As perguntas não nasceram de curiosidade.
Nasceram de inquietação.
Elas se instalaram dentro de mim desde a manhã, depois das vozes sussurradas na copa, depois do nome dito em tom de medo, depois da palavra morte usada como se fosse um acordo silencioso. Eu tentei seguir a rotina. Tentei fingir normalidade. Tentei me concentrar em Aurora, nos desenhos, nas pequenas conquistas que ela vinha fazendo dia após dia.
Mas algo tinha rachado.
Aurora desenhava sentada no tapete da sala de música, concentrada demais. O traço era mais forte, mais repetitivo. Portas. Janelas. Figuras femininas sem rosto. Observei aquilo por alguns minutos e senti o peso de uma certeza incômoda: as crianças não esquecem. Elas apenas aprendem a calar.
Henrico entrou no ambiente sem aviso.
Eu percebi a presença dele antes de ouvir os passos. O ar mudou. Aurora também percebeu. O lápis pausou por um segundo antes de continuar o movimento mecânico no papel.
— Está tudo bem? — ele perguntou, olhando primeiro para a fil