TRÊS ANOS DEPOIS

O sol surgia lentamente por entre as cortinas do pequeno apartamento, espalhando luz tênue sobre a cozinha modesta onde Aurora já se encontrava de pé, preparando o café da manhã para Helena. Três anos haviam se passado desde que ela deixou Lorenzo, desde que seu mundo havia se despedaçado diante da decisão fria dele. Três anos desde que descobrira que carregava uma vida que ele jamais soubera.

Aurora suspirou, observando a filha ainda adormecida no quarto. Helena havia crescido. Seus cabelos castanhos cacheados agora caíam até os ombros, sempre bagunçados e cheios de vida, e os olhos grandes e curiosos carregavam um brilho que lembrava a própria mãe quando mais jovem. Cada pequena conquista da menina era uma vitória silenciosa, uma forma de resistência contra o mundo cruel que a mãe conhecia tão bem.

O apartamento não era grande. Não havia luxo, nem espaço para extravagâncias. Cada centímetro era utilizado de forma prática: uma cama para Helena, uma pequena escrivaninha com livros e cadernos, algumas roupas penduradas cuidadosamente. Mas havia amor. Havia cuidado. Havia força. Aurora sabia que, por mais difícil que fosse, a vida que estava construindo para Helena valia cada sacrifício.

A mãe de Aurora, doente há meses, descansava na sala, apoiada em almofadas. Sua saúde fragilizada aumentava o peso sobre os ombros de Aurora, mas ela não reclamava. Cada dia era uma batalha silenciosa, mas também uma oportunidade de proteger e cuidar da família que tinha agora. Entre trabalho, cuidados com a mãe e atenção constante a Helena, Aurora aprendeu a organizar sua vida em ciclos quase perfeitos. Mas mesmo na rotina mais bem planejada, havia momentos em que o coração doía.

Ela sabia, mesmo que evitasse pensar, que Lorenzo continuava sua vida. Cada notícia que chegava através de redes sociais ou revistas especializadas lembrava-a disso. Ele ainda seguia como herdeiro do império, impecável, noivo de Valentina, sorrindo em eventos, assinado contratos bilionários e mantendo a imagem de CEO perfeito que o mundo admirava. Era como se o passado nunca tivesse existido. Como se ele tivesse apagado o amor que um dia compartilhara com ela.

Aurora respirou fundo, tentando afastar os pensamentos. Não havia como mudar o passado. A filha precisava dela, a mãe precisava dela, e o mundo não esperaria que ela chorasse por um homem que escolhera outra vida. Helena precisava de uma mãe forte. E Aurora se recusava a falhar com ela.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Lorenzo acordava em sua cobertura luxuosa, o quarto amplo e silencioso refletindo o estilo de vida que ele havia construído. Cada detalhe do espaço lembrava poder, sucesso, e uma vida perfeitamente planejada. Mas, mesmo assim, havia um vazio que o dinheiro jamais poderia preencher.

Os três anos haviam sido marcados por conquistas profissionais, acordos estratégicos, eventos sociais e a manutenção da imagem pública que ele sabia ser indispensável. Ele seguiu em frente, firmando o noivado com Valentina, consolidando seu lugar como CEO e mantendo uma rotina que deixava pouco espaço para qualquer distração pessoal. Mas, mesmo no meio de todo luxo e controle, ele sentia uma falta que não conseguia nomear.

Os relatórios diários, as reuniões intermináveis e os eventos sociais eram uma distração temporária. Mas à noite, quando as luzes da cidade brilhavam abaixo da cobertura, e o silêncio preenchia cada canto, os pensamentos sobre Aurora surgiam sem aviso. Ele lembrava do riso dela, da voz, da forma como seus olhos se encontravam e criavam uma conexão impossível de ser ignorada.

Ele tentava se convencer de que o tempo havia passado, de que a decisão tomada fora correta. Mas o coração não obedecia às regras corporativas, e cada notícia que chegava sobre ela, mesmo que distante, quase imperceptível, lembrava-lhe que algo significativo havia sido deixado para trás. Algo que ele ainda não conhecia: uma filha.

Aurora, por sua vez, continuava a lidar com a vida da forma que podia. Os freelances que conseguia não eram suficientes para proporcionar luxo, mas eram suficientes para manter Helena alimentada, estudando e com roupas limpas. Cada dia era uma batalha silenciosa, e cada noite um lembrete de que o mundo não poupava ninguém.

E, mesmo assim, havia momentos de felicidade genuína. Quando Helena corria pelo apartamento, rindo, segurando a mão da mãe com confiança, Aurora sentia que todo esforço valia a pena. Cada abraço apertado, cada beijo inesperado, cada risada que escapava da filha era uma forma de amor puro, incondicional, que não precisava de aprovação externa.

A vida de Lorenzo, por outro lado, continuava em contraste absoluto. Ele cercava-se de pessoas que respeitavam seu poder, mas nenhuma delas poderia preencher o espaço deixado por Aurora. Cada decisão tomada, cada contrato assinado, cada discurso feito em eventos públicos era acompanhado pela consciência silenciosa de que havia um vazio real, uma ausência que o poder não podia substituir.

Enquanto Aurora se preocupava com a saúde da mãe, as contas e a criação de Helena, Lorenzo vivia cercado por luxo, mas solitário. Cada sorriso para a imprensa, cada foto em eventos, cada reconhecimento público era apenas fachada. O homem que governava um império se sentia impotente frente ao que havia perdido.

Aurora, apesar das dificuldades, começava a perceber pequenas oportunidades. Um trabalho extra aqui, uma economia ali, um gesto de solidariedade de um vizinho acolhedor ali. Tudo ajudava a construir um futuro estável para Helena. Mas o peso da solidão e da responsabilidade continuava presente, lembrando-lhe todos os dias do sacrifício feito ao deixar Lorenzo para trás.

E Lorenzo, sem saber, observava o mundo à sua volta com olhos de poder, mas com coração parcialmente desperto. Pequenas lembranças de Aurora surgiam em momentos inesperados: um perfume que lembrava a dela, uma palavra que ela costumava dizer, uma memória de um sorriso que ele nunca poderia esquecer. Tudo isso aumentava a tensão silenciosa de uma história que ainda não havia terminado.

Aurora se preparava para o jantar, a filha correndo em volta dela, a mãe descansando na poltrona. A rotina era cansativa, mas a vida continuava. Ela sabia que cada escolha feita naquele passado distante, cada decisão tomada por Lorenzo, havia mudado tudo. Mas também sabia que a força de uma mãe e o amor de uma filha eram capazes de resistir a qualquer adversidade.

Enquanto isso, Lorenzo fechava contratos, recebia relatórios e mantinha reuniões, mas cada gesto, cada sorriso, cada conquista era acompanhado pela lembrança silenciosa de algo perdido. Ele seguia em frente, como esperava a sociedade, como esperava a família. Mas Aurora e a filha ainda existiam em algum lugar, longe de seu alcance, moldando uma vida que ele ainda não conhecia.

O contraste entre os dois mundos nunca foi tão evidente. Aurora e Helena construindo laços de amor, sobrevivendo a dificuldades, aprendendo a se apoiar mutuamente. Lorenzo vivendo no luxo, cercado por poder, tentando preencher um vazio que não poderia ser preenchido com contratos ou status.

E assim, três anos se passaram, preparando o terreno para o inevitável reencontro. Cada desafio enfrentado por Aurora, cada decisão tomada por Lorenzo, cada dia vivido longe um do outro, criava tensão, expectativa e uma promessa silenciosa: a vida que eles haviam deixado para trás ainda não estava completa.

Enquanto a noite caía sobre a cidade, Aurora deitava-se no pequeno sofá depois de colocar Helena para dormir, olhando para a janela e pensando no homem que um dia amou. Ela não sabia que ele também pensava nela, que cada decisão, cada sorriso forçado, cada gesto calculado era uma tentativa de lidar com a ausência dela.

O destino, silencioso e implacável, começava a preparar o caminho para que vidas separadas se cruzassem novamente. Para que escolhas do passado fossem confrontadas. Para que o amor, embora rejeitado e adiado, tivesse uma segunda chance.

E, naquele silêncio que preenchia os dois mundos, a promessa de reencontro pairava no ar, invisível, mas inevitável.

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