CAPÍTULO 2: A CARTA QUE MUDOU TUDO

   Angelo Hernandes.

O dia está nublado e combina com o meu humor. Estou no velório do meu pai — ele morreu de infarto, uma morte tranquila para quem mexeu com máfia. Mas o que me incomoda não é a sua partida repentina — nunca nos demos bem. É o fato de ele ter quase falido todo o negócio da família e deixado que eu assumisse essa dívida. Não tenho ideia de como vou reverter a situação, mas sei que vou ter que quebrar alguns ossos e me sujar de sangue...

Saio do velório e vou para a mansão onde ele morava. Bem na entrada, o meu primo já está me esperando.

— Como foi o velório do tio? — ele pergunta.

— E como acha que seria um velório? — Respondo com sarcasmo.

— Eu entendo... Esse clima não combina com a minha personalidade! Enfim, quero saber se já tem uma solução para os nossos problemas? — Nem cheguei em casa e já me questiona sobre a nossa situação.

— Sei bem o que combina com a sua personalidade: uma puta loura de 1,70 ao seu lado direito segurando um copo de whisky, e outra ruiva de 1,60 segurando um charuto. Mas deixando isso de lado, vamos entrar e ver o que dá para ser feito.

Meu primo Emílio Morris é de uma parte distante da família. Já eu recebi a maravilhosa honra de ser o herdeiro de toda a máfia Hernandes — mas não é isso que importa agora. Nosso império não é tão grande: mexemos com drogas e algumas boates, um sistema não tão complicado. Mas meu pai repudiava investir o dinheiro em uma empresa para lavar o dinheiro com mais cautela. Nunca entendi esse lado dele — toda vez que tocávamos no assunto, brigávamos. Claro que nunca foi novidade a gente brigar!

O motivo de não nos darmos bem é simples: o casamento do meu pai foi por dinheiro e poder, a única coisa que o motivava. Dizem que minha mãe morreu de desgosto. Tudo o que sei é que ele a traía muitas vezes e a obrigava a ver — a famosa tortura física e psicológica de um relacionamento abusivo. E no meio desse "lindo amor", eu nasci. Minha mãe morreu logo em seguida, e isso me fez ser criado por ele e pela empregada da casa...

Sento-me com o meu primo na sala de estar e vou direto ao ponto: — Primo, quero te manter como meu braço direito nos negócios da família. Mas o problema que temos que resolver é bem maior do que pensamos. Meu falecido pai acabou com a herança: a mansão está hipotecada, as boates foram vendidas sem que eu soubesse, o cartel foi invadido e tomamos um prejuízo imensurável. Mal tenho dinheiro para pagar os funcionários. Acho que o melhor é começar do zero — realmente é a primeira vez que não sei por onde começar!

— Sabia que o tio era imprudente, mas não fazia ideia de que era assim! Ele aparentava que tudo estava sob controle. Agora tudo faz sentido: por que ele não queria que você tomasse conta das coisas enquanto estava vivo! Bela herança que ele te deu. — O deboche em suas palavras é irritante, mas mesmo nesta situação ele não deixa de ser cômico.

— Então primo, você deve começar a procurar pela pessoa que comprou as boates do tio. Não tem como um peixe pequeno comprar 8 boates de uma vez só!

— Foi a primeira coisa que fiz — adivinha só? Não achei nada. É como se um fantasma tivesse comprado tudo. Nem sei se é possível!

Ficamos ali em silêncio, tentando encontrar uma solução. Mas a verdade é que já investiguei tudo e não achei nada — era um beco sem saída atrás do outro. Não vejo outra solução a não ser sair fazendo uma chacina para recuperar o que é meu por direito!

Enquanto estamos planejando e decidindo se vamos para guerra, um dos meus seguranças vem me entregar uma carta.

— Quem manda uma carta hoje em dia? — Questiono em voz alta. Olho para ela: não tem remetente, está totalmente em branco, só tem um lacre de cera vermelha com um emblema de flor. Muito mistério para um único dia.

— Primo, você não vai abrir isso? — Ele pergunta com os olhos arregalados. Não respondo, simplesmente abro sem pensar duas vezes.

Senhor Angelo Hernandes,

Venho por meio desta carta lhe solicitar os meus pêsames pela morte de seu pai. Sei que está com inúmeros problemas financeiros — sou eu o motivo deles. Sim, sou o fantasma que você procura. Mas como cortesia, te ajudarei com tudo. Não pense em mim como seu inimigo, mas sim como um aliado de muito valor. Da mesma forma que posso fazer você ter uma vida de rei, posso fazer você ter uma vida de merda. Não quero que leve como ameaça, mas sim como um aviso de seu futuro sócio.

A proposta que tenho para você é irrecusável!

Chega de enrolação — sei que você é inteligente e já entendeu o buraco em que se meteu. Sei que mora em Nova York, mas para este acordo terá que largar tudo e se mudar para a Itália. Espero que não tenha apego emocional por este lugar.

Nosso acordo é simples: tenho uma filha e gostaria que ela casasse com alguém capaz de protegê-la e amá-la incondicionalmente. Escolhi você para se casar com a minha herdeira.

Se conseguir este êxito, darei toda a sua herança de volta e até mais do que isso — já que será o genro da minha família.

Te darei três dias para organizar a mudança. No segundo dia, as passagens de todos estarão prontas e chegarão em sua casa. Assim que pisar na Itália, mandarei um funcionário te levar para o hotel, onde receberá mais instruções.

Espero que sobreviva a este casamento — minha filha tem um temperamento forte!

Assinado: Riccardo La Blanc

Depois de terminar de ler essa bomba, viro-me para o meu primo e falo meio assustado: — Eu vou me casar!

— Como assim?! — Meu primo grita sem pensar. Para que ele entenda, entrego a carta — a situação é tão incomum que não consigo explicar com palavras.

Depois de alguns minutos, ele termina de ler e, angustiado, vira-se para mim falando desesperadamente: — Ela deve ser feia. Não um feio normal, mas com alguma deformidade! Primo, meus pêsames. A sua vida mal começou e você vai ter que se sacrificar pela família. É triste o seu fim, mas prometo que irei curtir por você!

— Você acha engraçado, seu patife?! — Grito enquanto ando pela casa desesperado. Vejo os olhos dele saltarem quando chega ao final da carta, então retomo a fala. — É seu idiota, Riccardo La Blanc! O patriarca da máfia La Blanc! Como eu acabei na mira desse cara? A nossa máfia é pequena, eles são megalodon do submundo. Sei que não tem como recusar.

Me sento no sofá com raiva e angústia.

— Primo, por que ele escolheu você para casar com a filha feia deles? Nem sabia que eles tinham herdeiros — o boato é que não tem ninguém. Mas se ela existe, não é só feia, é horrorosa!

— Você ainda tá nessa merda! — Disse, exasperado. — Eu sou obrigado a me casar. Se não fizer, ele vai tacar fogo em tudo o que tenho! Vou engolir o meu orgulho e fazer o que tem que ser feito. Amanhã demita os empregados e seguranças — tenho dinheiro na conta para pagar todos. Vamos ficar só com dois dos melhores. Arrume tudo que está na casa — ela está hipotecada mesmo, e eu não me importo com nada. Precisamos resolver tudo bem rápido: temos dois dias.

Vou para o escritório do meu pai e começo a varrer e arquivar todos os documentos, tudo o que vou precisar. Empacoto tudo — foi uma tarde bem longa. A noite chega e ainda estou trabalhando para fazer os contratos e os pagamentos de cada um. Quando termino, já é de manhã de novo. Cedo demais, o meu primo chega e eu entrego tudo para ele — ele vai fazer as demissões enquanto eu vou para o meu antigo quarto, tomo um banho e durmo por algumas horas.

Acordo pela tarde e resolvo o resto do que precisa: minhas malas já estão prontas. Agora só espero a carta do meu futuro sogro.

A noite entra em meu quarto, e agora que tudo está resolvido, vejo que não vou sentir saudades da minha vida aqui. Estranhamente, estou ansioso para morar na Itália. Escuto batidas na porta, mando entrar — mas a pessoa não entra, só empurra a carta para debaixo da porta. Me levanto e pego-a: é o mesmo papel, o mesmo lacre.

Estou surpreso com o seu empenho — resolveu tudo bem rápido. Mas vamos aos negócios: preparei o meu avião particular para o senhor e seus seguranças; o meu pessoal também estará no voo. Quando chegar, ficará em um hotel já reservado. Na segunda-feira, faremos uma reunião com minha filha para assinar o contrato de casamento. Peço que às 10:00 esteja no voo, sem um minuto de atraso.

Assinado: Riccardo La Blanc

Mando o horário de saída para o meu primo — ele só visualiza e não responde nada. Aproveito que estou no celular e vou pesquisar sobre a herdeira da família La Blanc. Adivinha? Não acho nada. É tudo um mistério. Então tomo uma bebida e caio no sono.

Quando acordo pela manhã, tomo um banho rápido, pego qualquer roupa e vou para a cozinha. Tomo um café forte e vou direto para o aeroporto. Estranhamente, já tem um carro na porta da minha casa esperando — sei que não é o meu pessoal. Assim que entramos, o motorista fala:

— Meu chefe mandou avisar para não se preocupar — já mandou um carro para cada funcionário seu, e todos já estão a caminho!

Não respondo nada. Só quero chegar logo onde vai ser a minha nova vida.

Chegamos rápido no local. O avião não é pequeno — tem dez seguranças em volta, o que acho um exagero. Mas o exagero é quando entro no jatinho particular: nunca vi tanto luxo e conforto. E olha que eu mexo com máfia e sei o que está fora do meu alcance. Logo em seguida, o meu primo chega com a sua personalidade maravilhosa.

— Que isso, primo! Se deu bem em vai casar, e olha só a família de luxo que vai entrar! É uma pena que a sua noiva seja feia, mas não se pode ter tudo!

Vejo um dos seguranças mudar de expressão assim que meu primo fala da minha noiva. O ódio que vejo em seus olhos é nítido, e ele diz para o meu primo:

— Acho melhor o senhor segurar a língua se quiser ficar vivo!

— Desculpe, meu primo — digo, firme. — Ele pode ser um saco às vezes, mas se algo acontecer com ele neste voo, seu chefe não terá o que quer, e a culpa será sua! Está preparado para arcar com essa consequência? Acho que não. Então aconselho você a ficar longe da gente durante o voo!

Ele faz o que eu falo. Foram longas oito horas e meia de voo — entre piadas de deboche sobre como a minha futura noiva é feia, como os nossos filhos vão ser horríveis, como vou ter que forçar o meu "amigo" a trabalhar... O meu primo está se divertindo com tudo isso e me torturando no processo. A minha vontade é de jogá-lo para fora do jatinho, mas me controlo — os seguranças já estão com olhares assassinos para ele.

Quando chegamos na Itália, tem mais carros pretos e motoristas esperando — agora, em vez de dez seguranças, são uns cinquenta. Entramos nos carros, vejo alguns seguindo para uma direção e outros para outra. Acabo perguntando para o motorista para onde vamos, mas não recebo resposta.

Então me contento com o silêncio. Não demora muito: eu e o meu primo descemos do carro em frente a um prédio enorme, e um segurança nos guia para dentro. Chegamos em uma sala com uma mesa e várias cadeiras, e somos orientados a esperar ali.

Minutos depois, vejo um senhor de cabelos grisalhos, mas bem posturado e musculoso — nem parece tão idoso assim. Seus olhos são de um tom azul sombrio, e o seu andar me causa calafrio na espinha. Acabo me levantando sem perceber — a sua presença imponente faz isso comigo. Vejo que o meu primo faz o mesmo. Ele se senta majestosamente em uma das cadeiras e começa a falar:

— Podem se sentar, senhores! Sei que estão cansados da viagem longa, mas precisava vê-los hoje mesmo. É um prazer conhecê-los pessoalmente — me chamo Riccardo La Blanc!

Com uma voz firme, ele continua enquanto todos ficam mudos diante de uma lenda da máfia: — Não quero o mal de vocês, e sei que têm várias perguntas. Como o porquê de eu ter escolhido você para se casar com a minha filha? A história é longa e não quero falar sobre isso agora. O que você precisa saber é que conheci o seu pai — nós éramos irmãos jurados pela máfia, mas a ganância dele nos separou. Não pude ver você crescer ou fazer parte da sua vida!

Ele faz uma pausa enquanto um de seus homens me entrega um envelope. O conteúdo são várias fotos minhas: de quando eu era pequeno, adolescente... Isso me deixa mais confuso do que quando cheguei. A fúria me domina e acabo batendo na mesa, gritando com ele:

— Saiba que odeio ser observado e perseguido! Não ligo se tirar tudo de mim, mas não vou fazer parte do seu joguinho! Odeio mais ainda ser manipulado por alguém que não conheço — não ligo se for meu padrinho ou meu pai, não vou ser uma marionete para o seu show!

Mas quando estou prestes a me levantar, ele mostra uma foto: com o meu pai e eu no colo, no dia do meu batismo. O que me surpreende é ver duas mulheres na imagem: uma está grávida ao seu lado, e a outra ao lado do meu pai. Nunca vi uma foto da minha mãe em toda a minha vida, mas vejo que seus cabelos são iguais aos meus — lisos e castanhos — até mesmo os olhos são parecidos: um âmbar majestoso. Isso me faz sentar de novo enquanto o escuto mais uma vez.

— A minha intenção não foi esta, espero que entenda. Eu e seu pai nos conhecemos na adolescência, e sempre o ajudei a resolver todos os problemas da sua família — tanto na máfia quanto na vida pessoal. Mas quando eu precisei de sua ajuda, ele me virou as costas e trabalhou com o meu rival. O bebê que vê na foto é você, e ao lado do seu pai está a sua falecida mãe — ela é prima distante da minha família, somos parentes de quarto grau. A mulher ao meu lado é Alana La Blanc, minha esposa. Por causa da ganância do seu pai, perdemos o nosso filho — na verdade, ele nem chegou a nascer, foi arrancado da barriga da minha esposa da forma mais bruta que se pode imaginar!

Ele abaixa a cabeça e range os dentes ao contar a história. Sei que meu pai era cruel, mas isso é brutal. Acabo interrompendo-o, me compadecido:

— Sei que meu pai era um verdadeiro bastardo. Sinceramente, é um alívio que a sua morte tenha acontecido. O passado fica no passado, mas ainda assim não entendo o porquê de eu estar aqui. Mesmo falando isso, você poderia ter escolhido qualquer um para casar com ela!

Assim que termino, o meu primo finalmente se pronuncia, interrompendo a nossa conversa com as suas gracinhas:

— Já falei que ela deve ser tão feia que nem o sobrenome seria capaz de fazer um homem se casar com ela!

...A sala fica em absoluto silêncio e os seus quatro seguranças ficam bravos — é nítido a raiva em suas expressões. Mas de repente, uma gargalhada potente ecoa por todo o ambiente, fazendo com que todos fiquem sem jeito.

— Seu primo é incrível! — Riccardo se afasta da mesa, limpando lágrimas dos olhos por ter rido tanto. — O que te faz pensar que minha filha seja feia, como está afirmando?

— Bom... você está forçando o meu primo a casar com ela! Então é porque é feia! — Emílio responde, ainda sem entender o porquê daquele riso.

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