Proposta indecente

Raquel chegou ao restaurante mais cedo do que o habitual. O salto ecoou no piso ainda silencioso enquanto ela atravessava o salão com passos apressados, o corpo inteiro em estado de alerta. O lugar ainda cheirava a produto de limpeza e café fresco, um contraste estranho com o turbilhão que girava dentro dela.

A ligação da noite anterior não lhe saía da cabeça.

*“Temos assuntos a tratar.”*

Marcelo nunca fora direto quando jovem. Sempre preferira jogos, insinuações, provocações disfarçadas de brincadeira. O fato de ele reaparecer agora, justamente quando sua empresa enfrentava um ataque público, fazia o estômago de Raquel se contrair de desconfiança.

Ela avistou-o antes mesmo de chegar ao centro do salão.

Marcelo estava sentado em uma das mesas próximas à janela, perfeitamente à vontade. Balançava uma taça de vinho tinto com movimentos lentos, quase preguiçosos, observando o líquido girar como se estivesse contemplando uma obra de arte. Quando levantou os olhos e a viu, um sorriso sarcástico surgiu em seu rosto — provocador, calculado, exatamente como ela lembrava.

— Pontual — comentou, erguendo levemente a taça. — Sempre admirei isso em você.

Raquel não respondeu. Parou diante da mesa, apoiou as mãos no encosto da cadeira oposta e o encarou com frieza profissional.

— Você pediu para me ver antes da abertura. Fale logo.

Marcelo inclinou a cabeça, como se estivesse se divertindo com a postura dela.

— Calma — disse, com falsa gentileza. — Ainda nem sentou.

Ela se sentou. Não por educação, mas por estratégia. Preferia observá-lo ao nível dos olhos.

— Cinco minutos — corrigiu. — Depois disso, tenho uma empresa inteira para administrar.

O sorriso dele se alargou.

— Continua objetiva. Ótimo. — Ele pousou a taça sobre a mesa. — Então vou direto ao ponto. Eu quero uma parceria.

Raquel piscou uma única vez. Nenhum gesto além disso denunciou a surpresa.

— Uma parceria — repetiu. — Comigo?

— Com a sua marca — corrigiu ele. — Sua rede de restaurantes e a minha cadeia de academias. Alimentação e performance. Saúde, estética, resultado. Um conceito integrado. O público perfeito.

Raquel soltou uma breve risada, seca, sem qualquer traço de humor.

— Você escolheu um momento curioso para falar de parceria — disse. — Logo depois de um ataque público à minha reputação.

Marcelo não se moveu. Apenas girou lentamente a taça mais uma vez antes de responder.

— Ataque é uma palavra forte — comentou. — Eu chamaria de… instabilidade de imagem. Algo comum quando uma empresa cresce rápido demais.

Raquel cruzou os braços, o olhar firme.

— Curioso como essa “instabilidade” surgiu do nada — rebateu. — E como você apareceu logo em seguida oferecendo salvação.

— O mercado não espera — respondeu ele. — Quem enxerga oportunidades antes dos outros sobrevive melhor.

— Ou se aproveita melhor — corrigiu ela.

Por um instante, o sorriso dele perdeu força. Não desapareceu, mas mudou. Tornou-se mais contido, mais atento.

— Você está levando isso para o lado pessoal — disse Marcelo.

Raquel inclinou-se levemente para a frente, a voz baixa, controlada.

— Você tornou pessoal no momento em que ligou para mim à noite usando um apelido que não tem mais lugar na minha vida.

O silêncio se estendeu por alguns segundos. Marcelo apoiou o braço na mesa, avaliando-a com um olhar mais sério do que antes.

— Tudo bem — concedeu. — Errei no tom.

Ele abriu uma pasta fina que estava ao seu lado e deslizou alguns documentos pela mesa, organizando-os com precisão.

— Mas não no conteúdo — continuou. — Projeções financeiras, expansão internacional, campanhas conjuntas. — Apontou para os gráficos. — Juntos, podemos dominar um mercado que nenhum concorrente alcança sozinho.

Raquel não tocou nos papéis.

— E o que você ganha com isso? — perguntou.

— Escala — respondeu ele, sem hesitar. — Influência. Posicionamento. E você ganha blindagem. Credibilidade compartilhada. Segurança.

Ela sustentou o olhar por um longo instante.

— Ou dependência — disse.

Marcelo sorriu lentamente.

— Dependência é uma palavra feia. Prefiro aliança estratégica.

Raquel empurrou a cadeira para trás e se levantou.

— Você veio até aqui me oferecer uma coleira dourada — afirmou. — Disfarçada de oportunidade.

— Você sempre foi inteligente — respondeu ele, levantando-se também. — Só não percebe quando o orgulho atrapalha.

Raquel respirou fundo. O passado roçou a superfície da memória, mas não teve espaço para se instalar.

— E você sempre confundiu controle com poder — retrucou. — A reunião acabou.

Eles ficaram frente a frente por um instante. Próximos demais. O ar entre eles parecia carregado de algo que ia além da rivalidade — uma tensão silenciosa, desconfortável.

— Pense com calma — disse Marcelo, em tom baixo. — O mercado não costuma dar segundas chances.

Raquel não recuou.

— Eu não vivo de chances. Vivo de escolhas. — Deu um passo atrás. — E a minha, hoje, é não confiar em você.

Ela se afastou sem olhar para trás.

Marcelo observou enquanto ela caminhava em direção ao escritório, postura firme, passos seguros. O salão vazio parecia grande demais agora. Ele recolheu os documentos com calma, retomou a taça de vinho e ficou ali por alguns segundos, pensativo.

— Veremos — murmurou.

Raquel fechou a porta do escritório atrás de si, apoiou as mãos na mesa e respirou fundo. Não aceitara a proposta. Mas agora tinha certeza absoluta de algo que antes era apenas suspeita:

Marcelo não havia voltado por acaso.

E qualquer que fosse o jogo que ele estivesse jogando, ela aprenderia as regras — rápido o suficiente para virar o tabuleiro.

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