Eu não deveria ter ouvido.
Mas ouvi.
A mansão tinha essa característica estranha de parecer silenciosa demais quando algo importante estava prestes a acontecer. Os corredores longos carregavam ecos mesmo quando ninguém falava alto. As paredes guardavam vozes como se fossem cúmplices involuntárias de segredos antigos.
Eu vinha da ala leste, levando um copo de água para Aurora, quando escutei.
Primeiro, tons baixos demais para distinguir palavras. Depois, o aumento gradual da tensão. Não eram gritos. Henrico não gritava quando perdia o controle. Ele ficava mais perigoso quando falava baixo.
Parei instintivamente.
A porta do escritório estava fechada, mas não completamente. Uma fresta mínima deixava escapar a luz e as vozes. Reconheci uma delas imediatamente.
Henrico.
A outra era desconhecida para mim, mas o tom era firme, técnico, treinado para não se abalar com emoção.
Advogado.
— Isso não é mais uma possibilidade — a voz masculina disse. — É uma ameaça concreta.
— Eu sei lidar com ame