Continuação...

Riccardo me observa por um instante antes de falar, como se estivesse medindo cada palavra.

— Amanhã você vai ver com seus próprios olhos como a minha princesa é “feia”. — O tom dele endurece de repente. — Mas já aviso: nunca diga isso na frente dela. Tenha cuidado… ela não é alguém com quem se brinca.

Faço um leve aceno, sem interromper.

— Já ia me esquecer… — ele continua, cruzando as mãos sobre a mesa. — Nossa família tem anos de acordos com outras máfias. Lavamos dinheiro através da empresa de cosméticos. Como sua família não gosta desse tipo de operação, fazemos isso por vocês também. Nada sai de graça, claro… mas vou te enviar os contratos com todo o histórico.

Quando menciona a filha, um sorriso discreto surge no rosto dele — rápido, quase involuntário. Aquilo me chama atenção mais do que qualquer outra coisa.

— O casamento é necessário — diz, agora mais baixo. — Sei que ela vai me odiar por isso. Mas não concordo com o rumo que a vida dela está tomando… e é aí que você entra.

Eu permaneço em silêncio.

— Quero que mostre a ela que existe mais na vida do que sangue e corpos. — Ele me encara diretamente. — Mesmo de longe, sei que você não tem o espírito do seu pai… você puxou à sua mãe.

Algo aperta no meu peito.

— Espero que entenda… e que não me odeie por isso. — Ele respira fundo, então completa: — Talvez, um dia, você possa me chamar de padrinho.

Ele desliza os documentos pela mesa na minha direção.

— O contrato de casamento está entre eles. Pense com calma.

Seguro os papéis, sentindo um peso que não vem do papel — vem do que aquilo representa.

Por um instante, uma ideia incômoda me atravessa: eu gostaria que meu pai tivesse sido assim comigo.

Se o que ele sente por ela for real…

Eu quero fazer parte disso.

— Padrinho… tem uma caneta? — Minha voz sai mais firme do que eu esperava. — Vou assinar.

O sorriso dele se abre de verdade dessa vez — quente, sincero.

É estranho… mas eu gosto disso.

Leio tudo com atenção. Cláusulas, números, acordos — tudo vantajoso. Tudo calculado.

Até chegar ao contrato de casamento.

Um acordo entre máfias.

Levanto o olhar, questionando em silêncio.

— Foi o único jeito de fazê-la considerar — ele responde, sem hesitar.

E, por algum motivo… eu acredito.

Assino.


Naquela noite, fico em um hotel escolhido por ele. Meu braço direito desaparece pela cidade, provavelmente perdido entre bebidas e mulheres.

Eu, não.

Eu só consigo pensar no dia seguinte.


O DIA CHEGA COMO UM SOCORRO — OU UMA SENTENÇA.

Durmo profundamente, mas acordo com o coração acelerado.

Duas horas.

Duas horas até conhecer minha noiva.

Me arrumo rápido: terno preto, corte impecável, gravata ajustada com precisão. Os sapatos refletem a luz do quarto.

O café desce amargo. Não consigo comer.

Minhas mãos traem meu controle por um segundo ao fechar a jaqueta.

Quando desço, o carro já está à espera.

Preto. Impecável. Silencioso.

Meu primo vem logo atrás, em outro veículo, com a expressão típica de quem não deveria ter bebido tanto.

Seguimos direto para o prédio dos La Blanc.

A recepção é fria, elegante, calculada.

— Por favor, aguardem — diz a secretária.

Mas não esperamos.

A porta se abre com força.

Riccardo surge.

— Podem entrar.

A sala é ampla, cercada por vidro, com a cidade inteira aos pés.

Mas eu não vejo nada disso.

Só vejo ela.

De costas, diante da janela.

Os cabelos loiros caem como uma cascata sobre os ombros nus. A postura é firme, inabalável.

Ela sabe que estamos ali.

Mesmo assim, demora a se virar.

E quando se vira…

O mundo para.

Literalmente.

Meu corpo esquece como reagir.

Os olhos dela me atingem primeiro — intensos, vivos, perigosos.

O rosto… não é delicado.

É forte.

Marcante.

Indomável.

A pequena cicatriz na testa não quebra a beleza.

Ela a completa.

Ela me encara de cima a baixo, sem pressa.

Sem vergonha.

Sem medo.

— Então você é o idiota que vai me obrigar a casar? — A voz dela corta o silêncio como uma lâmina. — Eu sou Lis La Blanc. E já aviso: não pertenço a ninguém.

Algo dentro de mim desperta.

Algo que eu não reconheço — mas também não quero controlar.

Dou alguns passos à frente.

— Angelo Hernandes. — Sustento o olhar dela. — Não vim dominar você. Mas também não vou ser controlado.

Um sorriso surge.

Perigoso.

Provocador.

— Ótimo. — Ela inclina levemente a cabeça. — Eu detesto homens fracos.

O ar entre nós muda.

— Então vamos direto ao ponto — ela continua. — Esse contrato… não vai existir sem que eu tenha voz nele.

Agora eu entendo.

Isso nunca foi sobre casamento.

É sobre poder.

E, pela primeira vez em muito tempo…

Eu estou interessado.


E ENTÃO ACONTECE.

Ela me olha de novo.

E algo em mim simplesmente… cede.

O ar fica mais pesado.

Ou sou eu que esqueço de respirar.

Não sei.

Só sei que, naquele instante, tudo perde importância.

O contrato.

A máfia.

O passado.

Tudo desaparece.

Só existe ela.

A forma como ocupa o espaço.

A forma como me encara sem recuar.

A forma como… me desafia.

Ela não é linda de um jeito comum.

Ela é perigosa.

E eu não consigo desviar.

Uma certeza absurda cresce dentro de mim, rápida, inevitável.

Eu quero protegê-la.

Quero entendê-la.

Quero quebrar cada parede que ela construiu.

E isso não faz sentido.

Nenhum.

Mas também não importa.

Quando falo de novo, minha voz já não é a mesma.

— Não estou aqui por obrigação.

Ela arqueia uma sobrancelha.

— Então por quê?

Seguro o olhar dela.

E, pela primeira vez em muito tempo, respondo sem cálculo:

— Ainda estou descobrindo.

O sorriso dela não desaparece.

Mas muda.

Fica mais… real.

E mais perigoso.

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