvez o Norte tenha esquecido o preço que cobrou dele.
Maelor apertou os punhos.
— O preço foi pago. E agora está sendo traído.
Helena deu um passo à frente.
— Fui trazida aqui contra a minha vontade. Fui marcada, julgada e agora acusada por algo que nem compreendo.
— És o eco — respondeu Maelor. — E ecos repetem o som até que o mundo se quebre.
O ar começou a vibrar de novo.
As tochas tremulavam.
Helena sentiu a raiva subir, quente e viva.
A voz veio sem que ela planejasse:
— E se o que vocês chamam de eco for o que ainda os mantém vivos?
O som das palavras dela soou mais alto do que deveria.
A marca brilhou.
E, por um instante, todos ouviram — não a voz de Helena, mas algo por trás dela:
um rugido, um canto, uma lembrança.
Kael se moveu.
Um passo à frente, a mão levantada, ordenando silêncio.
A cicatriz dele pulsava no mesmo ritmo da marca dela.
Erynn fechou os olhos.
— A ponte respira.
Maelor olhou para o Alfa.
— Não vês o que acontece? Ela o controla.
Ronan deu um passo à frente.
— Ninguém controla o Alfa.
— Então prova — rosnou Maelor. — Fala.
O desafio cortou o ar como lâmina.
Helena o olhou, assustada.
Kael manteve o rosto sereno.
Por um instante, todos acharam que ele obedeceria.
Mas o Alfa apenas fechou os olhos e virou-se para ela.
Helena sentiu o gesto — como uma brisa leve tocando o rosto.
Entendeu o que ele dizia sem palavras:
não preciso provar nada.Sigrid quebrou o silêncio.
— Se o Alfa não fala, o Conselho decide.
Erynn ergueu o cajado.
— Cuidado, Sigrid. Há ventos que não se dobram.
Kael avançou dois passos.
O olhar dele era uma sentença.
Sem falar, ergueu o punho e o desceu sobre o próprio peito — o juramento dos antigos.
O som ecoou, pesado, final.
Ronan traduziu a todos, em voz alta:
— O Alfa declara sob sangue e silêncio que
Helena Morel é parte do Norte.
Os murmúrios cresceram, assustados.
Sigrid recuou, indignada.
— Um juramento? Diante do Conselho?
— Um vínculo — corrigiu Erynn. — E vínculos no Norte não se quebram.
Helena respirava rápido.
Não sabia se devia agradecer, fugir ou chorar.
Kael olhou para ela — e, pela primeira vez, ela viu ternura naquele gelo.
Maelor se curvou sobre o trono, derrotado.
— Então que o Norte aguente o que virá.
Sigrid virou o rosto para a neve além da janela.
— O eco trouxe o amor de volta. E o amor sempre chama a guerra.
O vento soprou, levando a última palavra para fora do salão.
Lá fora, no horizonte, uma sombra movia-se na linha das montanhas.
As bandeiras do Sul tremulavam ao longe.
E o Norte, mais uma vez, segurou o fôlego.