Eu não soube dos e-mails naquele momento.
Soube primeiro da mudança no ar.
Era sempre assim com Henrico. Antes de qualquer palavra, antes de qualquer explosão, vinha aquela alteração quase imperceptível na casa. O silêncio ficava mais rígido. Os funcionários se moviam com cuidado dobrado. As ordens chegavam truncadas, dadas por intermediários, como se ele tivesse recuado para algum lugar interno onde ninguém mais alcançava.
Henrico estava diferente desde cedo.
Não ausente.
Presente demais.
Ele cruzou comigo no corredor principal naquela manhã sem dizer uma palavra, mas o olhar demorou. Não como antes, quando havia tensão ou desejo mal resolvido. Agora havia cálculo. Algo sendo pesado, medido, contido.
Aurora estava na sala de leitura, desenhando sentada perto da janela. A luz da manhã iluminava o papel, e pela primeira vez em dias, ela parecia tranquila. Eu me sentei ao lado dela, observando os movimentos lentos do lápis.
— Hoje você está desenhando diferente — comentei.
Ela assentiu.