Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlgumas ausências explicam mais do que mil respostas
Um ano depois, Serena volta. O ônibus parou na rodoviária pouco depois das sete da manhã, e o céu estava fechado, pesado, daquele cinza que parecia pressionar o peito. Ela desceu com uma mochila nas costas e uma mala pequena na mão, sentindo os pés doerem, a cabeça pulsar, o corpo inteiro cansado antes mesmo do dia começar. Tudo nela parecia carregar um peso que não era só físico. Não havia mensagens no celular. Nenhuma ligação perdida. Nenhuma notificação. Ela respirou fundo e caminhou até o ponto de táxi, mas desistiu no meio do caminho. Preferiu pegar um ônibus urbano. Precisava de tempo, de silêncio, de algo que a preparasse para o que vinha, mesmo sem saber exatamente para quê. A cidade parecia diferente. Não porque tivesse mudado, mas porque ela tinha. Os prédios, os pontos de ônibus, os rostos apressados, tudo lhe parecia distante, como se estivesse observando o mundo através de um vidro grosso. Pensou na última vez que estivera ali, no que deixara para trás, no que nunca mais voltara a ser a mesma coisa. Quando o ônibus parou perto da rua do pai, o coração começou a bater mais rápido. Ela desceu devagar. A casa estava exatamente igual por fora: o mesmo portão, o mesmo muro, a mesma árvore torta na calçada. Tudo parecia intacto, congelado no tempo. E, ainda assim, tudo estava errado. Serena se aproximou e bateu no portão. Esperou. Bateu de novo. — Pai? Nada. Chamou mais alto, sentindo a própria voz ecoar estranha. — Pai? Silêncio. Um homem saiu da casa ao lado com um cachorro pequeno nos braços. Olhou para ela com curiosidade, como quem tenta encaixar uma memória. — Você é a filha do Augusto, né? — Sou. — Ele não está mais aí. O chão pareceu se mover sob seus pés. — Como assim? — Sumiu. Tem uns dois meses. Deixou a casa fechada. Ninguém sabe pra onde foi. — Sumiu? — Isso. Simplesmente. Serena agradeceu, mesmo sem saber exatamente por quê, e ficou parada diante do portão, sem reação. Pegou o celular, ligou para o pai. Caixa postal. Ligou de novo. Nada. Respirou fundo, colocou a chave na fechadura e entrou. A casa estava vazia. Não apenas sem móveis, mas vazia de história. Não havia sofá, nem mesa, nem quadros, nem fotos, nem cheiro. O eco dos próprios passos a assustava. Era como se tudo tivesse sido apagado, como se alguém tivesse passado uma borracha em cada vestígio de vida. Ela andou pelos cômodos como quem visita um lugar que não reconhece mais, abrindo portas, espiando armários vazios, puxando gavetas abertas. Nada. Sentou no chão da sala e ficou ali por alguns minutos, sem saber o que sentir primeiro. Raiva, medo, abandono, cansaço. Tudo vinha junto, sem ordem. Nos dias seguintes, Serena tentou de tudo: delegacia, hospitais, cartórios, antigos conhecidos. Nada. Ninguém sabia onde Augusto Aragão estava. No décimo quinto dia, o dinheiro acabou. Ela estava sentada na cama do pequeno quarto que alugara, encarando o celular como se ele pudesse lhe dar alguma resposta, quando viu o anúncio. Babá residente. Disponibilidade imediata. Salário acima da média. Ela clicou sem pensar. Na manhã seguinte, estava sentada em uma sala elegante, com o ar-condicionado frio demais, as mãos entrelaçadas no colo, postura tensa. À sua frente, uma mulher de cabelos presos, óculos discretos e um olhar que parecia medir tudo. — Você tem experiência? — Tenho. — Pode comprovar? — Posso. — Por que quer essa vaga? Serena pensou antes de responder. Não queria chorar ali. — Eu preciso trabalhar. A mulher a observou em silêncio. Foi então que Serena sentiu. Primeiro o calor. Depois, a umidade. Depois, a vergonha. Olhou para baixo. O vestido estava manchado. O leite escorria sem pedir licença. Ela levou a mão ao peito, tentando esconder. — Me desculpa. A mulher se levantou. — Um momento. Saiu. Serena fechou os olhos. Aquilo era familiar demais. Era sempre assim: esperança, depois constrangimento, depois rejeição. Quando a mulher voltou, sentou-se novamente. — Você está amamentando. — Eu… eu tive uma filha. Ela engoliu seco. — Ela morreu. Não era mentira. Era o que ela acreditava. — Você ainda produz leite. — Sim. A mulher respirou fundo. — O bebê dessa casa precisa de leite materno. Serena levantou o olhar. — Eu não... Sei se devo. — Você pode. — Eu não sei se consigo. — Posso aumentar o salário. — Não é sobre dinheiro. — Cinco mil por mês. O número ficou suspenso no ar. — Moradia inclusa. Serena fechou os olhos por um segundo. Pensou no quarto vazio, na casa abandonada, no pai desaparecido, no corpo que ainda doía por algo que ela não tinha enterrado. — Eu aceito. — Então você precisa fazer exames. Três dias depois, estava em uma clínica particular, passando por coletas, ultrassons, avaliações, entrevistas. — Está saudável. — Está apta. — Pode começar. No quarto dia, um carro preto a buscou. Ela não perguntou para onde ia. A cidade foi ficando para trás, depois as casas, depois os prédios, até sobrar só estrada. Quando o portão se abriu, Serena sentiu o estômago revirar. Era uma casa grande, isolada, cercada por verde, com muros altos e segurança. Parecia um lugar onde o mundo não entrava. Uma mulher a recebeu. — Seja bem-vinda. — Obrigada. — Vou apresentar a casa. Ela mostrou tudo: cozinha industrial, salas amplas, câmeras, regras, funcionários. — E o bebê? — Está no quarto. O coração de Serena começou a bater diferente. Ela entrou. O quarto era claro, suave, silencioso. Um berço no centro. Uma criança dormindo. Serena se aproximou devagar. A respiração da bebê era tranquila. O rosto pequeno, os olhos fechados. Algo dentro dela se abriu sem aviso. — Quer pegá-la? Serena assentiu. Quando colocou a criança nos braços, sentiu o corpo reagir. O leite desceu. A menina se mexeu, buscou, se encaixou. Serena começou a chorar. Não alto. Mas inteiro. — Está tudo bem? — Sim. Mas não estava. Ela não sabia explicar. Mas aquela criança a reconhecia. E ela reconhecia aquela criança. — Você será responsável por ela. — Eu entendi. — Durante a semana, o dono da casa não está. — O dono? — Sim. — Quem é? — Você não precisa saber. — Nos fins de semana, ele pode aparecer. — Eu devo falar com ele? — Não. — Por quê? — Porque não é necessário. Naquela noite, Serena ficou sentada na cama, com a bebê nos braços, sentindo o mundo distante. Ela olhou para o rostinho pequeno. — Quem é você? A criança respirou fundo e se aconchegou. Serena fechou os olhos. Sem saber, ela tinha voltado exatamente para o lugar de onde nunca deveria ter saído.






