A BABÁ QUE ELE NÃO ESPERAVA

Algumas coincidências são apenas mentiras mal explicadas.

O escritório de Caetano Siqueira Gouveia era um território de silêncio absoluto. Não um silêncio vazio, mas um silêncio cultivado, disciplinado, quase reverente, como se cada centímetro daquele espaço tivesse sido treinado para não interferir em seus pensamentos. As paredes claras, o vidro, a madeira escura, os objetos organizados com precisão milimétrica, tudo ali existia para não provocar emoções. Para não distrair. Para não exigir.

Ele gostava assim.

A previsibilidade o acalmava.

Sentado atrás da mesa, Caetano deslizava os dedos pela tela do tablet sem realmente enxergar o que lia, até perceber, mais pelo instinto do que pela audição, que alguém havia entrado na sala. Sandro, seu secretário, permanecia parado à frente, segurando uma pasta fina, esperando autorização para falar.

— Senhor, aqui está o dossiê da nova babá.

Caetano não ergueu os olhos.

— Só quero saber se ela é qualificada.

— Muito, senhor.

Ele respirou fundo antes de levantar o olhar.

— Em que área?

— Está no último estágio para formação em pediatria.

O corpo dele reagiu antes que a mente pudesse organizar qualquer pensamento. Foi uma reação mínima, quase imperceptível, mas real. Um leve tensionar no maxilar, um deslocamento súbito da atenção, como se alguém tivesse puxado um fio invisível dentro dele.

— Pediatria?

— Sim, senhor.

— Onde?

Sandro abriu a pasta com cuidado, como se o gesto tivesse peso.

— Orlando.

A palavra caiu dentro de Caetano como algo sólido.

Orlando.

Ele não piscou. Não demonstrou nada. Não moveu um músculo sequer do rosto. Mas o coração deu um salto seco, como se tivesse tropeçado em uma memória que não esperava encontrar.

Serena.

Ela também estudava pediatria em Orlando.

A lembrança surgiu inteira, clara demais, viva demais. Ele a empurrou de volta para dentro de si como quem fecha uma gaveta com força.

— Notas?

— Excelentes. Histórico impecável.

Impecável.

Ele não gostava de coincidências.

— E os exames, médicos?

— Saúde perfeita, senhor.

— Ela aceitou amamentar a criança?

— aceitou sim, senhor.

— Ela explicou o que houve com bebê dela?

Sandro hesitou por um segundo.

Foi um segundo curto, mas Caetano percebeu.

— Morreu no parto. Há dez dias.

Ele franziu o cenho, lentamente.

— Só dez dias? Muito recente, estranho.

— Sim, senhor.

— Ela ainda está em recuperação. E já começou a trabalhar?

— Necessidade, senhor. Acreditamos que ela precise muito.

Caetano apoiou o cotovelo na mesa, o olhar fixo em um ponto qualquer da parede.

Dez dias.

Não era racional, mas algo naquele número o incomodava.

— O qué ela falou sobre a família?

— Está sozinha senhor, sem familiares.

— Marido? Outros filhos?

— Solteira, senhor, veio do interior.

— Aceitou tempo integral? Moradia?

— Aceitou sim senhor. Salário dobrado.

— Melhor que seja assim, eu viajo muito.

Sandro assentiu.

— O sheik quer a confirmação da sua ida.

Caetano levou a mão à testa.

— Merda. Eu me esqueci disso.

— Posso confirmar?

— Confirma. Eu viajo hoje. Não vou para a casa neste fim de semana.

— Devo avisar a Célia e que avise a babá?

— Não acho necessário, elas não sabem?

— Entendido senhor, Célia deve saber sim.

Quando Sandro saiu, o silêncio voltou.

Mas já não era o mesmo.

Caetano permaneceu alguns segundos olhando para a tela apagada do tablet, sentindo uma inquietação que não sabia nomear. Orlando, Pediatria.

Uma estranha com apenas dez dias.

Ele não queria pensar.

Na casa do litoral, Serena não fazia ideia de quem ele era de verdade.

Para ela, Caetano era apenas um nome distante, uma presença invisível, quase uma lenda doméstica, alguém que existia mais como conceito do que como pessoa. O dono da casa que nunca aparecia, que mandava tudo funcionar à distância, que pagava, decidia e desaparecia.

No sábado, ela perguntou à governanta.

— O dono da casa vem?

— Não.

No domingo, tentou de novo.

— Ele costuma vir?

— Às vezes.

Na segunda-feira, insistiu.

— Quando ele volta?

— Ele viajou.

Serena assentiu em todas as respostas, mas sentia algo estranho crescer dentro dela. Não era curiosidade, era inquietação, como se estivesse esperando por algo que não sabia nomear.

Quinze dias depois, ele voltou.

E ela não estava esperando.

Serena estava na sala com a bebê no colo. A casa estava silenciosa como sempre, mas naquele momento o silêncio não pesava. Ela havia colocado o celular no braço do sofá, escolhido uma música antiga, suave, quase melancólica, e começado a cantar baixinho, apenas para si mesma.

Depois, sem perceber, começou a cantar mais alto.

Depois, a rir.

Girou devagar com a criança nos braços, como se dançassem juntas, como se aquele gesto fosse natural, necessário.

— Olha você dançando, olha você dançando…

A bebê balbuciava, os dedos pequenos se abrindo e fechando no ar, os olhos atentos, como se acompanhassem cada movimento.

Serena rodava na cozinha, sorrindo,Short jeans curto, Camiseta larga, Cabelos soltos.

Perfume leve, alheia a tudo a sua volta.

Ela se sentia viva, inteira, presente.

No corredor, Caetano parou, e estranhou aquele acontecimento, pois havia acabado de chegar, não esperava som. Música naquela casa, só em jantares, e nunca músicas dançantes. Muito menos voz cantando.

Ficou imóvel, como se o corpo tivesse esquecido como avançar. Perplexo.

A melodia vinha da sala. A voz era clara, jovem, afinada, nada era profissional.

Ele adentrou e viu, uma mulher dançando com a sua filha nos braços.

Pernas à mostra, cabelo solto, pescoço exposto,rindo.

O corpo dele reagiu antes que a mente pudesse organizar qualquer pensamento.

Um choque atravessou o peito.

Ele fechou a porta imediatamente.

Foi para o quarto com aquela sensação.

Apoiou a mão na madeira, respirando fundo, como se tivesse acabado de correr.

Aquilo não era o que ele queria ver.

Ele queria silêncio, queria rotina,normalidade.

Ele precisava de que tudo estivesse normal, sobe seu controle. Mas aquilo era inadmissível.

Tomou banho, vestiu uma camiseta e uma calça confortável, sentou na cama, a mente não se aquietava.

O jeito como ela segurava a criança.

O modo como a criança se encaixava nela.

Aquilo não era profissional, era intimidade,

Não era neutro, era vivo demais para ele.

Quando desceu para jantar, a casa estava novamente silenciosa.

Ele entrou na cozinha.

Serena entrou pelo outro lado ao mesmo tempo, carregando uma bandeja.

Ela cantava baixo.

O susto foi tão grande que quase deixou tudo cair.

— Ai! Droga, que susto! Quem é você? O…

Caetano congelou. Ela estava ali, na sua frente, boca entreaberta, olhos azuis assustados.

O rosto que ele conhecia, a mulher que procurou por logos um ano.

O mundo pareceu perder o eixo.

Serena piscou, sentindo o coração acelerar de um jeito que nunca tinha sentido antes, como se tivesse sido arrancado do lugar. A bandeja escorregou de suas mãos e caiu no chão com um barulho metálico, espalhando talheres e copos pelo piso.

— Não… você… está aqui?

Ele sentiu o estômago afundar.

Ela ficou pálida.

Deu um passo para trás, como se o corpo tivesse esquecido como se sustentar.

— Não…

Ela o reconheceu na mesma hora.

Os olhos, verdes, a barba bem desenhada, o formato do rosto.

A memória veio inteira, brutal, inevitável.

O nome dele ficou preso na garganta dela.

Ela nunca tinha esquecido.

O silêncio entre os dois era tão denso que parecia ocupar o espaço físico.

A bebê se mexeu nos braços dela.

Caetano foi o primeiro a falar.

— O que você está fazendo aqui?

Dez dias.

Ele não queria pensar.

Na casa do litoral, Serena não fazia ideia de quem ele era de verdade.

Para ela, Caetano era apenas um nome distante, uma presença invisível, quase uma lenda doméstica, alguém que existia mais como conceito do que como pessoa. O dono da casa que nunca aparecia, que mandava tudo funcionar à distância, que pagava, decidia e desaparecia.

No sábado, ela perguntou à governanta.

— O dono da casa vem?

— Não.

No domingo, tentou de novo.

— Ele costuma vir?

— Às vezes.

Na segunda-feira, insistiu.

— Quando ele volta?

— Ele viajou.

Serena assentiu em todas as respostas, mas sentia algo estranho crescer dentro dela. Não era curiosidade, era inquietação, como se estivesse esperando por algo que não sabia nomear.

Quinze dias depois, ele voltou.

E ela não estava esperando.

Serena estava na sala com a bebê no colo. A casa estava silenciosa como sempre, mas naquele momento o silêncio não pesava. Ela havia colocado o celular no braço do sofá, escolhido uma música antiga, suave, quase melancólica, e começado a cantar baixinho, apenas para si mesma.

Depois, sem perceber, começou a cantar mais alto.

Depois, a rir.

Girou devagar com a criança nos braços, como se dançassem juntas, como se aquele gesto fosse natural, necessário.

— Olha você dançando, olha você dançando…

A bebê balbuciava, os dedos pequenos se abrindo e fechando no ar, os olhos atentos, como se acompanhassem cada movimento.

Serena rodopiava.

Short jeans curto.

Camiseta larga.

Cabelos soltos.

Perfume leve.

Ela se sentia viva, inteira, presente.

No corredor, Caetano parou.

Ele havia acabado de chegar.

Não esperava som.

Não esperava música.

Muito menos aquela voz.

Ficou imóvel, como se o corpo tivesse esquecido como avançar.

A melodia vinha da sala.

A voz era clara, jovem, afinada.

Não era profissional.

Era íntima.

Era humana.

Era quente.

Ele deu dois passos.

Abriu a porta.

E viu.

Uma mulher dançando com a bebê nos braços.

Pernas à mostra.

Cabelo solto.

Pescoço exposto.

Rindo.

O corpo dele reagiu antes que a mente pudesse organizar qualquer pensamento.

Um choque atravessou o peito.

Ele fechou a porta imediatamente.

Foi para o quarto.

Fechou.

Apoiou a mão na madeira, respirando fundo, como se tivesse acabado de correr.

Aquilo não era o que ele queria ver.

Ele queria silêncio.

Ele precisava de silêncio.

Tomou banho.

Vestiu uma camiseta e uma calça confortável.

Sentou na cama.

Mas a mente não se aquietava.

A voz.

O riso.

O jeito como ela segurava a criança.

O modo como a criança se encaixava nela.

Aquilo não era profissional.

Não era distante.

Não era neutro.

Quando desceu para jantar, a casa estava novamente silenciosa.

Ele entrou na cozinha.

Serena entrou pelo outro lado ao mesmo tempo, carregando uma bandeja.

Ela cantava baixo.

Virou.

E gritou.

O susto foi tão grande que quase deixou tudo cair.

— Ai!

Caetano congelou.

Olhos azuis, profundos, aqueles, daquela maldita noite.

Boca entreaberta.

O rosto que ele conhecia.

O mundo pareceu perder o eixo.

Serena piscou, sentindo o coração acelerar de um jeito que nunca tinha sentido antes, como se tivesse sido arrancado do lugar. A bandeja escorregou de suas mãos e caiu no chão com um barulho metálico, espalhando talheres e copos pelo piso.

— Não…

Ele sentiu o estômago afundar.

Ela ficou pálida.

— Não…

Deu um passo para trás, como se o corpo tivesse esquecido como se sustentar.

— Não…

Ele reconheceu na mesma hora.

Os olhos.

O formato do rosto.

A voz.

A memória veio inteira, brutal, inevitável.

Serena.

O nome dele ficou preso na garganta dela.

Ela nunca tinha esquecido.

Nunca.

O silêncio entre os dois era tão denso que parecia ocupar o espaço físico.

A bebê se mexeu nos braços dela.

Caetano foi o primeiro a falar.

— O que você está fazendo aqui?

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