Mundo de ficçãoIniciar sessão
A notícia chegou numa manhã cinzenta, daquelas que parecem carregar mau presságio desde o primeiro instante. Melissa estava sentada à mesa da cozinha, ajudando a avó a separar algumas contas, quando o telefone antigo tocou. O som estridente ecoou pela casa simples, fazendo o coração dela disparar sem motivo aparente. A avó atendeu.
— Sim, é da residência dos Carters. — Falou com a voz de uma idosa na casa dos setenta anos. — Não, Violet não estar aqui. Sim, ela é sua noiva. Por favor o que aconteceu?
O silêncio que se seguiu foi pesado demais. Melissa observou o rosto enrugado da avó perder a cor pouco a pouco. A mão que segurava o telefone começou a tremer, e os olhos, antes atentos, encheram-se de um brilho assustado.
— Meu Deus… — murmurou a idosa, antes de se apoiar na cadeira.
— Vovó? — Melissa se levantou de um salto.
A avó desligou o telefone com dificuldade.
— É o Hudson… — disse, com a voz embargada. — Ele sofreu um acidente.
Melissa sentiu o mundo girar. Antes mesmo de pensar que tal noticia não deveria ter sido dada a sua avó, mas sim a ela ou a Violet sua noiva. Contudo, parecia ter havido um certo desencontro na comunicação e nos números de telefones.
— Acidente? — repetiu, num fio de voz. — Espere, irei passar o telefone do trabalho da minha neta Violet e noiva dele.
— Estava esquiando… — a avó continuou, confusa. — Um acidente grave. Ele está no hospital.
A xícara de chá escorregou das mãos de Melissa e se espatifou no chão. O barulho do porcelanato quebrando pareceu distante demais, como se não pertencesse àquele momento. Hudson. O homem que ela amava em silêncio.
O noivo da sua irmã, havia sofrido um grave acidente esquiando. Por motivos de trabalho Violet não havia viajado com ele naquela vez.Poucas horas depois, Violet chegou à casa dos avós. Diferente de outras vezes, estava pálida, sem maquiagem, os cabelos presos de qualquer jeito. Caminhava de um lado para o outro, inquieta, enquanto fazia ligações nervosas.
— Os médicos ainda não sabem ao certo — dizia ela ao telefone. — Foi uma queda feia… Sim, sim… estou aguardando notícias. Ele viajou a negócios e acabou aproveitando para esquiar.
Melissa observava tudo à distância. Quando finalmente veio a confirmação, ninguém estava preparado. Hudson sobrevivera. Mas perdera a visão.
— Cego? — Violet repetiu, como se a palavra não fizesse sentido. — Isso… isso não pode estar certo.
O avô sentou-se lentamente, passando a mão pelo rosto cansado. A tempos ele só observava todo o tumulto, com seu jeito passivo, onde as mulheres da casa costumavam tomar todas as decisões.
— Meu Deus… tão jovem…
Melissa permaneceu em silêncio. Não chorou. Não gritou. Não disse nada. Apenas sentiu um aperto tão forte no peito que mal conseguia respirar.
“ Meu Deus...Hudson… cego”
A imagem dele, sempre seguro, elegante, confiante, surgiu-lhe na mente. Um homem acostumado a comandar, a enxergar tudo ao redor… agora mergulhado na escuridão. Nos dias que se seguiram, a casa foi tomada por um clima de apreensão. Hudson fora transferido para um hospital particular e, em seguida, para uma mansão numa ilha particular de sua propiedade, onde receberia cuidados médicos e teria privacidade e Violet começou a se ausentar...
No início, eram desculpas pequenas. Mas que já deixava seus avós, que queriam muito aquele casamento, meio receosos. Quanto a Melissa, nunca achou Violet uma noiva apaixonada. Então, aquilo não a surpreendeu totalmente.
—Preciso resolver umas coisas…
—Tenho compromissos inadiáveis… — Depois eu vou visitá-lo…As visitas aconteceram uma ou duas vezes. Mesmo, o jato e o luxuoso barco do milionário estando sempre a disposição para transporta-la até a ilha. Melissa, por outro lado, queria ir sempre, se assim pudesse ser. Sentia vontade de atravessar qualquer distância apenas para ouvi-lo, para segurar sua mão, para dizer que ele não estava sozinho. Mas sabia que aquele desejo não lhe pertencia. Ela não era a noiva.
Era apenas a irmã.— Ele não quer visitas e nem eu estou com espirito para visita-lo. — disse Violet certa noite, seca, enquanto mexia em sua bolsa tiracolo. — Ele precisa de espaço e eu de uma tempo para mim. — Violet falou de forma pouco amigável e Melissa engoliu em seco.
— Mas… você irá vê-lo esta semana ou ao menos este mês? Você praticamente não vai lá, desde o acidente. — perguntou, tentando soar natural.
Violet suspirou, impaciente ao ouvir aquilo. Pois para ela estava começando a soar como uma cobrança e obrigação desagradável.
— Ainda não. Está tudo tão complicado agora…
Assim, com o passar das semanas, o casamento foi sendo discretamente modificado. A grande festa deu lugar à ideia de uma cerimônia simples, adiada. Hudson permanecia isolado, administrando seus negócios à distância, longe de todos e Violet… cada vez mais distante. Melissa percebia nos pequenos detalhes. Nos suspiros longos. Na irritação constante.
No modo como evitava falar o nome de Hudson. Então, certa noite, Melissa a encontrou sentada na varanda, olhando o nada.— Você ainda o ama? — perguntou, sem pensar.
Violet a encarou, surpresa… e, por um instante, sincera demais.
— Não sei se consigo amar um homem assim — respondeu, fria. — Não foi isso que eu escolhi.
Melissa sentiu o coração se partir. Ela não respondeu. Não julgou. Não pediu explicações. Apenas se levantou e voltou para dentro, levando consigo uma dor que não podia compartilhar com ninguém. Naquela noite, chorou sozinha no quarto, em silêncio, como sempre fazia. Chorou por Hudson. Pela dor dele. Pela solidão em que fora lançado. E, principalmente, pela injustiça de amá-lo tanto… sem jamais poder fazer nada. O destino havia sido cruel. Além disso, no fundo, Melissa pressentia que aquele acidente não mudaria apenas a vida de Hudson… mas também o destino de todos eles.







