Depois da discussão com Henrico, a casa entrou em um estado estranho de contenção. Não houve gritos. Não houve confrontos diretos. Mas algo tinha sido acionado. Como um mecanismo antigo, silencioso, que se movimentava nos bastidores sempre que alguém se aproximava demais de uma porta que deveria permanecer fechada.
Eu sentia isso no jeito como os funcionários me olhavam. Não com hostilidade aberta, mas com cuidado excessivo. Como se qualquer palavra pudesse ser usada contra eles. Como se qualquer gesto pudesse ser interpretado como traição.
Aurora passou o resto da tarde mais calada do que o normal. Sentou-se perto de mim, encostada, desenhando em silêncio, mas o corpo estava tenso. De vez em quando, ela levantava o rosto e olhava ao redor, como se esperasse algo. Ou alguém.
O medo dela não era novo.
Mas agora eu começava a entender de onde vinha.
Quando a noite caiu, fui orientada a levar Aurora para o quarto mais cedo. Não questionei. Estava cansada demais para outro confronto. Ajud