A sensação não veio como um choque.
Veio como uma constatação lenta, pesada, que se infiltra no corpo quando todas as peças começam a se encaixar de um jeito que ninguém queria admitir. Não houve grito, não houve susto imediato. Houve entendimento. E o entendimento é sempre mais assustador.
Eu estava em um ambiente muito mais perigoso do que imaginava.
Perigoso não porque alguém gritava comigo. Não porque portas batiam ou ameaças eram feitas em voz alta. Mas porque tudo ali funcionava sob uma lógica própria, silenciosa, onde as regras mudavam conforme a conveniência de quem tinha poder.
E eu estava dentro.
Passei a reparar em coisas que antes pareciam detalhes irrelevantes. O número de câmeras. A forma como os funcionários evitavam certos corredores. As conversas interrompidas quando eu me aproximava. A troca constante de turnos, como se ninguém permanecesse tempo suficiente para criar raízes.
Aquilo não era uma casa.
Era um sistema.
E sistemas não gostam de variáveis.
Eu era uma vari