Mundo de ficçãoIniciar sessãoA casa dos avós nunca parecera tão cheia… e, ao mesmo tempo, tão estranha para Melissa. Havia flores na sala, caixas com tecidos claros espalhadas pelo sofá antigo, revistas de noivas abertas sobre a mesa de centro e uma movimentação incomum de costureiras e vizinhas curiosas. Tudo girava em torno de um único acontecimento: o casamento de Violet com Hudson Theodore.
O noivado era recente, mas já comentado com entusiasmo por todos. Afinal, não era todo dia que um homem jovem, milionário, educado e bem-relacionado escolhia se casar com uma moça da família, ainda mais uma família de classe média em clara decadência, sustentada por lembranças de tempos melhores. Melissa observava tudo em silêncio, sentada numa poltrona discreta, com um livro fechado no colo. Não conseguia se concentrar na leitura. Seus olhos insistiam em acompanhar Hudson sempre que ele surgia no ambiente. Ele parecia perfeitamente à vontade ali, como se já fosse parte da família.
— O senhor não imagina o quanto somos gratos — dizia a avó, emocionada, segurando a mão dele com carinho. — Violet sempre foi especial, mas Hudson… você veio como uma bênção.
— Eu é que sou grato. Violet é uma mulher admirável. — Hudson sorriu com educação e Melissa sentiu o coração apertar ao ouvir aquelas palavras.
Violet estava sentada à mesa, analisando amostras de flores com uma expressão distraída. Seu interesse parecia mais voltado para o corte do vestido e para o local da festa do que para o próprio casamento. Falava com segurança, decidida, como se estivesse organizando mais um evento social em sua agenda.
— Quero algo moderno — dizia ela, sem levantar muito os olhos. — Nada antiquado. Hudson concorda comigo.
— Claro — respondeu ele, sem questionar.
Melissa notou que Hudson quase nunca contrariava Violet. Talvez por amá-la demais ou por que como um homem de negócios não tinha tempo para certos detalhes no planejamento da festa. Contudo, em alguns momentos, ele parecia tentar se aproximar da noiva, tocar-lhe a mão, trocar um sorriso mais íntimo. Violet aceitava os gestos, mas sem entusiasmo, como se estivesse apenas cumprindo um papel esperado.
— Hudson, você pode escolher isso depois — disse ela certa vez, afastando levemente a mão dele. — Preciso resolver umas coisas agora.
Melissa se perguntava, em silêncio, se Violet realmente o amava… ou se estava apenas encantada com tudo o que ele representava: O milionário,
o homem bem-sucedido, o futuro confortável garantido.Em meio àquela confusão de preparativos, Hudson acabava, curiosamente, encontrando pequenos momentos para conversar com Melissa.
— Está muito quieta hoje — comentou ele certa tarde, ao encontrá-la sozinha no jardim.
Melissa quase deixou o livro cair ao ouvir a sua voz e sentir a sua aproximação. Tentou disfarçar o nervosismo, pois morria de medo de que acabasse sendo denunciada pelas suas próprias atitudes.
— Estou bem… só observando — respondeu, com timidez.
— Gosta de observar? — ele perguntou, sentando-se a uma distância respeitosa.
— Gosto de ouvir — corrigiu ela, com um leve sorriso. — As pessoas dizem muito… mesmo quando não falam.
Hudson a encarou por alguns segundos, intrigado.
— Você é diferente da sua irmã.
Melissa baixou os olhos, sentindo o rosto esquentar.
— Violet sempre foi… mais segura — disse baixinho.
— Sim — concordou ele. — Muito segura.
Havia algo na forma como Hudson dizia aquilo que fez Melissa sentir um aperto estranho no peito. Não era admiração. Era constatação. Pouco depois, Violet surgiu chamando por ele, impaciente.
— Hudson, precisamos decidir a lista de convidados.
Ele se levantou imediatamente.
— Claro.
Antes de ir, porém, voltou-se para Melissa.
— Foi um prazer conversar com você.
Ela apenas assentiu, incapaz de dizer qualquer coisa. Sozinha novamente, Melissa fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Cada pequeno gesto dele, cada palavra gentil, cada olhar distraído… tudo alimentava um sentimento que ela lutava para conter. A família estava encantada. O noivado era perfeito.
O casamento prometia ser grandioso. Ainda assim, Melissa sentia que algo estava fora do lugar. Violet parecia distante demais. Hudson, atento demais e ela… invisível demais.Naquela noite, ao se recolher, Melissa se deitou com o coração pesado. Sabia que estava assistindo, de camarote, à construção de uma felicidade que jamais lhe pertenceria. Hudson era o noivo da sua irmã.
E aquele amor silencioso, que crescia a cada dia… estava condenado desde o início. Mas, mesmo assim, ela não conseguia deixar de sentir.






