CAPÍTULO 7: LIMITES

Ainda vestido como saíra do escritório — gravata intacta, camisa alinhada —, subiu as escadas internas. Ele nunca desmontava o dia antes de encerrá-lo mentalmente, e naquela noite o dia simplesmente se recusava a terminar.

No escritório, abriu o laptop e tentou voltar aos relatórios. Três minutos depois, nenhuma linha havia sido absorvida. Fechou o notebook com um gesto seco.

O incômodo voltava sempre ao mesmo ponto. Não era a aparência dela, nem o comportamento direto, nem o silêncio. Era o fato de que ele não conseguia classificá-la. E isso, para ele, era inaceitável.

Levantou-se, passou a mão pelo rosto e foi até a geladeira. Abriu, olhou sem ver, fechou novamente. Inútil.

Sentou-se mais uma vez.

A imagem retornou com clareza irritante: ela ajustando os documentos na mesa com precisão absoluta, sem hesitação, sem correção. Execução limpa. Perfeita demais.

Mas o que realmente o perturbava não era a eficiência.

Era o rubor que ele tinha visto quando ela se inclinou para entregar o relatório. Aquele tom rosa suave subindo pela pele translúcida do pescoço, impossível de esconder. O brilho momentâneo nos olhos claros sob a luz. Ele se pegou imaginando como seria ver aquele rubor se espalhar mais, como seria ouvir a voz dela perder aquela precisão cirúrgica, como seria fazer aquela calma rachar — só um pouco —, até que ela não conseguisse mais esconder o que sentia. Como seria ouvir o nome dele saindo da boca dela, rouco, trêmulo, sem a frieza profissional que ela usava o dia inteiro.

Araziel apertou o maxilar com força.

Ridículo.

Levantou-se abruptamente e tirou os sapatos com mais força do que o necessário, deixando-os fora do lugar. Parou por um segundo, olhou para eles e, pela primeira vez em muito tempo, não os recolocou no alinhamento perfeito.

No quarto, sentou-se na beira da cama, o corpo ainda tenso. Não era ela. Era o efeito que ela causava. Era o fato de que não houvera adaptação, nenhuma curva de aprendizado, nenhuma entrada. Ela simplesmente chegara e já estava funcionando, como se aquele ambiente sempre tivesse sido dela.

Deitou-se e ficou olhando o teto, que parecia mais distante do que nunca naquela noite.

Tentou racionalizar. Eficiência. Organização. Competência. Nada disso explicava o que ele estava sentindo. Faltava atrito. Faltava erro. Faltava alguma coisa que lhe permitisse exercer o controle que ele tanto precisava ter.

Virou para o lado, mandíbula ainda travada.

A mente insistia no mesmo ponto — uma variável ausente, um padrão incompleto, algo que não fechava. E o pior de tudo era que ele sentia. Mesmo sem conseguir definir exatamente o quê.

E isso era perigoso.

Fechou os olhos com esforço.

“Amanhã… eu descubro onde está a falha.”

Mas o sono não veio rápido.

E isso, por si só, já era um problema.

***

A sala de reuniões do 45º andar já estava quase cheia quando Nyana entrou.

Não fez barulho. Não anunciou presença. Não chamou atenção.

Mas, mesmo assim, três diretores a olharam do topo da mesa — o olhar rápido, enviesado, quase curioso. A nova contratada. Pequena demais. Pálida demais. Silenciosa demais.

Nyana apenas atravessou a sala e depositou a pasta de documentos de Araziel na cabeceira, alinhando-a com a borda da mesa. Depois ocupou a cadeira discreta atrás do assento que ele usaria — não ao lado, não distante, apenas no ponto exato onde uma sombra eficiente deve estar.

Os outros funcionários murmuravam entre si — comentários sussurrados sobre contratos, prazos, e… sobre o diretor que nunca tolerava atrasos.

— Ele está vindo? — perguntou um diretor de marketing, ajeitando o terno pela quarta vez.

— Está dois minutos atrasado. Isso é… incomum. — murmurou um analista, batendo os dedos no bloco de notas.

Nyana permaneceu imóvel. Sua respiração nem alterava o peito. Para ela, não havia atraso. Ele chegaria exatamente quando considerasse adequado.

Foi então que o ambiente mudou.

Não foi a porta. Não foram os passos.

Foi o ar.

É assim que Araziel entra — antes do corpo, vem a sensação. Uma pressão sutil, um alinhamento silencioso, como se algo invisível atravessasse a sala e reorganizasse cada pessoa no caminho.

A porta abriu.

E a sala inteira endireitou a postura ao mesmo tempo, como se tivesse sido ajustada com uma régua.

Ele entrou usando o terno escuro impecável, expressão neutra, olhos de predador que não buscava nada — mas via tudo.

As conversas cessaram instantaneamente. Um diretor engoliu em seco. Outro desviou o olhar, incapaz de sustentá-lo por mais de um segundo.

Nyana permaneceu exatamente como estava. Serena. Estável.

Ele percebeu. Percebeu tão rápido que quase irritou.

Araziel caminhou pela lateral da mesa, passando atrás das cadeiras ocupadas, e cada pessoa que ele cruzava recuava instintivamente alguns milímetros — mexiam nos papéis, cerravam a mandíbula, ajeitavam o colarinho.

Mas quando passou atrás da cadeira de Nyana…

Nada.

Ela não mexeu. Não desviou. Não enrijeceu.

Ele sentiu — literalmente sentiu — o contraste. Frio. Limpo. Incompreensível.

Araziel sentou-se.

A sala inteira pareceu prender a respiração por um segundo. Somente Nyana continuou respirando no ritmo habitual.

— Vamos começar. — ele disse.

A voz dele era baixa, mas atravessava a sala como peso.

Um dos diretores começou a apresentação com um clique trêmulo no controle. Slides mudavam. Números apareciam. E ninguém ousava errar.

— O setor de logística internacional apresentou uma queda de—

— Isso é irrelevante. — Araziel interrompeu sem levantar a voz.

O diretor empalideceu.

— Refaça o relatório. Foco nos envios classificados. Os comuns não me interessam.

— S-sim, senhor.

Nyana anotava tudo no tablet, dedos rápidos, expressão intacta. Ela era o espelho perfeito do que ele precisava: precisão sem emoção, presença sem ruído.

Ao lado, dois gerentes trocaram olhares nervosos. Um deles sussurrou:

— Meu Deus… como ela consegue ficar tão calma?

Ela ouviu. Não reagiu.

Araziel também ouviu. E reagiu — com um leve giro de olhos na direção dos dois, silencioso, lento, cirúrgico. Os gerentes congelaram, como animais flagrados pelo predador.

Mas, ao virar o rosto para frente, o olhar dele deslizou inevitavelmente para Nyana — que o encarava apenas o necessário para receber a próxima instrução. Nada mais. Nenhum sorriso. Nenhuma queda de olhar. Nenhuma submissão. Apenas processamento.

Era pior que desafio. Era ausência total dele como elemento de intimidação.

E isso grudou nele como uma nota dissonante.

A apresentação continuou. Ele fazia perguntas duras. As pessoas suavam. Tremiam. Se atropelavam nas explicações.

E Nyana… parecia mais tranquila do que todos os outros. Nem sua postura se movia. Nem sua respiração alterava. Nem seu olhar vacilava.

No fim da reunião, quando todos começaram a recolher os papéis com mãos trêmulas, Araziel disse:

— Senhorita Forrest.

Ela se levantou imediatamente.

— Sim, senhor.

Ele a encarou por um único instante — aquele instante pesado, cheio daquele incômodo que só ela provocava.

— Acompanhe-me.

A sala inteira ficou em silêncio. Não por medo de Araziel. Mas por curiosidade silenciosa sobre ela.

Araziel saiu. Nyana o seguiu.

E todos os outros… o olhar deles ficou preso nela. Como se tentassem entender: Como ela não tem medo? Por que ela não reage como a gente? O que há de errado nela?

#

O corredor do 45º andar estava silencioso quando Araziel parou diante do elevador.

Nyana veio atrás dele, passos leves, postura impecável, óculos escuros discretos repousando sobre o nariz — não por vaidade, mas por necessidade.

Entraram.

Desceram sem falar.

Quando as portas se abriram no subsolo executivo, dois seguranças aguardavam — postura firme, mãos cruzadas atrás das costas, olhar treinado para varrer qualquer risco em silêncio.

— Senhor Vael. — cumprimentaram em uníssono.

Ele apenas inclinou a cabeça.

O motorista já havia aberto a porta traseira do sedan blindado, um veículo de linhas austeras, sem ostentação, mas nitidamente caro para quem soubesse observar.

Nyana entrou primeiro.

O interior era escuro, climatizado, com estofado firme e painel minimalista. Ela ajustou a bolsa ao lado do quadril e o cinto com movimentos precisos, quase silenciosos. Seus óculos escuros refletiam a luz suave do LED interno, escondendo o olhar pálido que ela sempre protegia da claridade excessiva.

Araziel entrou logo em seguida.

O motorista fechou a porta com cuidado.

A divisória eletrônica subiu automaticamente — isolando os dois em completo silêncio acústico.

Agora era só eles dois.

Nyana pegou o tablet. A postura dela era impecável, como se o próprio interior blindado a instruísse a manter aquele silêncio estável.

— Senhor Vael, revisei todos os parâmetros do almoço. — ela disse, com voz calma. — O restaurante privativo confirmou a sala subterrânea. Entrada pelos fundos. Segurança reforçada. Nenhuma outra reserva naquele horário. O senhor poderá almoçar em paz depois da reunião.

Ele apenas fez um sinal com a mão para que ela continuasse.

O carro arrancou.

O motorista tomou uma curva mais abrupta que o habitual — não por descuido, mas por padrão de evasão.

O corpo de Nyana inclinou sutilmente para a frente. Ela tentou compensar com rapidez, mas o cinto de segurança a puxou de volta com um tranco suave. O movimento foi breve, quase imperceptível… mas suficiente para que o ombro dela roçasse o braço dele.

Apenas um toque.

Leve.

Quase inexistente.

Mas real.

Araziel ficou completamente imóvel. Um predador interrompido no meio do movimento.

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