Marcelo sempre acreditou que sentimentos eram uma forma de distração. Um ruído desnecessário em sistemas que deveriam funcionar com precisão matemática. Para ele, o mundo era simples: movimentos, reações, resultados. Pessoas eram variáveis. Emoções, fraquezas exploráveis.
Era nisso que ele pensava enquanto dirigia naquela noite, o rádio desligado, a cidade passando pela janela como um cenário irrelevante. O encontro com Raquel naquela manhã ainda ecoava em sua mente, embora ele se recusasse a admitir. Não pelo que foi dito — isso ele controlava —, mas pelo que sentiu. Ou melhor, pelo que *não deveria* ter sentido.
— É só negócio — murmurou para si mesmo, como um mantra.
Ele repetiu a frase várias vezes ao longo do dia. No escritório. No elevador. No banho. Sempre que a imagem dela surgia sem ser convidada. Sempre que lembrava do modo como Raquel o encarou, sem medo, sem submissão, sem a fragilidade que ele esperava ver.
Aquilo o incomodava.
Marcelo sentou-se à mesa do escritório