O passado da Raquel II

O tempo não foi gentil com Raquel.

Ele passou devagar, como se cada ano tivesse prazer em testar sua resistência. A adolescência chegou trazendo mudanças que, para muitas meninas, vinham acompanhadas de descobertas e liberdade. Para Raquel, vieram com mais peso — no corpo, nos olhares, nas palavras.

O corpo mudou rápido demais. A barriga arredondou, os quadris alargaram, os seios surgiram antes das outras meninas. E com cada mudança, surgia também um novo comentário, uma nova risada abafada, um novo apelido sussurrado nos corredores.

Raquel aprendeu a andar olhando para o chão.

Aprendeu a sentar sempre nos cantos.

Aprendeu a se encolher, mesmo quando não havia espaço suficiente para desaparecer.

Marcelo continuava lá. Não sempre presente, mas sempre existente. Às vezes era uma palavra jogada no ar. Às vezes, apenas um olhar cheio de julgamento. E, estranhamente, isso doía quase mais do que os insultos diretos. Era como se ele não precisasse mais atacá-la. O mundo fazia isso por ele.

Na sala de aula, Raquel se tornou invisível — exceto quando era útil.

— **Raquel, você pode carregar isso?**

— **Raquel, senta aí, você ocupa menos espaço se ficar no canto.**

— **Raquel, você é forte, né?**

Forte. Era assim que justificavam tudo. Forte para carregar. Forte para aguentar. Forte para suportar.

Mas ninguém perguntava se ela queria ser forte.

Em casa, o silêncio era o mesmo. A mãe trabalhava demais. O pai quase nunca estava presente. Não por maldade, mas por cansaço. E Raquel aprendeu cedo que reclamar não mudava nada. Então guardava tudo.

Guardava no corpo.

Guardava na cabeça.

Guardava nas páginas dos cadernos.

Ela escrevia à noite, quando a casa dormia. Escrevia histórias onde meninas como ela eram inteligentes, respeitadas, poderosas. Histórias onde o corpo não era punição, mas apenas parte de quem se era. Histórias onde ninguém ria quando elas entravam em um lugar.

Era ali que Raquel respirava.

Na escola, porém, a realidade continuava firme, dura e impiedosa.

No segundo ano do ensino médio, aconteceu o que ela mais temia.

A aula de educação física.

— **Corrida de resistência**, — anunciou o professor, apitando alto. — Cinco voltas na quadra.

Raquel sentiu o estômago afundar. Já sabia como aquilo terminaria. Começou devagar, tentando ignorar a respiração pesada, o suor escorrendo pelas costas, os olhares atentos demais.

Na segunda volta, vieram os risinhos.

Na terceira, os comentários.

— **Vai explodir, cuidado!**

— **Corre, Raquel, o lanche tá te esperando!**

Marcelo não disse nada. Apenas observava, com aquele mesmo meio sorriso antigo, como quem assiste a algo inevitável.

Raquel tropeçou na quarta volta. Caiu.

O som do corpo batendo no chão ecoou mais alto do que deveria. O joelho ardeu, a mão queimou, mas nada doía tanto quanto o riso coletivo que veio logo depois.

Ela ficou ali por alguns segundos, sentada no chão, tentando recuperar o ar. O professor se aproximou, sem pressa.

— **Levanta, Raquel. Não foi nada.**

Mas foi.

Foi tudo.

Ela se levantou, terminou a atividade mancando, e foi direto ao banheiro. Trancou-se em uma das cabines e chorou em silêncio, com a mão na boca para não fazer barulho. Chorou não pela queda, mas pelo acúmulo. Pelo peso de anos sendo menos.

Naquele dia, algo mudou.

Não foi uma explosão. Não foi um discurso. Foi um cansaço profundo, quase perigoso. Um cansaço que não queria mais apenas sobreviver.

Raquel se olhou no espelho do banheiro. O rosto inchado, os olhos vermelhos, o corpo grande demais para aquele espaço estreito.

— **Chega**, — sussurrou.

Ela não sabia exatamente do quê estava dizendo chega. Mas sabia que não podia continuar daquele jeito.

Nos meses seguintes, Raquel mudou sem que ninguém percebesse.

Parou de tentar agradar.

Parou de rir de piadas que a machucavam.

Parou de pedir desculpas por existir.

Ela passou a se dedicar obsessivamente aos estudos. Chegava mais cedo à escola. Saía mais tarde. Lia tudo o que podia. Economia. Administração. Histórias de empresas. Biografias de pessoas que vieram de baixo e chegaram longe.

Enquanto os outros sonhavam com festas e popularidade, Raquel sonhava com independência.

Com controle.

Com poder suficiente para nunca mais precisar implorar respeito.

O corpo continuava sendo alvo, mas agora ela o via de outra forma. Não como inimigo, mas como prova de resistência. Cada comentário atravessado se transformava em combustível silencioso.

Marcelo percebeu a mudança.

— **Tá se achando agora?** — perguntou certa vez, no corredor.

Raquel parou. Olhou para ele. Não respondeu. Apenas sustentou o olhar por alguns segundos a mais do que antes.

Foi o suficiente para deixá-lo desconfortável.

Ela seguiu em frente.

No último dia de aula, enquanto todos comemoravam o fim de uma fase, Raquel fechava outra coisa dentro de si. Uma porta. Uma versão antiga.

Naquela noite, sentada na cama, caderno aberto no colo, ela escreveu algo diferente. Não uma história. Não um desabafo.

Uma promessa.

> *Eu nunca mais vou deixar que decidam o meu valor.*

> *Eu nunca mais vou pedir permissão para ocupar espaço.*

> *E um dia, quando tentarem me derrubar de novo, eu estarei alta demais para cair.*

Raquel fechou o caderno.

Não havia aplausos. Não havia testemunhas.

Mas ali, naquele quarto silencioso, nasceu algo muito maior do que a menina ferida do recreio.

Nasceu uma ambição.

E ela era pesada.

Forte.

Indestrutível.

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